Falhas e culpas
Voltei à minha antiga forma: estou escrevendo diariamente no blog, mas... (voltei?). Só nesta semana, “furei” com um bocado de gente. Esqueci de redigir dois textos que haviam me solicitado. Esqueci de um comunicado importante a uma pessoa chave de determinada reunião. Não tive tempo de visitar as pessoas amigas que estão doentes. Não tive tempo... Puxa vida, sempre a sensação de falta e de falha... (tempos modernos? tempos falhados? tempos apocalipticos?) Em forma de redenção e alguma espécie de compensação, estive agora à noite reunida com um grupo de abnegados que há anos discute idéias e ações para que a cultura possa ser vista e tida como centralidade numa sociedade de consumo que a tudo devora e transforma em espetáculo. Foi um momento fraterno e de celebração do qual darei notícias em breve no blog do Alpharrabio. Ainda assim, carregarei noite a dentro minhas culpas de ser humano tão falho (dtv)
Escrito por Dalila Teles Veras às 23h31
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Detestáveis americanices, por uma americana
Não é de hoje que títulos como “fique rico sem esforço”, “o mundo está dentro de você, saiba como dominá-lo” e outras “lições” para todos os males entulham as gôndolas de lançamentos das livrarias brasileiras e... vendem muito. As vítimas, sempre os mais fragilizados e, vulneráveis, capazes de acreditar nos milagres das transformações prometidos pelos títulos. Pois não é que, justamente no país inventor e exportador dessas babaquices, alguém se revolta e resolve botar a boca no trombone e dizer o que pensa a respeito? Leio (na revista Isto é) uma entrevista da jornalista Bárbara Ehrenreich, autora do livro Bright-Sided: How the Relentless Promotion of Positive Thinking has Undermined América,( O Lado Ruim das Coisas: Como a Promoção Incansável do Pensamento Positivo Prejudicou a América) recentemente publicado e, ao que parece, vem causando alguma grita nas terras do tio Sam. Ouçamos o que diz a enfurecida americana: “A ideologia do pensamento positivo é terrivelmente individualista. É só você que tem que mudar, o mundo não. Os livros de autoajuda nunca perguntam como seus desejos podem entrar em conflito com os do outro” (...) “dá muito trabalho ser positivo o tempo todo. Se você lê esse livros, aprende que tem que acordar, recitar afirmações para si mesmo, colocar um quadro na parede e prega nele figuras do carro e da casa que quer... É muita energia mental. E as pessoas que praticam isso, acabam se afundando ainda mais na própria culpa”. De forma muito lúcida, Bárbara analisa como a própria sociedade capitalista cria os problemas para logo depois oferecer “a solução”. E tudo rola na esteira da idéia da facilidade e da lógica perversa da economia e do mercado. Assim é que, sem culpa, fico, como sempre fiquei, com a poesia e a ficção (a boa literatura) que oferecem “ajuda” ao leitor na medida em que fornecem ferramentas “concretas” para olhar e pensar o mundo como ele realmente é (ou não?). Nada de “soluções” fáceis, viver é realmente difícil e perigoso, mas sempre valerá a pena o esforço. (dtv)
Escrito por Dalila Teles Veras às 19h56
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Afetos em florescência II
Manhã, ainda. Estava eu aqui posta em (relativo) sossego (o desassossego, sempre...), quando toca o telefone. Uma voz familiar, lá do lado de lá do mar sem fim, se diz preocupada com esta escriba. Quer avaliar, através do tom da voz, se, afinal, sempre finge a poeta. Horas antes, outra voz, desta feita de uma distância de 100 km, igualmente dizendo-se preocupada. Dois dias antes, no meio da tarde, outra voz, lá da bela cidade latino americana, aquela banhada pelo Rio da Prata, dizia-se igualmente preocupada, o afeto a embalar as palavras. Teria esta escriba resvalado por algum secreto confessionário? Em que momento teria a palavra da poeta traído a sua autora? Pouco importam as razões da preocupação manifestada, importa sim (e acalenta) saber-se motivo. (dtv)
Escrito por Dalila Teles Veras às 17h42
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Afetos em florescência

Afetos também brotam em jardineiras. Estes me foram presenteados há alguns meses pelos amigos Adélia e Luiz por ocasião de um jantarzinho aqui em casa. As florezinhas estavam, à época, num pequeno vaso e eram muitas e belas. Como toda a beleza, tiveram vida efêmera. Mortas as flores, as raízes foram para o canteiro da varanda do apartamento, sem muitas esperanças. Dia destes, entretanto, espantei-me com esta exuberância a querer escalar as paredes do edifício e senti-me novamente presenteada. Os afetos brotaram, assim, sem nada exigir em troca, só pela beleza de existir (dtv
Escrito por Dalila Teles Veras às 21h21
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Retrocessos, mídia e outras perversidades
Agora que a mídia acalmou e sem querer me tornar escrava das manchetes, remeto-me ao caso da injustificável violência sofrida pela estudante daquela tal universidade que é uma de nossas maiores em quantidade (a 4ª. maior do país) e em qualidade, encontra-se em 159º lugar (numa lista de 175 instituições), ou seja, a 16ª pior do país, de acordo com o MEC. Agora que a moça declara-se “feliz”, após tornar-se capa de revista, conceder entrevistas na TV e tudo a que tem direito uma celebridade instantânea, permito-me dar os meus pitacos sem, naturalmente, sequer resvalar pela questão da inadmissível e abominável atitude de seus insanos colegas e muito menos pelo ainda mais abominável e confuso comportamento da tal Uni alguma coisa, ao transformar a vítima em ré, expulsando-a da escola para depois readmiti-la sob justificativa ainda mais condenável. Pois bem, já que todo esse episódio de barbárie e retrocesso à intolerância e ao preconceito está largamente discutido, analisado sociologicamente, atenho-me apenas a uma questão que no meu modo de entender pode ajudar a entender o triste acontecimento. Toda essa moçada é, em última instância, vítima da lógica perversa de um sistema que transforma seres humanos em objetos de consumo. Uma sociedade que privilegia o corpo como “bem”, moeda de troca, vitrine, mas que, por outro lado, conserva aquilo que de mais repulsivo e primitivo armazenou, que vai da hipocrisia à moralidade judaico-cristã, com tudo de pior que isso possa significar, seus equivocados valores absolutos. Sou de uma geração de mulheres que muito lutou para conquistar igualdade de direitos, direitos esses que incluíam o direito ao próprio corpo. Essa luta que implicou a passagem por fases absolutamente radicais e muitas delas panfletárias, mas necessárias, foram, mais do que reivindicações de gênero, atitudes políticas, no seu mais amplo sentido. Entretanto, não era isso que reivindicávamos, ou seja, a conquista do direito ao corpo para nos tornarmos dele (e dos homens e da mídia) escravas, num inaceitável retrocesso. Confusa, a juventude vale-se dos valores que a mídia lhes impõe e não sabe o que fazer deles, pois escolas como essa em que o quase linchamento da moça ocorreu, simulam que ensinam e os alunos simulam que aprendem, pegam no seu canudo e são jogados ao deus-dará. Sem a desejável cultura humanística, bagagem mínima desejável para se contrapor a esses valores midiáticos, esses jovens se portam como seres sem discernimento, sem passado e muito menos munidos de quaisquer perspectivas de futuro. Só por essa perspectiva é que consigo entender como esses rapazes supostamente escolarizados podem ter se portado como bárbaros e, por outro lado, como essa moça, trabalhadora pobre, moradora da periferia, vítima da violência e da humilhação, se comporta como alguém que acaba de galgar o estrelato como uma espécie de prêmio e, agora, dizer-se “feliz”. Assim, ingenuamente submete-se ao perverso e vergonhoso padrão dos programas televisivos que a tudo devora e transforma-se, ela própria, em moeda de troca (um cabeleireiro anda a dar entrevistas contando como aumentou o cabelo da moça em não sei quantos centímetros, deixando-o mais liso e mais louro). Concluo, de forma pessimista, que não será para logo o reencantamento de mundo que tanto almejamos (dtv)
Escrito por Dalila Teles Veras às 23h14
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Discretas esperanças
Tento emergir destes últimos dois meses que me levaram dois amigos, me derrubaram pela dor (física e espiritual) e logo a seguir pela desordem.
Agora, com a mesa posta, cada coisa em seu lugar (com licença, mestre Bandeira), alentada por algumas leituras como a do livro que dá título a esta croniqueta, da filósofa brasileira Olgária Matos, acreditando que se algum lenitivo (já não digo solução) existe para esta sociedade demente, será pelas vias do pensamento e das coisas do espírito (e da literatura, sim).
Ouçamos Olgária: “Sabemos que, no Brasil, é possível freqüentar escolas durante oito anos sem aprender o Português e, também nas Universidades, esse “dialeto” está, aos poucos, se tornando um idioma estrangeiro, cuja sintaxe e gramática é desconhecida, dominado apenas imperfeitamente. Contra isso, erige-se a língua literária – só ela pode constituir um freio à instantaneidade das trocas econômicas. São necessários três segundos para transferir fundos de uma conta bancária, mas são necessários trinta anos para traduzir Borges. (...) A literatura de uma língua é sua proteção”. Propõe a professora, assim, a volta ao humanismo pelo esforço intelectual que, graças à mídia, foi proscrito (“aprender foi decretado fastidioso”). Olho para meu neto nos seus 19 meses de vida e curiosidades e nele projeto as minhas secretas e discretas esperanças. Em tempo: fico imensamente grata, ao mesmo tempo em que peço desculpas, a todos aqueles que por aqui passaram e se decepcionaram ao encontrar a janela fechada, mas que agora se abre para encerrar o ano de forma um pouco mais honrosa, mesmo sem ter cumprido a promessa do seu início. (dtv)
Escrito por Dalila Teles Veras às 22h19
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Poeta deslocada
A poeta anda envolvida com uma complexa logística, ou seja, a de pintar a casa com tudo dentro (pessoas, móveis, quadros, livros) e toda a rotina (comer, dormir, ler, escrever). O resultado é um estado de quase torpor ao fim do dia, o eixo vital fora do eixo (necessidade uma certa ordem para ordenar as idéias), daí este quase abandono da escrita. Hoje, em meio a uma crise de quase histeria, fugiu para a livraria e “jogou conversa fora” a tarde toda. Ganhou imensas recompensas (vide o relato clicando aqui: http://blog.alpharrabio.com.br/ ).
Escrito por Dalila Teles Veras às 22h47
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O sentido breve das palavras
Amanhã, dia 7 de novembro de 2009, sábado, às 15 horas, no Lugar Pantemporâneo, acontecerá o lançamento O sentido breve das palavras, pequena antologia do poeta português Jorge Fragoso, organizada pelo poeta Álvaro Alves de Faria que dirige a Coleção Alumbramento, da editora RG, de São Paulo. O lançamento de O sentido breve das palavras contará com um espetáculo teatral e poético pela atriz Patrícia Rizzo e leitura de poemas por Dalila Teles Veras, Constança Lucas e Flora Figueiredo. O Lugar Pantemporâneo está situado na Av. 9 de Julho, 3.653 - Jardins, São Paulo - SP - a 50 metros da Rua Estados Unidos (vide http://www.pantemporaneo.com.br/) e conta com estacionamento terceirizado, no subsolo.
O livro "O sentido breve das palavras", com capa e ilustração de Valdir Rocha, será distribuído gratuitamente às pessoas que comparecerem ao evento, que também tem entrada franca. Fora de mercado, a obra se destina a leitores de poesia, bibliotecas públicas e entidades culturais.
Jorge Fragoso nasceu em Beira, Moçambique, em 1956, e é licenciado em Filosofia, editor, membro da Oficina de Poesia da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (dirigida pela poeta, ensaísta e professora da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Graça Capinha) e subdiretor da Revista Oficina de Poesia. Tem vários livros publicados, entre eles Inima, poesia (1994), Rua do Almada, contos (1995), O tempo e o tédio, prosa poética (1998), Dez horas de memória, novela (1999) e A fome da pele, poesia (2004). Participa de várias antologias de poesia em países europeus.
“O poeta português Jorge Fragoso, que vive em Coimbra, diz que não existe voz universal da poesia para falar ao outro. Observa que a poesia tem de ser o espelho de um desejo de mudar a instituição, ser conflito, morder o estado parado do sentido com os dentes da raiz ou outro olhar. Acredita que, mesmo com o espaço restrito, a poesia tem de interferir para fazer o novo de novo.” Do prefácio do poeta Álvaro Alves de Faria para O Sentido breve das palavras. Espero vê-los por lá. (dtv)
Escrito por Dalila Teles Veras às 23h10
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Uma exposição à espera de um livro
Da programação pessoal deste meu último fim-de-semana prolongado, constou uma visita ao Salão de Exposições do Paço Municipal de Santo André para apreciar a Mostra Andamentos da Cor, que marca os 20 anos de morte de Paulo Chaves. 
(fotos Luzia Maninha) As 60 obras expostas, representativas de todas as fases do artista, vão dos anos 50 a 1989 e dão bem uma idéia da relevância desse pintor que, na opinião do curador José Armando Pereira da Silva, “é tão importante quanto Luiz Sacilotto, por representarem duas vertentes da pintura na segunda metade do século 20, o abstracionismo geométrico de Sacilotto e o informal de Chaves”. 
O curador vê ainda “musicalidade” na pintura de Chaves, razão, inclusive, do título que deu à exposição, bem como a denominação de cada uma das fases de sua trajetória artística, às quais deu títulos de andamentos musicais. 
A idéia da exposição era de que a mesma acontecesse simultaneamente ao lançamento do livro do mesmo nome, de autoria do pesquisador e crítico de arte José Armando Pereira da Silva, também idealizador e curador da mostra. O livro foi finalizado há mais de um ano e, apesar de promessas, ainda se encontra na dependência de patrocínio. Não deixa de ser uma pena ver essa exposição desvinculada da publicação do livro. Adquirir esse livro representaria a possibilidade de levar a exposição para casa e aprofundar o conhecimento sobre esse extraordinário artista, nascido em 1921 e que, aos 18 anos, veio com a família para Santo André, cidade onde fez sua primeira exposição, em 1947, no I Salão de Belas Artes do Município. 
(pagina inédita do livro) O livro registra e analisa a trajetória de Paulo Chaves, que em 1954 foi para a Europa estudar pintura e História da Arte. No retorno ao Brasil, viu sua obra reconhecida ao participar da Bienal Internacional de São Paulo, do Salão Paulista e do Salão Nacional de Arte Moderna. Posteriormente, expôs em Nova York, Barcelona e Japão. Muitos de seus quadros pertencem a importantes acervos como os do Museu de Arte de São Paulo, Museu de Arte Brasileira (FAAP), Museu de Arte Moderna e acervos municipais das cidades de Santo André, São Bernardo do Campo e São Caetano do Sul. Não deixa de ser uma pena constatar que a significância cultural desse livro não tenha sido percebida tampouco sensibilizado aqueles que, ao menos por dever, deveriam. Já que a região do ABC onde residiu Paulo Chaves e onde ainda residem seus familiares, não reconheceu (ou não quis reconhecer) sua importância, negando-se a patrocinar/publicar o livro, talvez fosse o caso de recorrer à cidade onde morreu o artista, em 1989. A Maresias (SP) praiana foi o cenário onde Paulo Chaves pintou uma grande quantidade de quadros, seu último “andamento”, e, diferentemente das outras cidades onde pintou, mereceu ter o nome subscrito abaixo de sua assinatura. Aqui fica a idéia, esperando que vingue. (dtv)
Escrito por Dalila Teles Veras às 21h36
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O Sol do Meio Dia
Anteontem falei da atmosfera em torno, mas não falei do filme que assisti dentro da 33ª Mostra Internacional de Cinema. Ora bem, cada vez mais fico desnorteada diante de tudo quanto é “mega”. Consultar um catálogo com sinopses de 424 filmes de 57 países, exibidos em 17 salas no curtíssimo espaço de tempo de 14 dias (23.10 a 5.11) me deixa angustiada e com uma sensação de enorme fastio prévio. Nas mostras anteriores (menos grandiosas) sempre tentei ver dois ou três filmes que, de antemão, sabia não seriam exibidos no circuito comercial. Alguns de Manoel de Oliveira, pois raramente são exibidos por aqui em circuito comercial, assim como alguns iranianos, cubanos.. O filme do mestre português inscrito nesta mostra, Singularidades de uma rapariga loura (uma transposição quase literal do conto de Eça de Queiroz), realizado ano passado, quando o mestre português completara 101 anos, ficou fora da escolha, posto que eu já o havia visto (sem gostar, mas ainda assim, rendida) na terrinha onde o mesmo foi filmado Assim, só para contrariar o “internacional” da mostra, fomos ver um filme nacional, brasileiríssimo, O Sol do Meio Dia, pela simples razão de poder prestigiar a jovem cineasta Eliane Caffé bem como o co-roteirista, Luís Alberto de Abreu, veterano nas artes da dramaturgia e do roteiro, ambos nascidos neste maravilhoso e (ainda suburbano) ABC. O fator bairrista, entretanto, não foi preponderante na escolha. Mais do que isso, o entusiasmo despertado pelos dois longas-metragem anteriores dessa talentosa diretora, Kenoma e Narradores de Javé (este último a projetou nacional e internacionalmente), ambos também co-roteirizado com Abreu, um nome que admiro e que dispensa aqui qualquer apresentação. Atendendo à expectativa, este terceiro filme de Eliana, parece superar os anteriores. A destacar a bela fotografia do conceituado Pedro Farkas, em especial quando tira proveito da pouca luz natural para criar notáveis sutilezas narrativas. A atuação dos dois atores principais, os veteranos Luiz Carlos Vasconcelos e Chico Diaz, é irrepreensível. Antológica a cena do histriônico Matuim, vivido por Diaz, quando, sem a peruca que contribui para compor o tipo bufão e que, ridícula como é, supostamente o defende do ridículo, vê-se diante da mulher que pretende conquistar e tenta enaltecer suas próprias qualidades e detratar o rival. Só um grande ator, quase sem palavras, valendo-se da expressão e do gesto, seria capaz da proeza. A cena final igualmente emociona, não só pela competência do ator, como também pela beleza literária do texto. Ali, Artur (Luiz Carlos Vasconcelos), diante da amada (a mesma a quem o rival Matuim já se declarara), oferece a chave para o entendimento da sua complexa personalidade, bem como do título do filme. Não saberia dizer se houve propósito da diretora em mergulhar no Brasil profundo e desconhecido (tipos, paisagens, misérias, agressões) ou simplesmente contar uma trama amorosa a três. O fato é que em algum momento, esse Brasil que chega a incomodar urbanóides como eu, me pareceu algo descosturado (ou seria descosturada essa realidade e a minha parca capacidade de análise?), fato que em nada desmerece as qualidades do filme. (dtv)
Escrito por Dalila Teles Veras às 21h55
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Dia de Finados O dia dois de novembro era apenas um feriado e sempre chovia Todos estavam vivos e jorravam primaveras nas águas da primavera (a juventude é imortal imune a intempéries) Neste dia dois de novembro do ano dois mil e dois (não chove – rito e tradição rompidos) aprendo, pelo desespero da ausência o significado dos sinos e o imensurável peso do cinza (a maturidade é consciência da finitude susceptível a mudanças climáticas) Poema do meu livro Retratos Falhados (Editora Escrituras, 2008)
Escrito por Dalila Teles Veras às 20h00
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A arte da dubiedade como previsão do futuro
São Paulo é uma cidade única e surpreendente. Costumo freqüentar a região que abarca a Av. Paulista desde a Consolação até o MASP, ruas Augusta e Frei Caneca. Ali se concentram cinemas e galerias de arte, restaurantes, cafés, e, sobretudo, sebos e livrarias. Toda essa oferta, mais a diversidade de tipos humanos, é garantia de festa permanente. Ontem, noitinha, na calçada da Rua Augusta, enquanto camelôs recolhiam apressadamente montanhas de CDs e DVDs piratas, provavelmente por algum aviso de aproximação de fiscais, casais do mesmo sexo se abraçavam e acarinhavam sem nenhum pudor, enquanto esperavam mesas no Atenas, mais adiante, jovens sentados no chão saboreavam pizza vendida aos pedaços, misturando-se à fila do Espaço Unibanco de Cinema, a surpresa maior: em meio àquele vai e vem, dois homens de meia idade, sentados à soleira de uma porta fechada, concentradíssimos, jogavam xadrez. Logo acima, enquanto esperava o início da sessão e saboreava um suco numa das mesas do Café anexo ao Cinema, fui atraída por uma conversa entre um casal da mesa ao lado. A moça (que eu via apenas de perfil), olhos com pesada maquiagem, embaralhava cartas de um baralho e pedia para o rapaz corta-lo. Ele (que eu via quase de frente), todo vestido de branco, longos cabelos com ar de pouco trato, sandálias de couro rústico, semblante grave e atento. A conversa chegava até mim um tanto quanto entrecortada pelo burburinho à volta, mas, ainda assim, passo aos meus amigos leitores o que anotei: “- Nossa! Ótimo!, exclamava a pitonisa, observando algumas cartas colocadas na mesa. - Melhor do que a primeira? Pergunta o rapaz. - A primeira tem ótima possibilidade, devido à estrela, à força da rainha... alguns obstáculos... difícil acesso... mas nada que impeça... Aqui está o 4 de espadas, calmaria depois das batalhas, principalmente nas questões dessa editora... - Então já posso ir atrás? - Mas é muito bom, muito positivo!... Você já fez o contrato com eles? - Entreguei os originais há dois anos, mas disseram que dependia do planejamento... a editora tem segmentos... O Gaspareto é mais o padrão... - Nossa! A estrela novamente!... Nada que você não possa esperar. Alguma coisa relacionada com o contrato! Dá uma prensa neles, diz que já tem proposta de outra editora... Isso pode não ser uma verdade agora, mas é uma possibilidade... - Você quer saber mais alguma coisa? Parte novamente... - Bem (partindo o baralho) eu queria saber, assim... em relação à recepção da obra... Há um temor.. da editora barrar ... ficaram de me levar ao Jô Soares, mas desde o ano passado... acho que antes o livro precisa sair... 20 anos da morte dele este ano... deixamos passar a oportunidade... - Não, não vai barrar... vai fazer sucesso, vai vender, mas ao mesmo tempo, vai ser um trabalho de formiguinha, você vai ter que batalhar, um pé atrás... Mas há ótima perspectiva de sucesso... Se houver alguma crítica não vai chegar a afetar, algo leve. - Outra coisa que eu queria saber é sobre um concurso público que eu estou querendo prestar. Se eu passar, vou ter que me mudar para Brasília. Como é que vai ficar essa situação? - Corta novamente... (ele, ar cada vez mais grave, corta). O 6 de ouros que é a segurança e o 7 é o novo. Este é um momento de impasse, mas não está muito definido, mas você tem a possibilidade de entrar em alguma coisa... mas será preciso desemperrar essas coisas... É como você estivesse com uma casa quase pronta e não conseguisse morar. Problemas internos que fazem parte de um todo maior. - Eu precisaria ir até lá: - Não, a mudança é uma conseqüência. A energia que está para nascer. Está faltando muito pouco,não pode deixar para amanhã... - Então o sinal deve ser o livro - Você terá outra atividade. Não está claro...mas precisa mais ação de sua parte. Não pode ficar deixando as coisas acontecerem, senão não vai sair... - Eu também queria saber se a Camila, que mora em Goiânia, é a mesma pessoa que você viu aí... - Não sei se é a mesma moça, mas essa moça é uma excelente possibilidade de vir a ser sua namorada. - Puxa vida, se eu me mudar para Brasília fica mais perto.. - Porque você não vai até lá? - Mas eu não tenho grana pra nada...” Mutatis mutandis, não foi difícil me reportar a um outro cenário, o Oráculo de Delfos, com suas pitonisas escolhidas pelo Deus Apolo, recebendo monarcas e plebeus à busca de previsões futuras sobre amores e batalhas. Naquele havia, no entanto, todo um rito que envolvia as consultas que só aconteciam em dias determinados, com a sacerdotisa “purificada” previamente e envolta em gases misteriosos e aromáticos. Justamente por serem escolhidas por Apolo, imagino que essas sacerdotisas da Grécia antiga, seriam bem mais iniciadas nas artes divinatórias, mas, diga-se, igualmente primavam pela dubiedade, jogando com o fator de saber desarmado e fragilizado o consulente. (dtv)
Escrito por Dalila Teles Veras às 20h51
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Celebração, memória e amizades - homenagem

Ontem (ops! olho o relógio e hoje já não é hoje e o ontem foi, na verdade, sexta-feira) um grupo de pouco mais de 30 pessoas, celebrou, num restaurante em Santo André, os 78 anos de Antonio Possidonio Sampaio. Um a um, foram chegando os amigos. E de surpresa em surpresa, o aniversariante a todos foi recebendo com a naturalidade de quem intuía que a data não passaria em branco, como não passou. Bem sabe ele, que a colheita é certa para quem muito plantou. Muitos outros ali estariam, se a vida não fosse hoje tão urgente e aliciante. Os que ali estavam transformaram o encontro em verdadeira e comovente celebração. Há 18 anos, quase uma centena de amigos o homenagearam pelos 60 anos, num restaurante na Capital. Naquela mesma oportunidade, eu e Valdecirio fizemos chegar às suas mãos um pequeno volume denominado “Retrato de um Homem Livre”, que organizamos, recolhendo depoimentos de algumas dezenas de amigos (escritores, advogados, políticos, parentes, religiosos, sindicalistas (um deles, hoje é Presidente da República), resultando num admirável painel do advogado combativo, jornalista e escritor prolífico e militante, sempre presente nas causas culturais e sociais, acima de tudo um humanista. Alguns trechos do livro: - “Possidonio é um livro ao vivo. Escreve com a pena e com a fala. Porque seu coração tem estilo” Frei Betto - “Possidonio é desses escritores – a mesma honestidade – que crê na obra em si e no seu julgamento ante a posteridade. Pouco valem para ele os aplausos fugazes e circunstanciais.” – Caio Porfírio Carneiro - “(...) com sua humildade, cultura, alegria e incansável vontade de lutar por seus constituídos para servir, como até hoje, de exemplo para os novos colegas que escolheram a advocacia como profissão e sacerdócio”. Adelina Bitelli Dias Campos - “O advogado, o jornalista, o escritor, o companheiro e o amigo não se diferenciam. Prevalece em todos a harmonia, sob o acorde tríplice da autenticidade, da dignidade e da lealdade.” – Antonio Fernandes Neto - “Meu avô havia tido vinte e três filhos, e somente aquele não dava importância ao comércio ou ao dinheiro (...) Grande sertanejo, forte, brigador, papai temporão (...) quero manifestar meu orgulho em ser seu sobrinho, seu amigo, seu compadre (duas vezes) e em ter a certeza de que seu exemplo foi uma das diretrizes que me serviu de rumo” Wellington C. L. Sampaio - “Para mim, um menino – a despeito do respeito que impõem os cabelos brancos -, um guru, mesmo esbanjando essa meninez.” Rosana Chrispim -“ Humildade, lealdade, honestidade e solidariedade são os traços do homem Sampaio, meu irmão”. Valdecirio Teles Veras - “Tarde de sábado, setembro, de um 1971 brasileiro nebuloso. Um baiano afável e um sorridente piauiense dão-me as boas vindas ao CORB – Centro de Oratória Rui Barbosa., na sede da União Brasileira de Escritores. Meses depois, caso-me com o piauiense e selo uma amizade com o baiano. Casamento e amizade já duram 20 anos, encontros definitivos”.Dalila Teles Veras - “Você sempre foi uma pessoa pura, que nunca disputou um cargo, uma pessoa sem interesses pessoais. Você, Possidonio, não tem a dimensão do quanto ajudou na minha vida política, no meu comportamento político, no meu desenvolvimento político. (...) é uma pena que o movimento sindical e até o próprio PT não tenham, talvez por minha culpa, sabido utilizar todo potencial que você tem, a sua capacidade intelectual, aquilo que você representa para uma geração de sindicalistas obstinados que queriam mudar o país. Os agradecimentos não são só meus. Eu acho que são do Rubão, do Nelsão, do próprio Paulo Vidal com quem você conviveu muito; são do Devanir Ribeiro, do Djalma Bom, do Dr. Maurício, de tanta gente que hoje se transformou em personalidade...” Luis Inácio Lula da Silva À beira de se tornar um octogenário, Antonio Possidonio Sampaio, preserva a centelha menina do entusiasmo e do otimismo, cultiva o respeito à alteridade e cultiva os princípios éticos e morais que sempre nortearam sua já longa vida. 
Se há 18 anos, comemorávamos 20 anos de amizade, hoje celebramos (eu e Valdecirio) 38 anos de uma amizade/irmã, da qual muito nos orgulhamos. Tim... tim... portanto, ao nosso Salvador Bahia! (dtv)
Escrito por Dalila Teles Veras às 01h35
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Poetas em cartaz
Não é sempre que se pode dizer que a poesia (e os poetas) está em alta. Pois, neste momento, está. Na cidade de São Paulo é possível visitar duas mostras que abordam universos poéticos díspares, mas instigantes ambos. A primeira delas Ocupação Paulo Leminski: Vinte Anos em Outras Esferas, encontra-se no Instituto Itaú Cultural, na Av. Paulista. 
(fotos Luzia Maninha) É gratificante ver um poeta contemporâneo que, historicamente, ainda não teve o tempo de “decantação” via de regra necessário a esse tipo de merecimento, receber tão surpreendente tratamento, poucas vezes visto nestes casos. Além de poeta, contista, biógrafo, compositor, tradutor (trouxe para o nosso idioma obras do inglês, japonês, francês, latim e espanhol), PL desempenhou igualmente outras aparentemente irreconciliáveis atividades, como judô e zen-budismo. Esse monge iniciante foi também publicitário de profissão, professor de história e de redação. Toda essa multiplicidade, aliada à ferocidade com que consumiu de forma sempre irreverente e intensa seus breves 44 anos, acabou fazendo dele um personagem mítico. 
(poesia nos banheiros - com dignidade) O poeta Ademir Assunção, curador da mostra, teve o mérito e a sensibilidade de valorizar a obra para além do mito, mostrando um escritor de admirável erudição, em constante busca do seu melhor. Todo o material ali exposto, desde os inusitados suportes onde PL anotava seus poemas (maços de cigarro, guardanapos ou minúsculos pedaços de papel, bem como o caderno com o manuscrito de Catatau) até as entrevistas em vídeo, dão ao visitante a possibilidade de compreensão do processo de criação do artista e de sua admirável capacidade de invenção. Um verdadeiro retrato de corpo inteiro que revela a abrangência de sua obra. Corra que a mostra permanecerá aberta ao público só até 8 de novembro. 
(sem vigilância, a liberdade de fotografar) A segunda delas (que ainda não visitei e dela, falarei depois) Cora Coralina: Coração do Brasil, aborda o universo da poeta goiana Cora Coralina e encontra-se aberta ao público no Museu da Língua Portuguesa, na Praça da Luz, até 13 de dezembro. Temos tempo, portanto. (dtv)
Escrito por Dalila Teles Veras às 23h07
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Cena cotidiana
Hoje à tarde, assisti a uma cena constrangedora: um ônibus parou subitamente ao dobrar a esquina e o motorista, tentava, sem sucesso, dar partida no motor. O motorista de um carro enorme, desses outrora chamados de “utilitários”, que vinha atrás do coletivo, histericamente gesticulava com o braço para fora da janela, enquanto acionava a buzina de forma igualmente histérica. Por sua vez, o motorista do ônibus, aparentando tranquilidade, continuava a tentar fazer funcionar o motor, sem obter sucesso. A certa altura, o motorista do carro enorme consegue ultrapassar o ônibus parado e, aos berros, detrata o profissional com palavrões e gestos obscenos, acelera, faz “cantar” os pneus e desaparece. A caçamba do tal "utilitário" (aparentemente) vazia, ao que parece, é “utilizada” exclusivamente para carregar a arrogância e a soberba do seu dono que, na próxima parada, ocupará duas vagas do estacionamento e reclamará com os amigos da violência que assola seu/nosso país. (dtv)
Escrito por Dalila Teles Veras às 23h18
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