À Janela dos Dias - dalila teles veras


Veta Dilma

É hora de enfrentar com coragem os agropecuaristas posseiros que posam de salvaguardas da Pátria. Veta, Vó, Veta Tudo.

 



Escrito por Dalila Teles Veras às 21h36
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terra à vista, janela fechada

O frio especial das manhãs de viagem,

A angústia da partida, carnal no arrepanhar

Que vai do coração à pele,

Que chora virtualmente embora alegre

       Álvaro de Campos (engenheiro naval e viajante vagando profissional)

 

É sempre assim, viajar deveria ser apenas chegar, jamais partir. Estou de partida, do coração à pele, o sentimento repartido entre o que se deixa e o que se vai encontrar. Vou à busca de rizomas. Anotarei para, quem sabe, contar. Afinal, como também bem o disse o engenheiro naval, "a melhor maneira de viajar é sentir" e não é sempre que o sentir vira literatura.

A janela ficará fechada até o início de junho próximo. A escriba pede desculpas antecipadas aos que por aqui passarem, agradecendo a visita. (dtv)



Escrito por Dalila Teles Veras às 14h15
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post/comentário

 

Recebi, por email, um comentário da Isa Ferreira, lá de Lisboa, alusivo ao meu último post. Por achar pertinente, e concordar que provedores de blogs são insensíveis à poesia, vai aqui o comentário, em forma de "post" colaborativo (a foto é da autora da mensagem):

 

 

"(...) O que é preciso é gente
que atire fora com essa gente

Essa gente dominada por essa gente
não sente como a gente
não quer
ser dominada por gente

NENHUMA!

A gente
só é dominada por essa gente
quando não sabe que é gente" - Ana Hatherly, in "Um Calculador de Improbabilidades"

 

"Amiga Dalila

Lembrei deste poema quando li no "À Janela..." - Campanhas sucessórias e políticas públicas da cultura (*)

deu até vontade de o colar lá com uma foto de Maio, em Lisboa. Bem, a foto é dispensável, mas o poema seria bem aplicado, só que esse UOL é de horrivel formatação para se transcrever poemas no espaço reservado a comentários"

  

 



Escrito por Dalila Teles Veras às 20h50
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Campanhas sucessórias e políticas públicas da cultura (*)

Em conversa recente com uma amiga, com quem há anos compartilho ideias e militância cultural, confessamos uma à outra o nosso desânimo diante da tabula rasa em que, via de regra, os governos  metem as questões da cultura.

A esperança na possibilidade de mudanças diminui quando se ouve novos e velhos postulantes a cargos eletivos abordarem o tema. É verdadeiramente preocupante ver como  "atividades e grandes eventos" ainda pautam as (inexistentes) políticas públicas da cultura. Panorama de terra arrasada mesmo, disfarçada em espetáculo pirotécnico e conteúdo (muito) duvidoso.

Dói (e ao mesmo tempo chega a ser patético) receber assédio diário de gente que sempre nos ignorou e que agora quer colar à sua estampa um verniz de secagem rápida, mas "visível". O verniz da cultura (ou o que para eles representa cultura).

Neste sombrio panorama, todos aqueles que passaram a vida lendo, discutindo, propondo, praticando e refletindo sobre o assunto, tendem ao desânimo diante da correlação de forças, ou seja, levar em conta a realização de um projeto sólido de construção, calcado em longo e firme processo versus a simplificação reles da política de balcão e espetáculo. Joga-se no lixo a massa crítica acumulada no estudo, na discussão e na prática, posto que as pessoas comprometidas com esse processo jamais são ouvidas e levadas em conta, e, no lugar, coloca-se a mediocridade que visa apenas ao que chamam de "visibilidade" para a gestão, de acordo com a conveniência política do momento.

Distribuiu panfleto na campanha eleitoral do Prefeito? Cantou no palanque dos comícios? Pronto, candidato virtual a um cargo ou, quem sabe, a uma diretoria ou secretaria. Em que área? Ora, na cultura, que é o setor onde tradicionalmente se mete todo aquele que precisa de uma "recompensa" pelos "relevantes trabalhos prestados à campanha", mas que, a bem dizer, não se sabe bem o que faz e nem onde pode ser metido. Depois, esses senhores(as), como já ouvi de titulares de pastas da Cultura, se arvoram em "doadores de cultura para o povo".

Antes que comecem suas respectivas gestões, deveriam ser informados por alguém bem intencionado, que o Estado não pode e nem deve ser mero distribuidor de verbas através do despacho de recursos e tampouco exercer o papel de Caio Mecenas (70 a.C.8 a.C.), o Ministro de Otávio Augusto, que distribuía favores em troca de fidelidade ideológica. O papel do Estado também não é propriamente o de gestor, com o nosso já velho conhecido dirigismo estatal e catequese partidária, disfarçados em política de cultura. O Estado tampouco é produtor cultural, é bom que se lhe diga. Deve, isto sim, ser um facilitador  e multiplicador de condições para que a prática cultural seja ampla e descentralizada, fugindo do paternalismo e do toma-lá-dá-cá.

Assim como o Estado não deve arcar com toda a responsabilidade das questões culturais, a iniciativa privada  também não pode ser vista como a saída para todas as soluções.

Ao longo de toda sua história, o Brasil raramente mostrou competência na administração das questões culturais, oscilando entre práticas como o dirigismo ou paternalismo,  ora em desastrosas trocas e favorecimentos. Entretanto, é preciso admitir que avanços e ousadias nas políticas públicas da cultura foram implantados no governo Lula com ampla participação e adesão da sociedade civil em todo o território nacional (vide Plano Nacional de Cultura, Plano Nacional do Livro e da Leitura, Pontos de Cultura, etc.), mas que, lamentável e inexplicavelmente, neste governo Dilma perderam força, patinam ou, por questões políticas e opções pessoais da atual Ministra, não apresentam as soluções de continuidade (ou, se for o caso, de revisão) esperadas. Nem por isso deixaram de ser importantes. Por se tratar de programas que garantem continuidade de políticas públicas, independentemente dos partidos que venham a assumir os governos futuros, devem continuar a merecer o apoio da sociedade.

No plano local,  é hora de estabelecermos, de forma legitima, eficaz e permanente, relações e diálogo entre sociedade civil e governo, fazendo valer demandas, metas e massa crítica acumuladas pela comunidade cultural, como é o caso das Conferências de Cultura realizadas em toda a região, incentivando sua continuação, revendo e ampliando seu conteúdo. Conselhos de Cultura legitimamente constituídos, atuantes e representativos devem, sim, ser estimulados pelo governo local. É hora de exigir políticas públicas que vão além do mero discurso de intenções.

Isso dá muito trabalho, como sabem todos aqueles que deixam seus afazeres cotidianos para doar boa parte de seu tempo à "militância" cidadã, participando voluntariamente de debates, Conselhos, Conferências, Seminários, Fóruns, Associações de Amigos de Bairro, etc. Entretanto,  pergunto-me se desconfiarão desses caminhos e estarão dispostos à doação e ao sacrifício os meros perseguidores de poder, oportunistas de plantão que fazem da política trampolim para seus projetos pessoais e sonhos de glória? É o que precisaremos verificar neste ano eleitoral, em especial, levantando e conferindo a "vida pregressa" dos candidatos e seu envolvimento histórico com essas questões. (dtv)

(*) texto originalmente publicado no O lugar escrito, blog do Fórum Permanente de Debates Culturais do Grande ABC ( http://www.olugarescrito.com/ )



Escrito por Dalila Teles Veras às 20h37
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devoração e catarse

Há um bom tempo, uma indesejável drósera cruzou o meu caminho. Sem armas diante do combate iminente (fiat lux!), fiz dela literatura (A palavraparte, 1996), única arma que sei usar:

"DRÓSERA

aquele nome não lhe fora dado em vão Desde o nascimento mostrara-se visceralmente uma devoradora de carnes e gentes Primeiro a mãe Engoliu bem devagar Depois o pai e todas as freiras do orfanato O impulso era incontido Mirava a vítima através de suas grossas lentes de RX Adivinha-lhe os anseios Acarinhava-a planejando o bote em cada gesto Vestia-se de tristeza e abandono Usava seu olhar mais nu Seu sorriso mais cândido Sua voz mais adocicada e chamava-a (à vítima) de minha amiga Ninguém lhe escapava ao encanto Misto de bruxa e apresentadora de tv Insuspeita assassina

tantas vítimas fez a drósera insaciável no seu delírio consumidor de gentes que acabou na boca de um grande touro devorada feito erva daninha em plena av São JoãO"

Então, deu-se a catarse, erva definitivamente extirpada de meu jardim de convivência humana. Depois dessa, algumas outras dróseras cruzaram o meu caminho, mas essas nem chegaram a fazer cócegas, o veneno que extraí da primeira foi suficiente para manter à distância todas as outras que, vez ou outra, também acabaram por virar literatura.

Hoje, ao retirar um medicamento homeopático que mandara aviar sem ter lido o pedido do médico (até porque não adiantaria, posto que a letra dele é ilegível), leio no rótulo datilografado (sim, a farmacêutica homeopata ainda datilografa rótulos e se dá ao luxo de usar também a parte vermelha da fita da máquina) que um dos componentes é nada menos do que a tal drósera (a planta, neste caso, nada metafórica, grafada em vermelho). O princípio da homeopatia, Similia similibus curentur (a cura pelos semelhantes) cabe aqui como uma luva. A drósera devoradora, devorada pela literatura,  agora é devorada em gotas e vira antídoto para uma indesejada e impertinente tosse que há dias tenta me devorar. A realidade simbólica e metafórica para além do real. Símbolos, símbolos... Nada custa acreditar. (dtv)



Escrito por Dalila Teles Veras às 21h13
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Em cartaz

o filme já entrou em cartaz e permanecerá até o mês de outubro próximo deste ano  eleitoral. trata-se da mesmíssima fita, cuidadosamente armazenada e resgatada a cada quatro anos. sorrisos maquiados e hipocrisia preenchem a tela. tudo é reinaugurado, com direito a festa e discurso, ainda que seja um mero detalhe na decoração. os poetas, então! pobres poetas e artistas, procurados às portas das urnas, como ornamento para respaldar o que velho e decrépito está. há mais de seis décadas, já bem o percebia o poeta torga e anotava no seu diário: "um político é um ator transviado sempre à espera de palmas, e o poeta é um implacável espectador sempre de assobio pronto. E nem ele pode deixar de ser condizente, nem eu de lhe apupar a comédia". assim, mantenho eu o meu papel histórico e crítico. ir sempre aos livros é encontrar respostas, coisa que políticos, cada vez com mais convicção, solenemente ignoram. querem respostas rápidas, tiradas da cartola nos palanques. no lugar as palmas, ovos podres neles. (dtv)

 

E já que hoje é 25 de abril, lembremos de um grande momento na história política de Portugal, a chamada Revolução dos Cravos, ouvindo esta magnífica e emblemática canção "Grandola, Vila Morena", interpretada por seu autor, o genial músico e compositor Zeca Afonso (aumente o som para melhor perceber o comecinho da música):  



Escrito por Dalila Teles Veras às 11h26
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diário de bordo - o mundo (e a vida) cabe numa semana

um encontro com um mestre, que se diz fascinado pela materialidade da fotografia e os seus tantos processos no sentido de sensibilizar a fruição. lição magna de olhar, ver e concretizar o fazer artístico. uma mulher inesperada, na sua exuberância de ser humano preocupado com seres humanos e com o ato de viver, encontro tardio em meio a livros e autores. definitivo. um bêbado inconveniente e lúcido desvia o percurso da conversa e faz pensar. um octogenário recria sua história com eloquência e entusiasma com seu entusiasmo. Todas as memórias acabam por virar literatura (ainda bem). um filme sobre uma lenda viva da música brasileira e o eco da perturbadora genialidade de raul que não foi, à sua época, devidamente avaliado pela escriba. a fotógrafa que também se vale da memória e do acaso objetivo para construir narrativas e, fiel às origens lusas, vai tecendo cantigas de amigo e bem viver. todas as memórias acabam por virar arte também. outra amiga pede abrigo e é ela quem abriga. a família toda reunida ao redor da mesa e dos afetos. o pequeno filipe espanta-se e fica entediado em visitar uma casa onde não há livros para crianças. a vida sem literatura, percebe logo cedo, é muito sem graça. de chirico no masp abre suas portas metafísicas e acolhe os olhares visitantes, que se quedam diante de uma realidade subvertida pelas coisas do inconsciente. os corpos dequiriquianos, enormes, transportam em seu bojo cidades inteiras. suas pernas, ao contrário, são curtas, insuficientes para percorrê-las. o poeta retratado por de chirico é solitário e não tem braços nem feições, seu corpo abriga portas infinitas para o mundo, fado de todo o bardo que se preze. a voz da amiga chama na noite deste domingo, demonstrações transatlânticas de amizade. bom isso, o viver vertiginoso. bem melhor seria vive-lo de forma mais espaçada, mas a escolha está feita. amanhã é segunda. começar de novo é preciso. (dtv)  



Escrito por Dalila Teles Veras às 23h11
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Salão do Livro de Suzano

 

A partir de hoje, até o dia 22 de abril, está aberto ao público o I Salão Internacional do livro de Suzano

Na próxima terça-feira, 17.04, às 19h estarei lá, ao lado de Maria Valéria Rezende. Fui convidada para uma conversa com o público, dentro de um dos espaços temáticos, denominado "Trajetórias Literárias".

Durante 10 dias e 100 horas de programação, mais de 50 autores de todo o país e do estrangeiro participarão do evento que reúne um grande número de editoras e espera receber 100 mil visitantes.

Participam dos painéis do "Trajetórias Literárias", dentre outros, os escritores brasileiros Sérgio Vaz, Fernando Bonassi, Marçal Aquino, Paulo Lins, Marcelino Freire, Reinaldo Figueiredo, Audálio Dantas, Márcia Tiburi, Menalton Braff, Heródoto Barbeiro, no plano internacional, destaca-se o chileno Antonio Skármeta ("O Carteiro e o poeta", adaptado para o cinema). Honrada, sinto que estarei muito bem acompanhada.  (dtv)

Informações e programação completa: Aqui



Escrito por Dalila Teles Veras às 22h51
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carga e leveza - exercício filosofante em dia de borrascas

arqueada, sob o peso de fantasmas, corpo e alma em desalinho, deitou na maca para a sessão de acupuntura

 

sobre a mesa um arranjo de ikebana rouba a cena acética do consultório e arrebata o olhar. uma exuberante dália róseo-lilás repousa em folhagens verdes roubadas de outros caules. do ocre do elegante vaso cerâmico vitrificado, saem  galhos secos que exibem em suas pontas delicadíssima folhinhas verde-claro, acabadas de nascer. o eterno retorno. o mundo não é tão vasto e a vida é isto, poucos os fatos

 

pontos de luz piscaram no ambiente. só mesmo ao ser humano foi reservada essa fantástica capacidade de perceber e transformar a natureza, ainda que poeirinha da poeira seja o ser (dtv)



Escrito por Dalila Teles Veras às 21h40
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Afirma Pereira: Tabucchi morreu (morreu?)

A capa do Uol de hoje trás, dentre outras, matérias de altíssimo interesse social como a expulsão de participantes do reality show, a candidatura das belas de biquini das torcidas de futebol, justiça dá prazo para senador ex-presidente da república pagar dívida com ex-mulher, bem como outros temas da mesma magnitude, mas nem uma linha sobre a morte de Antonio Tabucchi, um dos mais importantes escritores italianos e europeus, ocorrida ontem, em Lisboa. Ora, e lá isso tem alguma importância para o que a tal página julga ser o senso comum dos seus (supostos) leitores? Ouvi pela rádio CBN logo pela manhã, no carro, e fiquei consternada.

Voltei a ler Tabucchi recentemente. Um livrinho que há muito havia adquirido, mas que ficara ali perdido, na fila de espera, Mulher de Porto Pim, uma preciosidade, verdadeira jóia literária como, aliás, toda obra desse grande escritor italiano que tive oportunidade de ler. Apaixonado por Portugal fez desse país cenário de muitas de suas obras, como o inesquecível Afirma Pereira (levado para o cinema pelo realizador Roberto Faenza, com Marcello Mastronianni como protagonista, em uma de suas última atuações),  Réquiem e Os três últimos Dias de Fernando Pessoa - Um delírio. Portugal foi também um dos países de sua morada, agora definitiva, onde será sepultado.

Dias atrás, quando terminei de ler Mulher de Porto Pim, tencionava escrever aqui sobre o livro, impressionada que estava com a leitura que, longe de ser um guia de viagem, avivou meu desejo de conhecer as ilhas dos Açores. Cheguei a comentar com amigos sobre a assombrosa habilidade de Tabucchi em partir de fatos reais para criar fábulas de cunho fantástico ou surreal. Contos que não são contos, novelas que não são novelas, cartas que não são cartas fazem parte desse riquíssimo universo rigorosamente elaborado pela invejável elegância da linguagem de Tabucchi.

Se escrevesse há dias sobre Tabucchi estaria talvez cumprindo uma função semelhante àquela imposta pelo dono do jornal a seu personagem Pereira, ou seja, elaborar óbitos antecipados de escritores. Ainda bem que não o fiz e, assim, fico livre dessa culpa (ao menos dessa).

Ficou-me a íntima satisfação de mais um momento único, o da leitura, indivisível que só a mágica de uma grande literatura pode propiciar. Quem sabe agora o encontro definitivo com Pessoa a quem Tabucchi tanto admirava e creditava a construção de seu próprio universo literário (sublinhe-se que foi depois de ler o poema Tabacaria, em 1962, quando estudava literatura em Paris, que Tabucchi resolveu estudar o português para ler Pessoa no original).

Ao sair há pouco da livraria, cansada após um longo, extenuante mas proveitoso debate cultural, olhei para o céu nesta estupenda noite de outono, e lá estava, logo abaixo de uma claríssima lua minguante (seria crescente? nunca soube distinguir) uma única estrela visível, com um brilho incomum e quase nunca visualizado por estas bandas urbanas. Lembrei-me de Tabucchi e senti um arrepio.  (dtv)



Escrito por Dalila Teles Veras às 23h14
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Miguel Torga, a literatura diária e a magia dos alfarrábios

Há muitos anos sou leitora de Miguel Torga, um dos mais importantes escritores portugueses e o mais português de todos eles. Seu nome foi por diversas vezes cogitado para o Prêmio Nobel, sem entretanto recebê-lo, mas abrindo, com isso, caminho para a língua portuguesa e para que o galardão fosse outorgado a outro português, igualmente grande, José Saramago.

 

Miguel Torga é pseudônimo de Adolfo Correia da Rocha, nascido em Trás-os-Montes em 1907. Emigrou sozinho aos 12 anos para o Brasil trabalhando em uma fazenda de Café de um tio que, percebendo sua inteligência invulgar, manda-o estudar em Leopoldina, RJ, para logo depois voltar a Portugal e ingressar na Faculdade de Medicina de Coimbra, cidade onde passou a viver e clinicar até sua morte, em 1995.

 

Aos 27 anos, adotou o pseudônimo Miguel Torga. Miguel em homenagem a Miguel de Unamuno e Miguel de Cervantes, ibéricos como ele, ao pintor, escultor e inventor italiano Miguel Angelo. Torga, designação de espécie de urze ou arbusto nativo de sua região (Trás-os-Montes), retorcido, resistente a intempéries e aridez do solo, que também servia para alimentar o fogo doméstico dos camponeses. 

 

Foi fiel e coerente com o nome literário que escolheu. Dedicação e rigor na escrita, em memória dos vultos de sua admiração e raízes firmes fincadas em seu solo, ao qual foi apaixonado a vida inteira, ainda que lhe fosse crítico. Escritor prolífero e eclético, dedicou-se à poesia (diz Clara Rocha, sua única filha e estudiosa de sua obra, que "Torga via sempre o termo poeta para nomear o criador dos Diários. Dizer escritor não seria o mesmo, pois o poeta era para ele o artista absoluto, e a poesia a grande arte". Não por acaso, iniciava e terminava seus diário com um poema. Nesse gênero publicou 16 livros. Também escreveu 5 peças e publicou 17 volumes de prosa vária, incluindo romances, contos e ensaios. No gênero que se poderia chamar de escrita autobiográfica publicou 6 volumes sob o título A criação do Mundo (memória da infância e adolescência) e 16 volumes dos Diários que escreveu durante 60 anos. Todos os seus livros foram reeditados com frequência e traduzidos em diversas línguas.

 

No caso dos Diários, o que mais tem me interessado, pois os considero com o mesmo valor dos demais, ou seja, essas obras não são meras anotações burocráticas do seu dia-a-dia, mas há intencionalidade literária, linguagem literária, é literatura.  Através deles é possível, além do deleite estético, conhecer o homem, com todas as suas contradições de ser humano, a combatividade social e, sobretudo, e antes de mais nada, seu amor extremo a Portugal, país que percorreu de lés a lés, mapeando-o amorosamente.

 

Pois bem, sempre que me preparo para o retorno físico à pátria de nascimento, volto a Torga para mergulhar no Portugal profundo, dele impregnar-me, para daí (re)descobrir e revigorar meu próprio rizoma.

 

Ao longo de anos, garimpei aqui e ali, em sebos e liquidações de mega livrarias (como a Bertrand, na baixa lisboeta em 2007, que liquidou os volumes dos Diários a um euro e meio cada - essa gente tem verdadeiro desprezo por tudo que vende devagar, pois é preciso abrir espaços para a literatura de ocasião), os adoráveis volumes de capa branca, donde salta em vermelho ou azul o título da obra (caixa alta garrafal), o nome do autor (caixa baixa bem menor que a do título) e no pé de página, a palavra Coimbra (que remete à cidade e ao nome da gráfica onde foi editado. No colofon (última página) invariavelmente consta: Composto e impresso na Gráfica de Coimbra, de .... a .... de 19..

 

 

 

Foi assim ao longo de mais de 60 anos que Miguel Torga publicou (pagando) seus próprios livros, jamais cedendo os seus originais, em vida, a grandes editoras (não me perguntem como esses livros circulavam em Portugal e no Brasil e foram traduzidos em vários países, pois não tenho essa informação). Livros adoravelmente austeros como o seu autor. Via de regra, todos os volumes que adquiri (cada qual com uma coloração diferente, tanto na capa quanto no miolo, tons que vão sendo adquiridos pelo tempo e a perda de PH do papel e, no caso das capas, a exposição à luz e à poeira) estavam ainda por abrir, ou seja, os cadernos do miolo não tinham suas páginas cortadas. Passadas décadas de sua publicação, continuavam virgens de leitura, jamais tinham sido abertos. Delícia ir "abrindo" o livro à medida que a leitura avança. Livro novo, como diz o slogan de uma histórica livraria em Santo André, é aquele que você não leu.

 

 

De uns tempos para cá, adquiri algumas dessas preciosidades através do comércio eletrônico. Acabam de chegar por aqui, quatro deles. Faltam-me agora apenas dois volumes para completar toda a sua obra autobiográfica (16 diários e 6 de memórias).

 

 

Eu sei que ganharia tempo e trabalho adquirindo todos os diários em 2 volumes (edição Dom Quixote, 1995, ano de sua morte), mas isso não é nem de longe comparável ao prazer tátil de manusear esses pequenos volumes, com um cheiro extremamente peculiar e agradável e, de quebra, lidar com a possibilidade de terem sido tocados por seu autor, logo após impressos.

Aos caçadores de autógrafos: Torga jamais autografava  nem colocava dedicatórias em seus livros (para que o leitor seja inteiramente livre para julgar o texto, dizia). dtv

 

Fotos: Alice A. T. Veras

 



Escrito por Dalila Teles Veras às 00h30
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Parêntese

Este texto foi escrito originalmente como comentário/resposta ao Edgard Rodrigues, a quem agradeço a visita e leitura, sempre bem vindas. Mas como excedeu o número de caracteres aceitos para comentários do blog, vai aqui como post.

Permita-me, Edgard, como poeta, dizer algo sobre o recurso do parêntese na poesia (do qual faço  uso frequente). Primeiro, o uso do parêntese não é propriamente uma novidade na poesia. Mallarmé usou, Pound usou, Pessoa usou. A poesia brasileira do século XX e XXI, que bebeu desses e outros caras e muito dos nossos de 22, ao abolir praticamente toda e qualquer pontuação no poema (a quebra do verso, a disposição do verso na página, além de imprimir o ritmo do poema, substitui a pontuação) e optar pela concisão, passou a se valer cada vez mais de recursos outros, dentre os quais o parêntese, ora como indicação de ambiguidade, outra possível leitura, ora como "voz" ou indício do pensar do narrador (não necessariamente o poeta), acentuando-lhe certos aspectos que (aparentemente) não estão presentes nos versos do poema.

Acho bem e legítimo que um leitor tenha vontade de mudar um poema meu, pois se houve essa preocupação é porque esse leitor, de alguma forma, foi tocado pelo poema ou por um verso que seja dele. Neste nosso caso, a poeta não teve pretensão de propor nenhum "enigma", mas justamente acentuar o que de realidade explícita há no fato "poetizado". O fato poético não reside exatamente (ou apenas) naquilo que é contado no poema, sobretudo,  "como" é contado.

A linguagem (no seu mais amplo sentido, incluindo aí recursos de pontuação e todo o arsenal linguístico à disposição do poeta) é o que diferencia a poesia da prosa, o que faz com que um poema seja (ou não) poesia. Fico feliz em ter conseguido de alguma forma "tocar" um leitor, ainda mais tratando-se de um leitor exigente e gabaritado como o Edgard a quem agradeço, inclusive o reparo, sobre o qual a poeta, humildemente,  promete refletir. dtv



Escrito por Dalila Teles Veras às 23h16
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Sincronicidades poéticas

vias oblíquas

 

    Porque parte tudo um dia

    O que nos lábios ardia

    Até não sermos ninguém

       Paixões Diagonais, Miguel Ramos / João Monge

 

depois que a mulher voejou

levando consigo a

claridade dos cômodos e

duas décadas coabitadas, o

marido, no escuro

ensimesmado

deixou o cabelo crescer, o

mato tomar conta dos

canteiros, o

pó cobrir móveis e assoalhos

 

sete luas após a mulher

levar consigo a sonoridade

da alcova, o marido

às claras e resoluto

reagiu

engaiolou dez pássaros e

registrou em cartório o

certificado de propriedade

dos novos moradores

 (garantia do controle de vôos e

ingresso permanente a

concertos privados)

 

Neste Dia Nacional da Poesia, deixo aqui aos meus poucos, mas fiéis, leitores este  poema do meu livro inédito Estranhas Formas de Vida. De sincronicidades vive-se. Esta belíssima colagem de Margarita Lo Russo, artista visual e escritora argentina, é de 2010 e prova mais do que viva do fenômeno. O poema foi escrito bem depois e sem que eu tivesse conhecimento dela. Quando a vi, porém, tive a certeza de que foi feita para o meu poema, não para ilustrá-lo, mas, antes, completá-lo. Sincronicidade poética. Fica aqui, portanto, registrada a minha homenagem a essa grande artista de quem tenho a honra de ser amiga e parceira há décadas. (dtv)



Escrito por Dalila Teles Veras às 21h02
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à espera do oftalmologista

cenário:

 

- jovem abre um vidro de esmalte e faz reparos nas unhas

- o rapaz de camisa listrada a seu lado, dorme, a sono solto

- senhora para o vizinho idoso: - minha avó tinha a minha idade e passava o dia sentada fazendo crochê. Eu tenho trauma de crochê. Sei fazer, mas não faço!

- esse negócio de dizer "Ah, tem 80 anos, já viveu muito!" é pura bobagem. Nunca se vive o suficiente. A senhora viu na TV aquela senhora com 100 anos tomando cerveja? Então?! Coisa linda!

 

(protegidos por imaginárias paredes à prova de som ou de imagem erguidas ao seu redor, os pacientes portam-se como se ninguém os visse ou escutasse.)

 

primeiro celular:

- Oi, mãe... Tá bom... tá bom...

 

segundo celular:

- Alô... Alô... Tá cortando.. Como? Até 2013? - Moça, me empresta uma caneta?

- Tá, pode dizer. Qual o plano?

 

terceiro celular:

- Tá. Vou pegar o manual e te mando por email. Beijo e tchau.

 

quarto celular:

- Foi tudo bem, sim. Foi um risoto italiano, assim meio esquisito, porque risoto italiano é assim mesmo, meio mole, parecendo vômito de cachorro...

 

(Um a um os pacientes são chamados a comparecer às salas de consultas. Nenhum deles parece notar os avisos afixados ao lado da mesa da recepção, que dizer então de uma invisível e mísera lapiseira a correr pelas páginas de uma caderneta de anotações)

 

aviso um: "Para sua segurança este ambiente está sendo gravado em um servidor na Internet. As imagens são confidenciais e protegidas nos termos da lei.

 

aviso dois: Por favor, desligue o seu celular ao entrar no consultório.



Escrito por Dalila Teles Veras às 22h45
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Personagem à busca de um autor

Um maluco em meio a tanta maluquez. Hora do almoço, mesa posta, família e um amigo, comensal costumeiro. Chega o visitante, coberto de muitas estradas.  Avisou que viria e veio, assim, como quem chega do nada, diria o poeta. Veio de Goiânia, mas antes viera de Brasília. E muito antes, ainda, viera de Correntina, na Bahia, sua cidade natal. Sentou-se, mas pouco comeu. Sepultou a fome do corpo desde que passou a primeira fome fora de casa, a mais dura de todas elas. Hoje atende a outra ordem de fome, alimenta-se de viagens e de poesia  (a dele e a dos outros) o que dá na mesma. Política não há mais, fome não há mais, há apenas o desejo do diálogo poético. E lá vai e vem esse homem, com seu magro corpo alto e um tanto quanto fora do lugar, visitar poetas e livros de poesia, para com eles conversar. Avisa que chegará e chega, como se um velho conhecido fosse. Tem verdadeiro prazer em contar histórias, das mais telúricas e ingênuas às mais trágicas e comoventes e o faz com tamanha simplicidade e graça que é impossível não lhe dar atenção. Comeu o pão que nem o diabo quis amassar e diz dever à avó cearense a vocação, não só para a poesia como para a contestação. A avó que tecia loas aos visitantes, aos noivos e em todas as ocasiões festivas. A avó que, sob ameaça, obrigou o agente do censo a riscar da ficha do filho, a palavra "analfabeto", pois o filho poderia ser tudo, menos esse palavrão. O homem obedeceu e ela, ato contínuo, mandou o filho aprender a ler. O filho desse filho, chegou à idade adulta analfabeto, mas ainda assim, descontou o atraso e, a partir do Mobral, galgou os degraus até a Universidade, mas não está preocupado com diplomas, apenas com livros, livros e mais livros, de preferência, os de poesia. Hoje aportou por aqui, sem qualquer carta de apresentação. Chegou e ficou à vontade, como se da casa fosse. Diz-se incompreendido o viajante. Mas quem em sã consciência compreenderia atitudes de alguém que faz da poesia seu principal modo de vida e dos poetas seus interlocutores? Um personagem em busca de um autor, como bem disse meu amigo comensal, lembrando Pirandello. E viva a maluquez descontrolada que deságua em rios caudalosos por onde o viajante vai pescando graúdos peixes (dtv).



Escrito por Dalila Teles Veras às 21h08
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