À Janela dos Dias - dalila teles veras


Novo endereço

A partir de hoje o Blog À Janela dos Dias estará em novo endereço:

 À Janela dos Dias 

 

 

 

Ficarei muito feliz em poder contar com sua visita

Dalila Teles Veras



Escrito por Dalila Teles Veras às 17h50
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Diuturnos

segunda 15   como é que o corpo adivinha as imposições do calendário? quem teria dito ao meu que hoje é segunda e não há licença para ceder ao ócio e à preguiça?

 

(in Diuturnos, um diário no ano 2000, Dalila Teles Veras, Alpharrabio Edições, 2012)



Escrito por Dalila Teles Veras às 21h00
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Diuturnos

domingo 14   versos à boca da noite ditos por quem sabe dizer, arrebanham público para fomento das artes cênicas marginais da cidade. o ator recolheu poemas e, sem a velha fórmula do recital, transformou-os em peça teatral. um fio dramático a urdi-los e o conflito da velhice de permeio – toda a dignidade que a poesia merece

 

(in Diuturnos, um diário no ano 2000, Dalila Teles Veras, Alpharrabio Edições, 2012)



Escrito por Dalila Teles Veras às 20h37
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Diuturnos

sábado 13   o balé do teatro guaíra inunda literalmente o palco do teatro local, na verdade, um grande ginásio, de acústica ruim. a dança na chuva causa impacto na platéia – um hollywood tardio mas, ainda assim, renovado

 

(in Diuturnos, um diário no ano 2000, Dalila Teles Veras, Alpharrabio Edições, 2012)



Escrito por Dalila Teles Veras às 22h44
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Diuturnos

sexta 12   um corpo não é apenas aquilo que pensa. um corpo sedentário dá respostas malcriadas, range nas juntas e recusa sustentar-se como deveria, ou seja, como verdadeiro homus erectus. mente sã em corpo insano é uma tragédia que a milagrosa terapeuta, detentora de modernas técnicas de rpg (não, não se trata de nenhum jogo para adultos brincando de criança, a sigla vem de reeducação postural global) há de curar

 

(in Diuturnos, um diário no ano 2000, Dalila Teles Veras, Alpharrabio Edições, 2012)

 



Escrito por Dalila Teles Veras às 19h21
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Saudade

à memória de minha mãe, Maria Lourdes, que me iniciou nos caminhos da poesia

 

 

Vestígios

       “Mas de tudo fica um pouco” Carlos Drummond de Andrade

 

nas trovas esparramadas

nas agendas telefônicas

nos bilhetes apressados

:

a tua caligrafia

 

na memória das gavetas

nas revistas por abrir

no lugar vazio à mesa

:

imaterial presença

 

no casaco com teu cheiro

no chocolate abocanhado

no shampoo pela metade

:

vestígios do que foi vida

irremediável ausência

 


Memória

 

Em meu dedo

o teu dedal

 

(tento, mãe

costurar tua memória

prender-te ao que me resta)

 

Incertos pontos

que a vista embaçada

não deixa urdir

 

(in, Retratos Falhados, Escrituras, 2008)



Escrito por Dalila Teles Veras às 19h03
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Diuturnos

quinta 11   os poucos presentes ao teatro bocejam ante os tropeços de uma atriz, fora do seu papel, que se diz espécie de consultora e comporta-se como apresentadora de tv. anuncia a inauguração de um corredor cultural do qual ela mal ouviu falar. o chato cerimonial das inaugurações oficiais substituído pelas gracinhas proferidas pela beldade contratada para alegrar a patuleia. mais uma vez aquilo que seria um desejável processo é “inaugurado” com o tratamento de espetáculo, evento. no saguão do teatro, o público só quer saber dos acepipes oferecidos. tanta festa... falta pão e sobra circo

 

(in Diuturnos, um diário no ano 2000, Dalila Teles Veras, Alpharrabio Edições, 2012)

 

quarta 10   a síndrome do pp (pré-prelo) não é fantasia da imaginação, ela verdadeiramente existe porque a causa existe. um livro prestes a receber a tinta da máquina impressora é terreno minado: ao primeiro descuido, uma explosão (pior: sempre depois da primeira prova). hoje, trago as pestanas queimadas por

 

(in Diuturnos, um diário no ano 2000, Dalila Teles Veras, Alpharrabio Edições, 2012)



Escrito por Dalila Teles Veras às 21h56
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Um diário no ano 2000 para ler lido em 2013

Após a experiência de um diário literário no ano 1999, que resultou no livro Minudências (Alpharrabio Edições), repeti a dose em 2000, radicalizando literariamente os registros, abolindo nomes. As anotações partiram sempre de fatos reais, mas que, ao serem transformados em literatura, dispensavam ser nomeados ou "narrados" em minúcias. Eram já outra coisa. Esse livro ficou inédito até 2012, quando, pelas mãos generosas de Luzia Maninha, apoiada por Valdecirio e contando com a cumplicidade e de alguns amigos, veio a ser publicado em junho último o Diuturnos, lançado durante uma comovente homenagem que me prestaram alguns amigos para lembrar os 30 anos de vida literária.

Em janeiro último, ao abrir uma nova janela (leia-se facebook) no  amanhecer do anos 13 deste Século XXI, pensei que talvez pudesse ser uma experiência interessante (ao menos para mim) poder perceber o que ocorre com um texto escrito há 13 anos, muitas vezes anotado primeiramente à mão, em cadernetas de bolso, a seguir digitado no computador onde repousou por 12 anos em binária escuridão, novamente foi para o papel, para o gesto fundador e, agora, poder ser lido na tela.

Resolvi, assim, publicar na rede social os 365 textos do livro, diariamente, como se no momento da postagem fossem escritos. Venho publicando religiosamente um texto diário no Facebook e o retorno é muito interessante, inclusive de pessoas que procuraram pelo livro impresso, não se contentando com a dose homeopática diária.

Considerando que nem todos que eventualmente passam por esta janela são usuários do Facebook, passarei, a partir de hoje a postar também aqui o texto do dia. Ei-lo:

 

terça 9   entre as folhas de um livro velho de medicina, cartas antigas de um amor antigo: na primeira delas, a jovem estudante, desterrada num colégio interno, há longos e intermináveis oito dias, suspira pelo amor deixado lá fora. na segunda, desespera-se, sabe que precisa estudar, mas faz-lhe falta a presença física do amado. à sensação de invasão de privacidade, mistura-se um certo formigamento imaginário, atiçando interrogações do voyeur: que teria ele respondido? foi ao seu encontro na paraíba? casaram-se, afinal? a moça teria concluído seu curso? encontrou outro amor? vivem? tudo é novidade nas páginas de um livro ainda não lido, inclusive aquilo que se escreveu e foi esquecido entre suas folhas. uma sala alfarrabista é também estação de embarque para viagens alquímicas da imaginação

 

(in Diuturnos, um diário no ano 2000, Dalila Teles Veras, Alpharrabio Edições, 2012)



Escrito por Dalila Teles Veras às 21h13
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Lygia faz Noventanos, Viva Lygia e seu ofício da paixão

"Abro a bolsa e a vida. Leva o que quiser, querido. Caixão não tem gaveta, lembra? Ana Grana deixou fazendas, casas, carros. Deixou até uma harpa dourada ao morrer segurando um pequeno terço de vidro. Sozinha. Toma meu copo, mas não meu corpo que esse não te merece, Não é modéstia não que esse tempo também passou. fiz as pazes com meu corpo porque fiquei com pena dele, faz o que pode para me agradar, para corresponder, consegue? Fico comovida, tantos anos de luta, quase sessenta e esse corpo ainda de pé, perdendo um pouco o equilíbrio mas de pé o pobrezinho. Estou quase chorando de emoção mas reconheço que é um corpo ligeiramente fatigado, hem?! Deixa ele quieto, deite-se com suas meninas de peitinhos duros e bundinha dura que prometo não interferir mais, quero apenas a sua companhia, entendeu, Diogo? A sua fala, o seu riso, a sua graça. A sua música e a sua angústia, quero também essa angústia e quem sabe te distraio com aquelas piruetas!"

 

Trecho de As Horas Nuas, talvez o menos festejado, mas, disparado, seu  melhor romance (1989). A escritora na plenitude de narradora poderosa, aqui se reinventa e reinventa uma nova linguagem, mais experimental, mais solta, mais desbocada.  A personagem deste romance, Rosa Ambrósio, atriz decadente e alcóolatra, desfiando seu ácido humor diante da "idade da madureza". Rosa múltipla, Rosa que também é Rosona, sua mais acabada personagem. Rosa e o gato Rahul, sua consciência, igualmente grande personagem.  O trecho que escolhi talvez dialogue tristemente com o que disse a escritora recentemente ao responder sobre as razões de não pretender comparecer a nenhuma das homenagens que lhe serão prestadas pelos 90 anos: "Aniversário é uma data boa quando se é jovem. Depois da velhice brutal, chega, não quero mais”. Nesta altura (da idade e da centralidade ocupada) ela já pode se dar ao luxo de simplesmente dizer Não. Que Lygia possa seguir "cumprindo até o infinito o ofício da paixão" como diria outra de suas personagens.


 

 



Escrito por Dalila Teles Veras às 22h31
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E já que hoje é comemorado o Dia Mundial da Poesia, deixo aqui um poema do meu novo livro "estranhas formas de vida" a sair brevemente pela Dobra Editorial, SP (em co-edição com Alpharrabio Edições)

sonho (re)corrente

 

              Pus o meu sonho num navio

               e o navio em cima do mar;"

                                 Naufrágio, Cecília Meireles / Alain Oulman

 

 

 

um rio, estreito e veloz

:

na superfície, aconchegada

(líquido conforto)

eu mesma, barco

nele navego

 

tudo é sensação e velocidade

as margens próximas

(quase tocáveis)

a paisagem borrada

(não há contemplação

nem há tempo)

 

corre o rio, corro com ele

 

rua lamacenta

agora, o rio

nítida, a paisagem

(desolação)

 

onde recomeça o rio?

muito distante daqui

dizem-me

sem mensurar distâncias

nem me olhar nos olhos

 



Escrito por Dalila Teles Veras às 23h25
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Sacilotto - 10 anos de ausência

 

No dia 09 de fevereiro de 2003, ao voltar do funeral de Luiz Sacilotto, escrevi um poema (poema de circunstância que permanece inédito em livro). Passados 10 anos, publico-o aqui, singela homenagem e preito de saudade a esse grande artista andreense/ brasileiro/ universal:

nove de fevereiro de 2003

sacilotto está morto
morto e só
apenas
um homem morto
em sua câmara mortuária
e seus álacres odores
 
um homem morto
morto e só, como tantos
seu corpo teso e velho
sua face baça
suas mãos alvacentas
ornadas de flores mortas
(cromatismo
sólido, indesbotável
só nas telas
arte viva e permanente)

sacilotto está morto e só
como sempre está
todo artista

do lado de fora
a multidão (des)vela
algaravia como honra fúnebre

 

 

Tempos antes, também homenageei Sacilotto com outro poema, publicado originalmente na revista Livrespaço 4 (out/nov/dez 1992) e, posteriormente, revisto, incluído no livro À Janela dos Dias. Por ocasião do lançamento da revista, que o homenageou pelos 50 anos de carreira artística e cuja capa foi especialmente desenhada por ele, li o poema em sua presença.  Revisto novamente ("rever" é a sina de meus poemas, toda vez que são publicados), aqui vai o poema, evocando aquele belo momento, quando, simultaneamente ao lançamento da revista, ocupava a Parede d´Arte da Livraria Alpharrabio uma arrebatadora, coloridíssima e inédita tela de Sacilotto: 


linha, cor e risco
      para luiz sacilotto

pigmentos e telas à mão
notas de chopin ao fundo
- o ofício de criar é rito

emoção x técnica
domínio & bagagem
- a trajetória é risco

a linha revela cores
ilude e desvela tramas
- a beleza como ofício



Escrito por Dalila Teles Veras às 15h47
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Yu Xuanji, poeta, monja e cortesã

A descoberta deu-se ao acaso, durante uma exploração na caixa de promoções da Livraria da Editora Unesp, na Praça da Sé, numa de minhas recentes andanças pelo velho centro de São Paulo (um de meus passeios prediletos). Dentre algumas pepitas que vieram na bateia daquela pescaria, esta: Poesia completa de Yu Xuanji (Editora Unesp, 2011). Pouco conheço da poesia chinesa. Li, em português, pois não tenho esperança nem a pretensão de algum dia vir a ler em chinês, além de escrito sobre jade - poesia clássica chinesa, reimaginada por haroldo de campos (em 2a. edição, ampliada, pela Ateliê Editorial, 2009) as traduções de Mário Faustino de Cathay, 1915, da tradução de Ezra Pound (in Poesia, Hucitec-UNB, 1983) e as traduções de Ezra em Os Cantos, traduzido entre nós por José Lino Grunewald (Ed. Nova Fronteira, 1982). Nenhuma mulher entre eles, entretanto, ainda que se fale de "uma extensa linhagem de poetisas chinesas".

Assim, esta é considerada a primeira tradução em português da obra integral desta lendária (sei agora) poeta chinesa (844-869 d.C) pertencente ao um significante período, no qual muito floresceu a poesia e outras artes, a Dinastia Tang (618-905). A obra é composta por 48 poemas e cinco fragmentos (tudo o que foi preservado da poeta) e revela, ainda que as muitas referências históricas denunciem sua época, o muito que essa poesia concisa (característica da poesia chinesa, como nos ensina Haroldo) e urbana em muito se assemelha à poesia que hoje se pratica neste nosso mundo ocidental e urbano.

 

Além de uma poesia que, pela primeira vez na história da poesia chinesa, aborda a temática amorosa de forma elegante, mas explícita e desafiadora, a vida livre considerada fora dos padrões de sua época, com uma "consciência feminista precursora em relação à modernidade" muito contribuiu para o fato de seu nome ter se transformado em lenda. Considerada inteligente e talentosa e, de quebra, dotada de grande beleza, Yu Xuanji foi, já aos 12 anos, discípula de um importante poeta (Wen Tingyun) que, diz a lenda, pode ter sido também seu amante. Casou-se, como concubina, aos 16 anos, separou-se três anos depois, quando converte-se em monja taoista e cortesã (na Dinastia Tang, as sacerdotisas taoistas eram mulheres de vida autônoma, que gozavam de grande liberdade em suas relações sociais e transtivam pela casta das cortesãs, podendo viajar livremente e participavam da vida cultural e literária da época, esclarece o tradutor na indispensável introdução).  Morreu precocemente (entre 26 e 28 anos) brutalmente espancada por uma noviça sua criada que, diz novamente a lenda, agiu por ciúme.

 

A delícia da leitura desses poemas deve-se ao esforço, seriedade e notável habilidade dos tradutores, Ricardo Primo Portugal e Tan Xiao que, mesmo reconhecendo  procedimentos que  "reinventam o efeito sonoro e visual do poema original chinês por recursos do verso livre e pela construção da imagem" (vide Ezra Pound) bem como a dos chamados poetas concretos que "privilegiam a invenção de uma reprodução do efeito sonoro", optaram por aquilo que os "imagistas norte-americanos chamam de "tradução transcultural", na qual é mantido o verso fixo e rimado, não como um texto "pré-moderno" mas como como esforço "modernista" de transposição do efeito sonoro-imagístico do original". O resultado é adorável e aqui vai uma pequena mostra:

 

Dizendo adeus (I)

 

Acreditava intermináveis as noites

neste quarto, entre delícias. Mas viajas,

nuvens erram. Deito só e não reajo,

fina-se a lâmpada; em torno, a mariposa.

 

Dizendo adeus (II)

 

Eira nem beira, a água segue a si mesma

Nuvens vêm sem aviso, vão sem promessas

Longa é a primavera no Grande Rio

só sem o par, nada um pato-mandarim (*)

 

(*) nota dos tradutores:  Patos-mandarins - yuan yang - são pássaros conhecidos por acasalarem de maneira estável pela vida toda. Na poesia chinesa clássica, são metáfora recorrente do amor conjugal e da fidelidade.



Escrito por Dalila Teles Veras às 23h53
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Aniversário de Poe e as traduções d´O Corvo

Pelas redes sociais, fui informada que hoje, 19.01, aniversaria Edgar Allan Poe (1809-1849 - puxa vida, esse pessoal vivia tão pouco e fazia tanto!). Corri à minha prateleira de poetas de língua inglesa e lá estava o precioso livrinho "O Corvo" e suas traduções, organização Ivo Barroso, Lacerda Editores, 1998. O volumezinho é precioso por reunir nada menos do que 9 traduções do famoso poema que deu notoriedade a sua autor por suas declamações em público. Duas em francês (Charles Baudelaire, 1853 - o primeiro a traduzir o poema do inglês para outra língua, neste caso, o francês; e Stéphane Mallarmé, 1888) e nada menos do que sete traduções para a nossa língua portuguesa (Machado de Assis, 1883; Emílio de Meneses, 1924; Fernando Pessoa, 1924; Gondin da Fonseca, 1928; Milton Amado, 1943;  Benedito Lopes, 1956 e Alexei Bueno, 1980, o que bem demonstra a riqueza do trabalho poético e suas ilimitadas possibilidades de "interpretação", já que, sabemos, traduzir um poema e manter rigorosamente todos os elementos originais é tarefa praticamente impossível. Curiosamente, o crítico Ivo Barroso, organizador do livro, considera a tradução de Milton Amado, um jornalista, a que melhor "encontra a embocadura, como se diz em música, observando o andamento largo sem descurar dos ressaltos vocais aqui e ali, como numa composição sinfônica", superando, a de bambas como Machado e Pessoa, por preservar as qualidades poéticas intrínsecas do poema: "é oral, declamativa, fluente, emocionante". 

 

Comparecemos a primeira estrofe do original e as traduções de Machado, Pessoa e Amado, para ficarmos apenas nesses três:

 

Poe

 

Once upon a midnight dreary, while I pondered, weak and weary,
Over many a quaint and curious volume of forgotten lore,
While I nodded, nearly napping, suddenly there came a tapping,
As of some one gently rapping, rapping at my chamber door.
“Tis some visitor”, I muttered, “tapping at my chamber door –
                     - Only this and nothing more”.

 

Machado

 

            Em certo dia, à hora, à hora
            Da meia-noite que apavora,
Eu caindo de sono e exausto de fadiga,
            Ao pé de muita lauda antiga,
De uma velha doutrina, agora morta,
Ia pensando, quando ouvi à porta
Do meu quarto um soar devagarinho
            E disse estas palavras tais:
“É alguém que me bate à porta de mansinho;
            Deve ser isso e nada mais”

 

Pessoa

Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de alguém que batia levemente aos meus umbrais.
“Uma visita”, eu me disse, “está batendo em meus umbrais.
            É só isto, e nada mais”.

Amado

 

Foi uma vez: eu refletia, à meia-noite erma e sombria,
a ler doutrinas de outro tempo em curiosíssimos manuais,
e, exausto, quase adormecido, ouvi de súbito um ruído,
tal qual se houvesse alguém batido à minha porta, devagar.
“É alguém – fiquei a murmurar – que bate à porta, devagar;
            sim, é só isso e nada mais.”

 

Ainda que Barroso, com propriedade de tradutor respeitado entre nós (Baudelaire e outros), aponte algumas "derrapadas" na tradução de Pessoa e argumente que "certas colocações perfeitas para os ouvidos e a dicção portugueses, não soam espontâneas aos nossos" causando "certa estranheza ao leitor brasileiro", estou convicta que ninguém o superou na reprodução poética do poema para a nossa língua. Não poderia ser diferente, poeta genial, Pessoa conhecia os "truques" e "técnicas" da poesia e tinha, além do mais, o português e o inglês como línguas "maternas".  Entre outras coisas, o ritmo de sua tradução é absolutamente fiel ao do original.

 

Polêmicas tradutórias (ou traidoras) à parte, vale a pena reler por inteiro (no original ou nas traduções) esse longo e belo poema, um dos mais conhecidos da literatura universal, em voz alta, que foi para isso que Poe o compôs. (dtv) 



Escrito por Dalila Teles Veras às 23h02
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De honrarias e poemas suspensos

Pela trilha da leitura do poeta árabe Adonis, de quem falei aqui, cheguei a outros poetas árabes (pré-islâmicos, neste caso), traduzidos e reunidos por Alberto Mussa, numa encantadora antologia já a partir do próprio título, Poemas Suspensos (Record, 2006).

A poesia, como se sabe, perdeu um bocado de seu status em tempos condizentes com "produtos" mais midiáticos. Mas houve um tempo, em que poetas e poesia, mereciam honrarias como a de ter "suspensos" seus poemas. Ouçamos o que nos diz Mussa, o escritor brasileiro que foi aprender árabe só para ler e traduzir essa poesia: "Durante o mês da peregrinação dos beduínos ao santuário de Meca, onde se situava (e ainda se situa) a Caaba - grande pedra preta sobre a qual se construiu uma "casa" cúbica, acontecia a feira de Ukaz, onde havia concursos de poesia. Dez (ou sete) dentre os poemas premiados receberam uma honra especial, superior mesmo, ao serem bordados com fios de ouro sobre um manto de púrpura e exibidos sobre a Caaba."

Puxa vida! poema bordado com fios de ouro sobre um manto de púrpura e exibido sobre uma pedra sagrada!

Uma das características dessa poesia (vejam só), escrita na língua que hoje se denomina "árabe clássico", é a concisão. Ainda que ligada aos versos precedente ou subsequente, ensina o tradutor, cada verso deve corresponder a uma unidade sintática completa. Podemos, assim, admitir que essa turma já se enquadrava como "vanguarda" há mil e quinhentos anos..

 Vejamos alguns exemplos do que escreveram alguns desses beduínos-poetas:

 

Ninguém dá conselho a quem o tempo é incapaz de aconselhar; inútil é quem tem a razão exausta

 

Faça parte do povo do lugar onde habitar e nunca diga: sou estrangeiro;

pois às vezes estranhos vivem juntos; e parentes, isolados.

(Abid filho de al-Abras - Nota: "a lenda atribuiu a este poeta, o mérito de ter sido o primeiro árabe a dizer poesia".)

 

Ó morada de Maia entre as alturas e as faldas da montanha, desabitada, onde o passado dura para sempre!

 

dentre os touros selvagens de Wajra, pernas pintadas, tripas famintas como um sabre excepcionalmente bem polido.

(Nábigha de Dhubiyan)

 

se conhecesse o diálogo, apelaria; se soubesse falar, eu iria ouvir.

 

O que tem matado a sede da minha alma e me tem curado das doenças é o brado dos cavaleiros: "Eia, Ântara, vai na frente!"

(Ântara, filho de Chaddad)

 

Não me importaria com a visita dos que velam os mortos, não fossem três prazeres de jovem:

 

um trago de vinho tinto, que começa a espumar misturado com água, transbordando do cálice (isso é o que em mim mais censuram);

 

um combate a cavalo, quando os indefesos me convocam, num garanhão de patas recurvas, como o chacal dos bosques sombrios, pronto a emboscar os que vêm beber;

 

e um dia lânguido, quando o céu se encobre de nuvens negras - maravilhosas nuvens negras -, sob uma tenda bem fincada, com uma mulher bela e carnuda,

cheia de braceletes e pulseiras, como se pendessem do tronco imaculado de uma asclépia ou de uma mamoneira.

 

(Tárafa, filho de Al-ABC Nota: poeta satírico, de vida desregrada, afastado do convívio tribal, Tárafa caiu em desgraça e foi condenado à morte. "Morreu da maneira que escolheu: encheram-no de vinho até a boca e o sangraram, na altura dos intestinos").

 

Afinal, como se vê, nem só de glórias vivia (vive) o poeta. (dtv)



Escrito por Dalila Teles Veras às 23h15
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Escritores, homenagens e pombos

No jornal O Estado de São Paulo: "Charles Dickens Ganha Estátua - O escritor Charles Dickens (1812-1870) pediu que nenhuma estátua fosse feita em homenagem a ele, mas não teve seu desejo atendido. No dia 9 de junho, no 133º aniversário de sua morte, será inaugurado um monumento no valor de 118 mil libras, em sua cidade natal, Portsmouth, onde ele viveu até os três anos de idade. Ele estará sentado numa cadeira lendo um livro. Esta será a segunda estátua para o autor de Oliver Twist e Um Conto de Duas Cidades. A primeira foi erguida em 1891, na Filadélfia. Em dezembro, no final das comemorações pelo seu bicentenário, o museu dedicado a ele, em sua casa de Londres, foi reaberto depois de passar por reforma."

Estou com Dickens. Nada mais inglório do que passar a vida com a cabeça cagada pelos pombos! A memória de um escritor está nos livros que escreveu e... por que não? nas marcas que deixou no seu ambiente de trabalho. Preservar as casas-museus de escritores, manter o "clima" de sua época, é um "investimento" bem mais interessante e honroso. Em forma de silenciosa homenagem de leitora, nos meus roteiros de viagem, sempre trato de incluir alguma, como esta, no já distante ano de 1996:

 

 

 



Escrito por Dalila Teles Veras às 22h34
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