À Janela dos Dias


Sombra e luz

Deprimida por, mais um vez em poucos meses, ter que desalojar uma boa parte de meus livros, desta feita para troca de algumas estantes (as atuais envergaram sob o peso da literatura, ops! dos livros.). De cada pequeno espaço, saltam centenas de volumes e... uma vez mais... fora do eixo... o ônus de viver numa bibliocasa...

Mas eis que, já noite entrante, a luz penetrou pela casa inteira, cegando de fulgor uma saudade que já teimava em se instalar: Filipe, meu neto, voltou de uma temporada praiana de 10 dias e nada mais foi o mesmo. A pele com reflexos dourados  como só é mesmo possível a um ser resultante de mestiçagem (mouro, ibero, luso, brasileiro e sabe-se lá o quê) mais um sorriso arrebatador, recolocam no eixo vital qualquer ser desamparado, neste caso, uma avó absolutamente refém de tantos encantos (dtv).  



Escrito por Dalila Teles Veras às 23h41
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Infância descartada

Ganhei minha primeira boneca aos 8 anos. Veio das Ilhas Canárias, onde o navio que trouxe o meu pai de volta da Venezuela para a Ilha da Madeira, parou por algumas horas, propiciando a oportunidade para a compra do presente.

Um extraordinário marco na minha memória de encantamentos. A boneca que chegava à altura de minha cintura, era, hoje eu diria, uma verdadeiro trambolho. Rígida, não havia uma maneira de levá-la no colo, mas (espanto) “andava”!. Assim como fazemos com os bebês que iniciam a andar, segurando-os pelos braços, eu também segurava minha boneca pelos braços e não é que ela me acompanhava, movendo as pernas (sempre retas), ao mesmo tempo em que virava a cabeça para a esquerda e para a direita. Ah! Ao deitá-la, também fechava os olhos e emitia um ruído parecido com choro.  O sucesso da novidade entre minha pequena roda de colegas de escola e vizinhas foi estrondoso. Não havia nas redondezas outra igual e cuidei dela com inigualável desvelo.

Antes dela, possui pouquíssimos brinquedos. Panelinhas de lata e outros “utensílios” miméticos para “armar a casinha” e algumas bonecas de pano. Gostava mesmo era de inventar brinquedos com materiais encontráveis dentro de casa e no quintal (carimbos feitos de batata, bonecos e flores resultantes de recortes em papel de seda) e mais ainda, e um pouco mais tarde, de brincar com meu irmão, um ano mais novo, “brincadeira de menino”. Soltar papagaios (maravilha vê-los voar, voar...), rodar pião, esconde-esconde, bolinhas de gude, enfim...

Lembrei-me desses meus tempos contidos, ao deparar-me com esta cena, numa de minhas (poucas) caminhadas exploratórias pelo meu bairro, o Jardim Bela Vista (que sempre acabam rendendo assunto para um post nesta janela):

 

 

 

 

Jogadas num depósito de lixo de um edifício, estas bonecas, descabeladas e sem roupas (perturbadora imagem da sociedade do fastio). 

 

Com que idade estaria a dona dessas bonecas? Pergunto-me. Teria hoje uma menina de 8 anos interesse em semelhante brinquedo?

O mundo do excesso tudo descarta, inclusive a própria infância. (dtv)



Escrito por Dalila Teles Veras às 23h28
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A crônica e o tempo

A psicanalista, escritora e jornalista cultural Maria Rita Kehl estreou, ontem, coluna no Caderno 2 do Estadão. De cara, mostrou que tirará de letra este novo desafio, ou seja,  “trocar em miúdos” reflexões complexas, que, na verdade é, por definição, o papel de um cronista. Nem por isso, diga-se, o cronista (o bom cronista) precisa fazer concessões (e Maria Rita não fez), mesmo porque não se pode subestimar nenhum público, muito menos o de um grande e tradicional jornal como o Estado de São Paulo, de circulação nacional.

Sempre me pergunto o que faz com que, ao abrir o jornal, vá direta aos cronistas antes de ir ao editorial ou às noticias. Qual seria a química que faz com que dentre, por exemplo, os 12 cronistas que se revezem diariamente na última página do Caderno 2, minha escolha recaia nestes e não naqueles. O cronista vai além da notícia e nesse ir além, cria identificações. Talvez sejam essas identificações que determinam as minhas escolhas. Leio aqueles que dizem aquilo que eu diria, mas que não disse, quer por falta de competência ou oportunidade. Leio os cronistas que, sei, dizem muito melhor que eu. Leio os cronistas que escrevem fácil, sabendo que não foi fácil chegar no fácil. Leio (também) os cronistas que escrevem difícil porque a palavra é (também) desafio e precisa de um mínimo de esforço mental para ser decodificada.

Esta sua primeira crônica, intitulada Meu tempo, Maria Rita estabelece, de imediato, uma profunda identificação com esta leitora. Entre outras coisas, diz ela, concluindo seu texto: “meu tempo não foi tecido apenas das coisas que efetivamente fiz. Sou fiel ao que fiquei devendo à minha geração, essa rede de identificações imaginárias a que julgamos pertencer. A história daquilo que não fiz é minha biografia em baixo-relevo, indelével como todos os desejos não realizados”.

Puxa vida! Fui atingida em cheio. É exatamente a esse grupo de pessoas que me filio, aquelas que necessitaram “estabelecer, a posterior, alguma solidez” às “recordações do tempo de juventude”, “riquíssimo período em que se estabelecem, por tentativa e erro, nossas grandes referências exogâmicas, cosmopolitas, universais”. A palavra (e neste caso, a crônica), em suma, é isso: exogamia (informe-se, como diria Hilda Hilst, poeta que, entre outras coisas, também foi grande cronista – de minha parte, devo dizir que também tive que ir até o Houaiss buscar o significado de exogamia).  dtv



Escrito por Dalila Teles Veras às 22h54
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arquitetura antitudo

Escrevi este poema há pelo menos uns cinco anos (publicado em Retratos Falhados, Ed. Escrituras, São Paulo, 2008). Desde então, as coisas (e o meu espanto diante delas) só pioraram. Constatei hoje pela manhã, ao caminhar pelo meu bairro (Jardim Bela Vista, Santo André), o quanto as calçadas são o produto (in)acabado de uma cidade inviável para pedestres. Vão se construindo ao bel prazer de cada morador, arquitetura antiestética e antítese do livre acesso e bem comum, arquitetura antitudo.

Aqui vai o poema antigo para um problema cada vez mais atual, desta feita, ilustrado:

 

 

 

 

calçadas

 

caçambas, postes, lixeiras, degraus, buracos, correntes, camelôs, dejetos de cães e gatos: perigos a superar. passeio que não leva a nenhum passeio e interrompe-se em rampas para a rodagem de pneus. passeio que alguém um dia entendeu canteiro (ânsias de beleza?) e ali plantou palmeiras e arbustos miúdos, segunda natureza a impedir a passagem. a metrópole reservou ao homem a estreiteza das calçadas, tortuosas passagens, rejeição ao  caminhar



Escrito por Dalila Teles Veras às 22h44
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Haicai

Sem que ao menos irada fosse a palavra, mas ainda assim desferida em frágil alvo, ficou-me o melancólico sentimento de remorso. Este haicai, publicado em meu livro À Janela dos Dias, bem que poderia ter sido escrito hoje (plágio de mim mesma):

 

palavra irada

pedra atirada ao léu

fere sempre o mais querido



Escrito por Dalila Teles Veras às 23h34
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Conversa

Acabo de ler, em Maria Gabriela Llansol, citando Hadewijch (poeta místico do séc. XIII):

 

O Amor proclama a vitória, quando une dois iguais. Mas vitória bem maior proclamou nesse dia quando igualizou o que, à partida, era desigual” e, ainda, “o amor não muda o amado, a si próprio se transforma”. 

Isso imediatamente me remeteu a uma conversa que tive hoje à tarde quando tomava chá com uma adorável jovem amiga, exemplo extraordinário de caráter de doação e  desprendimento. Quando topo com pessoas desse quilate, aprendo e tendo a acreditar que a humanidade tem jeito, sim.



Escrito por Dalila Teles Veras às 22h58
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Homenagem

Do conjunto de poemas-homenagens para as pinturas que ocupam as paredes da minha casa e, ao lado das lombadas dos livros, constituem os principais elementos da paisagem  da vida cá dentro, aqui vai um deles para Damara Bianconi, artista/amiga que muito admiro e estimo (com o pedido de desculpas pela foto amadora – não havia luz adequada – que não traduz nem de longe a beleza da obra. Estou ciente que reproduzir uma foto dessas é uma irresponsabilidade, mas vale a intenção da homenagem e espero que a homenageada compreenda e perdoe):

 

 

 

 

(Pintura 1998, técnica mista, colagem e acrílica s/telas/tela, 90x140cm)

 

 

 

Anotações sobre uma tela de Damara Bianconi

                     ao som de um adágio de Albinoni

 

Lentos eram os tempos

(rendas irlandesas e bordados

linhas e transparências)

(entre)vistos pelos

postigos, ferro em arabescos

 

Lentas eram as mãos

- artífices -

teciam e forjavam

(o labor pela beleza)

 

Vigorosas pinceladas

(e um nó, à revelia da artista)

atam, sutis

indissolúveis laços

evocam gerações

aprisionam tempos

(velhos e lentos / novos e descuidados)

 

 

 

(detalhe do quadro)

 

 



Escrito por Dalila Teles Veras às 22h20
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Presente!

Antes que o dia acabe, quero deixar aqui registrada a minha “presença”, ainda que pouco tenha a dizer (ou ânimo para dize-lo), ocupada que ando com tarefas coletivas que requerem minha presença e meu trabalho (quase) braçal (se por isso se entender: telefonar, visitar, mandar emails, redigir textos, cartas, petições, etc.

Acabo de colocar um post no blog do Alpharrabio (vide), onde, aliás, será possível “sentir” a atmosfera de azáfama local, rumo às comemorações dos 18 anos da livraria e espaço cultural de Santo André.

Prometo voltar com algo um pouco mais inteligente e instigante que possa estar à altura dos poucos (mas bons) leitores. (dtv)

 



Escrito por Dalila Teles Veras às 23h48
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Saramago e sua Jangada solidária

A idade e a doença abateu fisicamente o nosso Nobel Saramago, mas sua integridade moral de cidadão permanece em sua melhor forma.

Acabo de ler em seu blog que a Fundação Saramago viabilizou, parceria junto a editores, gráficas e distribuidores e livreiros, uma edição especial de seu livro A Jangada de Pedra, cujos resultados das vendas serão integralmente entregues à Cruz Vermelha para ajuda às vítimas sobreviventes da tragédia do Haiti.

E Saramago sonha: “Se chegássemos a um milhão de exemplares (o sonho é livre) seriam 15 milhões de euros de ajuda.”

Além de Portugal a edição  também será publicada na Espanha e nos países hispânicos da América Latina. Ops! E no mundo luso da América Latina?! Então a nossa Companhia das Letras que já tanto lucrou com as vendas dos livros de Saramago no Brasil não se vai juntar à Caminho e Alfaguara, para que esta edição humanitária do livro também seja vendida no Brasil e possa chegar ao milhão de exemplares sonhado? Espero que eu não tenha compreendido bem o texto e que Alfaguara brasileira o publique no Brasil. Como leitora e livreira quero participar desse projeto.

Leia o texto na íntegra, clicando aqui



Escrito por Dalila Teles Veras às 20h59
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Fados

Continuo mergulhada em leituras sobre a história do fado e a bibliografia não para de crescer. Acaba de aterrissar por aqui mais um interessantíssimo livro, Canção d´Além-Mar – O fado e a cidade de Santos, organizado pela historiadora e estudiosa de música,  Helóisa Valente, obra interessantíssima que através de textos de vários autores, além dos da organizadora, não só historia a presença do fado naquela cidade (para onde emigrou (em especial na primeira metade do século XX) e ainda ali reside, um expressivo número de portugueses, como também estuda o fado como gênero e expressão musical, partindo de um programa de rádio, “Presença Portuguesa”, por várias décadas levado ao ar em Santos, entrevistando fadistas, locutores e ouvintes portugueses.

Num dos textos do livro, Mônica Rebecca Ferrari Nunes, doutora e mestre em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), filha de pai madeirense e mãe brasileira, desenvolve “a hipótese de que o fado atua como um marcador da memória do imigrante português pesquisado, tomando o fato de que mesmo integrado ao Brasil, graças ao idioma e ao lastro histórico que une os dois países, o português reconstrói, simbólica e imaginariamente, a terra natal da qual, afetivamente, nunca se separa”.

Como portuguesa e imigrante, identifiquei-me bastante com essa hipótese, a do fado atuar como “marcador da memória”. Darei mais notícias no decorrer das minhas leituras e anotações. (dtv)



Escrito por Dalila Teles Veras às 23h47
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Coincidências e espionagens

Dias destes, aterrissou em minha mesa um livrinho de Enrique Vila-Matas (again), adquirido via comércio virtual e já lá vou pela 80ª página. Comprei-o por dois motivos. O primeiro, pelo impacto de saber que o escritor de minha predileção havia dado a este  romance, Estranha forma de vida, o mesmo título (ou quase) que eu havia escolhido para um livro de poemas que estou a escrever, ou seja, Estranhas formas de vida.

O segundo, porque sempre que encontro livros desse escritor, compro-os (já li todos os que foram publicados no Brasil), simplesmente porque ler Vila-Matas é exercício de puro deleite estético e literário.

Quanto à coincidência do título (com toda esta facilidade de informação, nunca sabemos nada, nada... o livro que estou a ler, foi traduzido por um conterrâneo madeirense, o poeta José Agostinho Baptista, foi publicado em Portugal em 1997, pela Assírio & Alvim... e eu, até então, não sabia...), nem é preciso dizer que senti-me absolutamente frustrada,  mas ainda assim, não estou certa se o mudarei. Os poemas do livro são precedidos de epígrafes retiradas de letras de fado e utilizam-se da idéia de “fado” como destino, “forma de vida”.  A concepção de todo o livro foi inspirada exatamente pela intrigante letra do famoso fado Estranha forma de vida, de Amália Rodrigues e Alfredo Marceneiro, na qual Vila-Matas igualmente se inspirou. Diga-se que também a biografia de Amália, publicada em 1987, leva o título daquele fado (mas desta eu tinha conhecimento).

Profeticamente antecipando coincidências, diz-nos o escritor espanhol: “todos nós, os que contamos histórias, somos espiões, mirones. A vida é demasiado breve e não se pode viver o número suficiente de experiências: por isso é necessário rouba-las.”

Em tempo: o narrador desta novela, um escritor, também costuma portar um caderninho onde anota diálogos de estranhos em lugares públicos.  Cuidado, portanto, quando, ao seu lado, nas filas de espera de bancos, consultórios médicos, restaurantes, elevadores etc., alguém portar uma caderneta – as de capa preta são as mais características. Antes que você se dê conta, virou personagem. (dtv)



Escrito por Dalila Teles Veras às 22h45
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Quando os deuses cibernéticos conspiram

Bem feito! Havia acabado de digitar um texto para a postagem de hoje que falava da minha neurastenia diante da escravidão face ao vertiginoso “avanço” da tecnologia, que nos obriga a trocar PC´s, TVs, o diabo, pois as “novas mídias” não mais são “lidas” nem “compatíveis” com os aparelhos comprados ontem.

Nem houve tempo de “salvar como” o tal texto e puft... lá entra um famigerado “erro” no programa “word” (que, por sua vez e de acordo com a factotum Luzia Maninha, de há muito caducou e precisa ser trocado)  que impede a continuação de trabalho naquele arquivo. Sem dúvida, uma vingança imediata e conspiradora dos deuses cibernéticos. E não é que o desabusado programa, após fazer “sumir” o tal texto, ainda me pergunta se desejo receber o “relatório de erro”. Ímpetos de mandar à  m.... esse “golem” (que, na intimidade, trato por “Funes, el memorioso”), criado para servir (e não errar), mas não só “erra”, como também não “obedece” e ainda quer “mandar”.

Dou por encerrado o post, com meus altos protestos pelo tempo perdido a tentar recuperar o texto, sem sucesso. (dtv)



Escrito por Dalila Teles Veras às 22h59
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Violetas

Gosto de flores e quanto mais singelas, mais delas gosto. Além de flores do campo, como as singelas margaridas, gosto de violetas, essa delicada e ao mesmo tempo exótica florzinha, originária da Tanzânia, que se deu tão bem no Brasil, a ponto de, dizem (li no “dr.” Google) haver já  seis mil espécies catalogadas no país.

Há muito cultivo violetas. Sempre tenho vasinhos dessa encantadora plantinha espalhados pela casa, mas o local onde elas melhor florescem é na cozinha e no banheiro (boa luminosidade, mas sem incidência direta dos raios solares – temperatura em torno de 25 graus C. – ficam ali, em frente à janela, banhando-se de luz e devolvendo a dádiva em flores)

Uma das características dessa planta é florescer sempre em forma de “cacho”, ou melhor, não precisa ser colhida para ser transformada em buquê, pois já no vaso é buquê. Gosto, em especial, das violetas cor de... violeta, com seu roxo de magenta e azul que alguns dizem remeter a tristeza, mas que no meu caso, remete a algo sereno e aconchegantemente aveludado (ainda que, disseram-me, fosse a flor preferida de Napoleão, argh! vade retro!).

Não é que hoje fui surpreendida com este presente:

 

 

 

 

Ao contrário de suas irmãs que sempre me oferecem buquês:

 

 

 

esta muda que, de outras vezes, me ofereceu bouquês, me presenteia com um exemplar único, solitária flor, mas nem por isso “buquê”, nem por isso bela, na sua bela aveludada singeleza:

 

 



Escrito por Dalila Teles Veras às 21h10
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São Paulo – improvável paraíso

A cidade de São Paulo aniversaria. Maior cidade do Brasil (a 6ª maior e a 10ª cidade mais rica do mundo), o chamado motor econômico do país, onde tudo é superlativo, é também (e por isso mesmo) simultaneamente megalópole caótica, improvável paraíso.

Mas como não amar essa “cidade impossível”? como diria meu amigo Tarso, ainda que seja, como todo o amor, um sentimento mutante, às vezes pincelado por uma certa revolta.

Aqui cheguei aos 11 anos de idade, aqui estudei, trabalhei, amei, vivi. Mesmo residindo em Santo André (cidade que faz parte da chamada região metropolitana de São Paulo  - 19.223.897 habitantes) desde os 26 anos de idade, sempre me senti uma paulistana. Uma paulistana nascida na Madeira, como tantos outros “paulistanos” que nasceram na Itália, no Japão, na Alemanha, no Nordeste, no Norte ou no Sul do Brasil.

Para mim, “ir à Capital” é ir “à cidade” ou “ao centro”, diga-se, a apenas 20 km de distância. “Ir à cidade” é embrenhar-se pelas (im)possibilidades de uma cidade sempre a ser descoberta. Abrir seus escaninhos, desmembrar camadas, desvendar mistérios, surpreender-se.

Hoje, a minha homenagem vai através de algumas fotos obtidas nas inúmeras idas a Sampa, clicadas, eu diria, com uma espécie de vergonha em “parecer” turista em sua própria terra.

Como tenho programada uma “expedição” ao centro velho (lugar das minhas memórias) para breve, ficaremos apenas na região da Av. Paulista, centro nervoso (o dinheiro é sempre neurótico) e nevrálgico (a cultura é sempre de nervos tensionados) da cidade.

 

 

(O velho que (pouco) resiste e o novo que se impõe)

 

 

 

(O verde que insiste em nascer do asfalto)

 

 

(subterrâneos que engolem multidões)

 

 

(subterrâneos que escondem a cloaca)

 

 

(o museu que abriga o mundo)

 

 

(a livraria que reúne - livros e gente)

 

 

(ainda que alguns prefiram o isolamento)

 

 

Aqui, a cidade é, sim, o provável paraíso 



Escrito por Dalila Teles Veras às 15h43
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Diário e comichão

Como há tempos já contei aqui, sou uma compulsiva escrevinhadora de diários. Diários de viagem, principalmente (registros da vida estrangeira e daquela que não sou (estrangeira sempre, olhos para a diferença... ).

Desde 1999 o diário tornou-se uma prática incorporada à minha rotina, uma forma de reter os dias na memória tão maltratada pelo excesso de informação.

Acabo de entrar num arquivo do Word (aliás, o único programa que domino nesta maquininha de fazer doido, além da Internet – escrever e navegar – seria isso o viver?) e dou com um diário (este com intenções literárias) do ano 2000 que acabou permanecendo inédito.

Uma comichão repentina baixou por aqui: não seria a hora de publicá-lo? 2000 (re)visto em 2010? Dez anos e muitos diários (e blogs) depois, anotações do começo do novo século. Dúvidas, no entanto, povoam essa vontade. A esse respeito, já submeti minhas dúvidas à minha leitora crítica número um (RCC) e aguardo um parecer. Depois contarei

ET: o primeiro texto do ano 2000:

Janeiro, 1, sábado

nem ano,  nem século, nem milênio, apenas um novo tempo se inaugura, sob o peso cabalístico dos zeros e a vontade de mudar fatalismos decretados por profetas equivocados. o milênio nasce (sem discussões. ponto). é tempo novo, pois novo é o dia de todo o dia. o cheiro de churrasco mescla-se ao verde mata atlântica. o planeta tem cura



Escrito por Dalila Teles Veras às 22h36
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