À Janela dos Dias - dalila teles veras


Aniversário

Exatamente um mês à janela, a vida lá fora observada cá dentro em 1.042 visitas recebidas. A vida lá fora aqui presente. Trocas. “Tocar uma alma”, como disse a Adélia, não seria isso? Tocar uma alma também não seria o objetivo de todo aquele que escreve algo?

Bem hajam! Portanto, todas essas almas visitantes que, tocadas ou não, cederam ao convite da visita. Continuemos, à janela. (dtv)



Escrito por Dalila Teles Veras às 20h25
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


Da arte e da bibliofilia

Para criar o novo, é preciso remontar às fontes, à humanidade na sua infância” Paul Gauguin, em entrevista concedida a Eugene Tardieu, 13.5.1895

Adquiri, pela Internet, uma pequena preciosidade, que traz o seguinte colofão:

“Este livro - segunda edição da ENTREVISTA e primeira com CARTA A DANIEL DE MONFREID – foi composto e impresso manualmente na oficina da EDITORA NOA NOA. A tiragem é de 350 exemplares impressos com tipos romanos, corpo 12, sobre papel off-set. O desenho usado na capa (auto-retrato) e os do miolo são de GAUGUIN. Terminou-se a impressão em março de 1981. Impresso na ilha de Santa Catarina.

 O colofão, para quem não sabe, é uma espécie de emblema do editor, do verdadeiro editor; através dele é “denunciada” a intenção da publicação, o cuidado com os detalhes da impressão. Neste caso, trata-se de um editor realmente especial, Cleber Teixeira, sobre quem já falamos no blog Alpharrabio. Voltemos ao livro ou ao não livro, uma vez que se trata de 9 folhas soltas enfeixadas numa capa de um papel ordinário azul (assemelhado àquelas capas de caderno escolar antigo) que não resistiu ao tempo e rasgou na lombada e amarelou nas bordas, mas que guarda um encanto particular, inclusive, remetendo à penúria passada pelo artista que, assim como seus amigos impressionistas (movimento de sua época ao qual não se filiou) recebeu boa acolhida da crítica mas não encontrava compradores.  O miolo está intacto e o conteúdo é um verdadeiro presente para os admiradores do pintor e interessados em arte em geral. Um prefácio esclarecedor do editor, que não por acaso nomeou sua editora-tipografia de Noa-Noa, palavra que na língua do Taiti, quer dizer “muito perfumada, o que o Taiti exala”, traça um brevíssimo perfil do artista e revela que esta entrevista, pela primeira vez publicada em português, é um “pequeno mas importante subsídio para a compreensão da obra e da personalidade de Gauguin”. De fato, estavam ali os conceitos presentes na sua singularíssima obra. Já na carta que envia ao amigo Manfreid, ele relata suas desventuras bem como fala dos motivos que o levaram a executar o quadro “que quis pintar antes de morrer” (depois disso tentaria o suicídio)  De onde viemos? O que somos? Para onde vamos?, uma tela de grandes dimensões, onde, em meio a diversas e emblemáticas cenas, um homem, ao centro, colhe um fruto de um árvore. Essa pintura viria a sintetizar toda sua obra.

Retirei daquela entrevista a frase para a epígrafe porque me fez repensar sobre o ato de criar e a constante busca pelo novo, via de regra, pelos estreantes nas artes. Pois bem, não seria essa humanidade na sua infância algo como o eterno retorno, o fruto da árvore, as heranças primordiais como autoconhecimento e ferramenta para a construção da singularidade, nesse caso, o novo?  (dtv)



Escrito por Dalila Teles Veras às 22h16
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


A palavra e os acontecimentos

Os acontecimentos precisam de um certo tempo para se tornarem palavra. Como se seu sentido e também sua forma, tivessem um longo caminho interior a percorrer antes de encontrar sua coesão” Julio Cortázar in Os autonautas da cosmopista

Dia destes, minha amiga Adélia Nicoletti me disse que se lembrou da Fafner, nome que Cortazar deu à kombi em que ele e Carol Dunlop percorreram a estrada Paris / Marselha, aventura que resultou no “diário de viagem”  Os autonautas da cosmopista, quando soube que apelidei o meu laptop de Funes, el memorioso.

Esse apelido se deve ao fato de que um computador, onde tudo pode ser armazenado,  não deixa de ser equivalente àquele personagem de Borges (inserido no seu livro Ficções) que desenvolveu uma prodigiosa memória e era capaz de lembrar tudo o que via e ouvia, com os mais ínfimos detalhes, mas que, em função de tanta informação, não conseguia pensar nem possuía discernimento acerca daquilo que memorizou.

A lembrança de Adélia também me remeteu àquele maravilhoso livro,  inclassificável como gênero, no qual o genial escritor argentino, compatriota do igualmente genial Borges, é capaz de escrever sobre o nada de um dia. Foi desse livro que retirei a epígrafe de hoje e que, por seu turno, também me remete às preocupações aqui colocadas no início do mês, ou seja, a de me postar à janela dos dias e escrever sobre eles, sem que tenham se tornado ainda palavra. Irresponsável, continuo (continuarei?) à janela. (dtv)



Escrito por Dalila Teles Veras às 21h46
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


Rudá de Andrade

Não consigo ver-me dentro de uma só existência” Rudá de Andrade, in Cela 3

Hoje pela manhã, tomei conhecimento do falecimento do escritor e cineasta Rudá de Andrade, ocorrido nesta terça, 27. Rudá foi, sobretudo, um homem culto e atuante na área da cultura e do cinema. Dirigiu filmes, como Pagu, um documentário sobre a vida da irreverente e emancipada musa do modernismo brasileiro, militante política, Patrícia Galvão (1910-1962), sua mãe.

Rudá, por ele mesmo:

Nasci em São Paulo, sob a égide do Movimento Antropofágico – 1930. Por isto tenho nome tupi-guarani. Passei a infância de um lado a outro, enquanto meus pais, Oswald e Patrícia, intelectuais-políticos, fugiam da polícia ou iam para a cadeia. A partir dos dezesseis anos, coloquei na cabeça a intenção de, também eu, tornar-me um intelectual. Escrevi horrivelmente, pintei mal, arranhei o piano, porém, nada perdia do artístico-cultural que se passava na pacata São Paulo. Aproximei-me do cinema e, com dezenove anos, parti para a Europa, onde estudei e profissionalizei-me. Radicado na Itália, passei a trabalhar com De Sica. Deslumbrado com a Vera Cruz, retornei ao Brasil, no IV centenário de São Paulo, onde encontrei apenas a crise cinematográfica. Passei a trabalhar na Cinemateca Brasileira. Participei da formação da Escola de Comunicações da USP, onde implantei o setor de cinema e lecionei durante dez anos. Trabalhei para a UNESCO, fiz filmes, participei da política, organizei entidades e atividades culturais publiquei trabalhos. Tomei parte na criação do Museu da Imagem e do Som de São Paulo, o qual dirigi por uma década. Renunciando ao cargo desse órgão estatal, parti para a implantação de um centro cultural de iniciativa privada. Forçado, interrompi este trabalho para fazer um “estágio cultural” de dez meses na prisão de Bourg-em-Bresse, França. Após a absolvição, voltei a São Paulo para continuar a fazer política e cultura.”  (texto copiado do livro Cela 3, Editora brasiliense, 1983, relato de memórias desse período da prisão na França, e que representa um episódio verdadeiramente kafkaniano. Para quem nasceu sob a égide de uma vida aventurosa, nada mais natural).

Conheci Rudá na União Brasileira de Escritores, em São Paulo, por volta de 1984. Acompanhei de perto seu empenho e dedicação, ao lado do amigo Antonio Possidonio Sampaio ede tantos outros escritores, na organização do histórico Congresso de Escritores, em 1985.

Em 1986 atuamos juntos na condição de diretores daquela entidade e foi então que mantive um contato um pouco mais estreito com ele. Digo “um pouco mais estreito”, porque Rudá era um homem reservado e eu, diante de alguém que, por ser o que era, me intimidava, jamais me atrevi a lhe dirigir nenhuma pergunta de cunho pessoal.  Distanciava-nos o mito. Afinal, ali estava o produto da paixão avassaladora de Oswald de Andrade e Pagu, figuras de minha admiração literária e "militância cultural". Assim, as nossas conversas eram restritas a temas concernente à vida associativa e a fatos banais do cotidiano. Uma das tarefas que executamos juntos (coisa mais inglória...) foi a execução de uma pequena reforma física da sede daquela entidade (queríamos dar um ar menos vetusto ao conjunto da rua 24 de Maio). E lá fomos nós à busca de algumas peças de mobiliário. Caminhando ao lado daquele homem de gestos calmos e fala mansa, intrigava-me o fato de alguém com essas características ser filho de uma dupla tão exuberante e explosiva. Ficou-me dele a recordação de um homem extremamente gentil e educado e a impressão de que lhe pesava sobre os ombros a enorme carga de carregar um DNA que, apesar do seu inquestionável valor pessoal e contribuição à cultura brasileira, não o deixou jamais ser ele mesmo. Acredito mesmo que tenha, conforme insinuou, dentro de outro contexto, em seu livro Cela 3, optando por mais de uma “existência”, como condição de (sobre)vivência e identidade. Percorrendo há pouco o “Google”, constatei que todas as notícias de sua morte (inclusive esta aqui), remetem, sem exceção, à sua filiação, o que vem confirmar as minhas suspeitas. Fiquei triste, mais uma vez, não só pelo fato em si, o da vida sob um peso que não escolheu, bem como por sabê-lo para sempre ausente. (dtv)



Escrito por Dalila Teles Veras às 23h35
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


O texto do tamanho

"Cada livro contém uma aposta, um desafio ao silêncio, que só pode ser vencido quando o livro é aberto novamente." George Steiner in Nenhuma Paixão Desperdiçada

Ao que parece, sem que essa fosse a minha intenção, acabei por instalar aqui uma certa polêmica sobre concisão literária e, agora de forma intencional mesmo, quero também meter a colher nesse assunto:

Quando me referi a Calvino sobre a concisão dentre as premissas do milênio nas questões literárias, pensei no aspecto da linguagem que procura dizer muito com pouco, para mim um constante desafio na poesia. Isso nada tem a ver com a  falta do que dizer. É possível que um autor tenha muito a dizer, mas que, linguisticamente falando, não consiga encontrar formas originais para dizer esse muito com economia de meios. É também possível, concordo, que determinado autor nada tenha para dizer e que simplesmente utilize da economia como simples jogo verbal esvaziado de conteúdo. Quanto à prosa de ficção, acredito que a concisão não está representada no número de páginas escritas, mas no excesso de “gordura” do texto. Lembro aqui, uma vez mais, Graciliano Ramos, modelo de “magreza” eficiente.

Nem anorexia nem bulimia. A busca da palavra exata. Cada autor, se dotado de engenho e arte, saberá encontrar sua medida. E cada texto é um texto, cada livro é um livro, é um livro, é um livro (alô Gertrude!) dtv



Escrito por Dalila Teles Veras às 14h53
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


Perfis

Não se deve confundir a cidade com o discurso que a descreve, contudo existe uma ligação entre eles”. Ítalo Calvino, in As Cidades Invisíveis

barbeiro

 

em 1952, a oratório era rua de terra batida. para mais além, apenas mata. os carros-de-bois chegavam até a altura do número 1500, onde estava localizado o salão real. enquanto os bois pastavam, os seus condutores cortavam o cabelo ou simplesmente proseavam. mal raiava o dia, o jovem alcides, armado de sua navalha alemã, devidamente afiada em palha de carnaúba, atendia aos fregueses que o procuravam à busca do máximo de beleza que a sociedade lhes permitia, barba, cabelo e bigode. a hábil tesoura cortava, aparava e a conversa percorria o dia, os meses, os anos: gerações

a rua asfaltada, a cidade espichada, os filhos chegando, os filhos dos fregueses chegando, os netos chegando, os netos dos fregueses chegando. os anos passaram, o século mudou e o mundo, deslumbrado com modernidades, não seduziu o barbeiro alcides. às vésperas do envelhecer, a jornada continua longa, a cadeira a mesma, a pia-lavatório a mesma,  o corte o mesmo, menos a navalha. em tempos de AIDS, a navalha – única concessão - substituída por lâminas descartáveis. em tempos bicudos, quando desempregados são transformados em patrões e a concorrência torna-se feroz, o salão real resiste, relicário de um tempo que ali ficou

 

Este texto faz parte de uma série denominada “perfis”. Trata-se de homenagens literárias a figuras de minha cidade (textos que foram escritos paralelamente aos poemas do livro Retratos Falhados, acabado de sair pela Editora Escrituras, SP (com lançamento marcado para o dia 12 de fevereiro próximo na Livraria Martins Fontes, na Av. Paulista, Capital, e no dia 17 do mesmo mês, na Livraria Alpharrabio em Santo André).  Se gostarem, me comprometo a postar outros mais. (dtv)



Escrito por Dalila Teles Veras às 23h24
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


São Paulo

"São Paulo! Comoção de minha vida..." Mário de Andrade

São Paulo aniversaria. Completa 455 anos. Conheço-a há 51. Retenho, no entanto, detalhes mais precisos da cidade, a partir de 1962, quando de fato passamos a ter uma convivência mais íntima e consciente. São 47 anos, portanto, de (con)vivências, paixão para toda vida. Em 1961 São Paulo tinha pouco mais de 3 milhões de habitantes (o Brasil 70 milhões). Já era uma metrópole, o então Prefeito Francisco Prestes Maia popularizava seu mandato rasgando avenidas e erguendo viadutos. Seu cotidiano, porém, ainda guardava um certo romantismo. Nada comparável há hoje frenética (não mais romântica, mas ainda muito sedutora) cidade de 11 milhões de habitantes.

Graças ao curso de datilografia no Instituto Brasileiro de Mecanografia, na Rua Quintino Bocaiúva, a menina de 16 anos logo arrumou emprego num modesto escritório da então elegante Rua Barão de Itapetininga. Bem em frente ao escritório, a Confeitaria Vienense, onde se tomava chá ao som de um velho piano tocado por um velhíssimo músico, tal qual ao tempo dos modernistas de 22 que ali se reuniam (quando, provavelmente, o músico era tão jovem quanto os poetas que o ouviam). A Livraria Brasiliense era o paraíso dos olhos, uma vez que os parcos recursos da época só permitiam compras em dia de pagamento. Mais ao fim da rua, na Praça do Patriarca, em frente ao teatro Municipal, a loja de departamentos Mappin e sua cobiçada moda prêt-à-porter, que podia ser adquirida pelo crediário, novidade absoluta para quem até então dependia da costureira do bairro para andar na moda. Um pouco mais adiante, na Xavier de Toledo, a Leiteria Americana, com seus dois ambientes. Na frente o balcão, para os mais apressados. Aos fundos, suas mesas de madeira escura cobertas com alvas toalhas. A Praça do Correio, ao final do dia, e suas intermináveis filas à espera dos ônibus que levariam de volta a casa aqueles que faziam daquele cidade, já à época o grande motor do país. Mesmo com a mudança para Santo André, em 1972, onde resido até hoje, jamais deixei de "habitar" essa fascinante cidade. Com freqüência vou aos  seus teatros, cinemas, museus, galerias, cinemas, feiras de antiguidades. Ainda gosto de flanar pelo velho centro, a  recordar do primeiro "sunday" e  da "banana split" degustados nas Lojas Americanas da Rua Direita.  Das sessões ao final da tarde no luxuoso Cine Marrocos, com sua imponente entrada de espelhos e poltronas de couro, na Conselheiro Crispiniano, rua onde mais tarde se instalaria uma loja da Editora Ediouro, com seus clássicos em edições de bolso, festa para o meu bolso e espírito.

Para São Paulo, um poema desta escriba, que foi publicado no cartazete Jornal do Ônibus, no projeto São Paulo em versos femininos, homenagem da prefeitura municipal, das secretarias de Transporte e Cultura e da SPTrans aos 450 anos da cidade, posteriormente incluído em "Paixão por São Paulo - antologia poética paulistana", organizada por Luiz Roberto Guedes (Editora Terceiro Nome, 2004):



São Paulo

 

metrópole sem ar 

pernas abertas 

ao sol de néon

acoberta e ignora

sufoca e abriga

seus filhos (cidadãos e bandidos)

em grande estilo de mãe piedosa

A dor em São Paulo é guardada em potes

(como faziam as mães com as compotas)

dia virá, o grito certeiro

cuidará de abrir os vidros

: sabores a descoberto
 

Em tempo: Como se vê, a promessa da concisão foi para o ralo. A cronista aqui (saudosista, para piorar as coisas) anda sempre a brigar com a poeta. Sorry... (dtv)



Escrito por Dalila Teles Veras às 22h14
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


Da arte da concisão

 "Tudo que se diz de uma maneira pode-se dizer melhor de outra" Ernesto de Mello e Castro, poeta português

Lord Byron (1788-1824), o romântico poeta inglês, era distraído e não prestava atenção nas aulas. Dizem seus biógrafos que, certa feita, o professor pediu para toda a classe uma composição sobre as Bodas de Canaã, ou seja, o milagre de Cristo na transformação da água em vinho. Byron escreveu apenas uma frase e a entregou ao professor, em menos de um minuto: "A água viu o seu Senhor e enrubesceu." Foi aprovado com louvor.

Suspeito que ando prolixa neste território virtual. Ora, se a concisão é uma das premissas a que me proponho na poesia por que não aplicá-la aqui também? Este texto servirá, portanto, para me lembrar que o mundo tem pressa e não há mais lugar para prolixidades. E paro por aqui, justamente para não incorrer no erro que acabo de prometer evitar. (dtv)



Escrito por Dalila Teles Veras às 20h18
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


Livros, Leitura e aprendizado

"As palavras em uma página dão coerência ao mundo." Alberto Manguel, escritor argentino 

Tem alguma razão a Constança Lucas quando diz (no comentário ao meu texto de ontem) que  "as coisas já foram muito piores do que são". Sim, se considerarmos as estatísticas (ora as estatísticas...) de redução do analfabetismo, de pessoas a freqüentar escolas, etc... Sim, já foi bem pior. Com relação à leitura, como frisei, há muitos, muitos programas para incentivo à leitura, mas os resultados (não digo que não existam) são insuficientes ou praticamente invisíveis porque os resultados do ensino são piores ainda. A escola, via de regra, não está obtendo o mínimo que é ensinar (bem) o aluno  a ler (e compreender o que leu), escrever (com clareza e utilizando as regras mínimas da norma culta) e contar (efetuar as 4 operações).

Conversando por estes dias com uma criança de 11 anos que estuda numa escola pública e iniciará a 6ª. Série neste ano, descobri que ainda não sabe a que Continente pertence o Brasil (mas já desenhou/copiou e entregou para o professor de Geografia inúmeros mapas do Brasil), nem a região em que se situa o Estado em que vive, muito menos a que Zona da cidade pertence o seu bairro; não adquiriu o hábito da leitura e, claro, comete muitos erros na escrita; Não é capaz de efetuar operações elementares de matemática (saber tabuada já é pedir demais, pois a mesma foi banida pelo ensino moderno sob alegação de que a decoração mecanizada não favorece o entendimento. A tabuada foi substituída por uma série de jogos, etc. A polêmica, no entanto - tabuada ou não - ainda permanece entre educadores nos dias de hoje). Por outro lado, a menina já possui uma página no Orkut (sob falsa declaração de idade, assim como fazem todas as meninas de sua idade) e se comunica com as amigas pelo MSN. Sua capacidade de aprendizado é subestimada na escola, mas, em contrapartida, sem possuir computador em casa, dá conta desse tipo de comunicação eletrônica sozinha, sabe navegar na Internet e domina jargões da informática e freqüenta lan hauses!  Sim, os pais permitem (por ingenuidade ou por uma espécie de mea culpa por não poderem oferecer um computador à filha - sinônimo de status e aprendizado) e os proprietários desses estabelecimentos admitem crianças dessa idade. Não estou falando aqui de uma criança infradotada, falo de uma criança viva, curiosa, mas que por viver num meio que não lhe foi/é propício ao desenvolvimento intelectual, não conseguiu avançar no seu aprendizado. Se falarmos de pessoas com 10 ou 15 anos a mais que concluíram o segundo ciclo de aprendizagem (11 anos de freqüência), as coisas não são muito diferentes. Não espere que qualquer caixa do supermercado (que não estudou pelo método da tabuada) saiba quanto será o troco para uma compra de 31,50 se lhe for dada uma nota de 50,00, e mais 1,50 para facilitar o troco. Se a máquina não informar o valor exato a ser devolvido, ela certamente recorrerá a uma calculadora. Em ambos os casos, são pessoas consideradas alfabetizadas.

Concluo, assim, que em algum momento e lugar alguma coisa deu errado. O ensino tradicional não servia mais ao nosso tempo (e por certo muita coisa não servia), mas não se foi capaz de colocar nada melhor em seu lugar ou se foi, faltaram pessoas habilitadas para aplicar esses novos métodos de ensino no cotidiano escolar.  Com a palavra os educadores e especialistas, pois esta escriba, à semelhança de Alberto Manguel não estudou, leu. 

E.T.: tem toda razão a Constança quando diz que preciso ser mais otimista. Preciso. (dtv)

 



Escrito por Dalila Teles Veras às 22h19
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


Livros e leitura

"Os verdadeiros analfabetos são os que aprenderam a ler e não lêem" Mário Quintana

Em tempo algum o Governo Federal brasileiro comprou tantos livros para distribuição gratuita como agora. Paradoxalmente, cada vez mais se lê menos no país. Por mais louváveis que sejam as intenções governamentais, além de engordar a receita de algumas editoras que vivem de publicar para o governo, esses programas não avançam e nem cumprem com o seu propósito de criar leitores.  Faltam ações complementares e efetivas para que realmente esses livros, que consomem altas somas do orçamento, sejam lidos e contribuam com seus objetivos, ou seja, os de fomentar o hábito da leitura entre crianças e jovens.

As escolas da rede pública e as bibliotecas recebem livros às toneladas que, via de regra, ficam a mofar em uma sala fechada da escola. Há outro fato preocupante relacionado com essa questão que, na condição de livreira, me sinto na obrigação de levantar e que serve como ilustração àquilo que estou dizendo: muitos desses exemplares, com carimbos do governo de venda proibida, destinados a professores e programas próprios da rede de ensino, são diariamente ofertados por particulares aos sebos (muito deles compram...), com suas páginas sem sinais de uso. Fácil deduzir que foram desviados de seu destino, desprezados por quem de direito e dever.

A propósito, li que Portugal hoje e amanhã promove importante debate sobre a leitura. Trata-se do  Congresso Internacional de Promoção da Leitura, que ocorre na Fundação Calouste Gulbenkian , um projeto da Casa da Leitura (visite, as propostas do portal são interessantíssimas: www.casadaleitura.org ) Especialistas de vários países debaterão os seguintes temas: Literatura para a Infância e Formação de Leitores; Estratégias de Leitura e Compreensão Leitora e Projetos de Promoção da Leitura.  

Essas e tantas outras iniciativas nos mostram que a preocupação com a leitura é planetária. No Brasil urge complementar esses programas governamentais, não só capacitando pessoas que possam efetivamente seduzir para a leitura, com ações efetivas que façam com que a leitura seja aceita como instrumento de conhecimento, hábito de lazer e forma privilegiada de ler o mundo, como também promovendo, de forma programática e permanente, amplo debate nacional a respeito. Não agir dessa forma é desperdiçar tempo, dinheiro e perder o bonde da história. (dtv)



Escrito por Dalila Teles Veras às 22h58
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


Divagações sobre a arte e os motivos da escrita

 

"Vaidade, tudo é vaidade", Salomão, em Eclesiastes

Iniciei este blog sob o signo da poesia e vejo que ao longo do percurso (curto, é certo) acabei por tornar-me um tanto quanto ácida. Tentemos uma guinada de alguns graus a bombordo nesta nau ainda sem rumo definido.

Hoje à tarde, numa conversa entre escritores, falávamos de uma questão aqui levantada, mas que, por distração ou incapacidade criativa desta escriba, não foi levada adiante, ou seja, para que e por que escrevo? Unanimidade: para ser lido. Só? Não! Para ser lido e "enredado". "Escrever é enredar", ou seja, criar "enredos" e "enredar o leitor" no texto, disse um deles, que está a concluir um romance. Já a poeta, diz que escreve para dar uma certa ordem ao caos interior e também pelo desafio de transformar idéias e olhares em palavras com intencionalidade estética e artística. Criar conexões e estabelecer algum grau de cumplicidade com o leitor é também outro tipo de motivação para escrever.

Muitos são os motivos da escrita, inúmeras são as motivações do leitor. O fato é que um texto só estará completo com a respectiva leitura pelo outro. Ninguém escreve para si. Mário de Andrade dixit (provavelmente por inspiração bíblica)se o escritor mostra o que escreve é por vaidade e se não o faz também(dtv)



Escrito por Dalila Teles Veras às 22h36
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


Lixo eletrônico

Alguns dos "subjects" copiados dos emails recebidos hoje :

Atraia a sorte e quem você quiser; Nova opção para sua saúde; Espero que você goste; The perfect gift for her; Ensine seu filho a cuidar do dinheiro; Limpamos CPF e CNPJ em apenas cinco dias; Torpedo para você; Jogos do seu time ao vivo no seu PC;  Viaje no Carnaval; Convite para Profissional; Assista a mais de 1000 canais no PC; Agora ninguém mais viaja sozinho; Terceirização sem fraudar a CLT; Achieve exatly the sise you want; Viagra: save more buyng more; Never agree to be a loser; Vagas para revenda e distribuidor; Receita para um ano feliz; Como ganhar na loteria;  Ano Novo TV nova; new 2009 collection; Aproveite as ofertas.

Respostas lacônicas e mal-humoradas: 

Não acredito; não há opção; não gostei; não gostou; não aprendeu; nunca estiveram sujos; machucou; não torço;  detesto Carnaval;  não tenho profissão; 1000 canais? para quantas vidas? Que pena! Terceirizar já é fraudar; não tenho preferência; não uso; perder faz parte do jogo; comércio não é meu forte; felicidade! ô palavrinha gasta! só perde para esperança!; não acredito em sorte; não assisto TV; não sigo tendências; desconfio de ofertas.

OBS.: Antes que alguém me julgue mal e acredite que já respondo a SPAMs, esclareço que as respostas ficaram apenas nas intenções, resmungadas, de mim para mim, enquanto me entregava à trabalheira diária em mandar para a lixeira eletrônica as centenas deles que entopem diariamente minhas caixas postais (a particular e a profissional), sem contar, nesse ato, o risco em deletar aquilo que é realmente correspondência e interessa. Ossos do ofício... (dtv)

 



Escrito por Dalila Teles Veras às 23h55
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


A desgraça mora ao lado

As enchentes, os mares revoltosos e a ira dos ventos (culpa de el Niño e la Niña) o fogo na floresta (fatalidade - revertida graças à reza dos caiapós) a seca no Nordeste (atenuada pela excelsa generosidade do Sul Maravilha) o desespero e morte nas Filipinas (culpa das forças da natureza) o Palace I e II ruindo em cima de mais de uma centena de famílias, tirando-lhes tudo, inclusive o próprio referencial de vida (um simples erro de cálculo do engenheiro deputado que, condenado, se manda pra Miami, gozar a vida, à maneira daquele Presidente, lembram?) a derrota do futebol na França (culpa do Zagallo) um maníaco matador de mulheres (Freud já explicou) remédios falsos (culpa de um laranja, um coitado qualquer) igrejas evangélicas que desabam e caminhão de romeiros católicos que capota (a ira dos deuses) os pecados aplacados pela axé-missa do padre pop Marcelo (aeróbica a serviço de Cristo), indonésios, albaneses, servos, israelenses, palestinos (a intolerância em nome da fé e do Estado) favelas que ardem (Aluísio Azevedo já tratou disso em O Cortiço, no século passado) Bagdá em chamas sob bombardeio americano e inglês (os poderosos bonzinhos, que num dia assinam acordo de paz e noutro bombardeiam um suposto inimigo, na suposta suspeita de que ele ataque antes). Sempre um bode qualquer a expiar as falhas e as culpas e... tudo bem no ano que vem.

A desgraça mora ao lado, mas, na telinha, todos esses fatos reais, ocorridos em 1998, passados pelas ilhas de edição da maior rede de televisão brasileira, na indefectível retrospectiva de fim de ano, ao lado do especial do Roberto Carlos, ganham ares de espetáculo. O romance da macaquinha nadadora e a volta ao mar da baleia do filme Free Willy, seguidos do boa-noite e do sorriso engomado do apresentador, contribui para amenizar o impacto das cenas catastróficas. O fato concreto e irremediável está, assim, agora ficcionado - não passa de mais uma emoção alheia e distante.

Mas, afinal, como tudo não passa de mero espetáculo, viva eu, viva tu, viva o rabo do tatu que ainda não achamos que nada temos a ver com isso e nem nos demos conta de que a bomba qualquer dia destes pode cair em nosso próprio quintal, sem direito a intervalo para os comerciais.

"Eu não mais queria me definir por oposição a outrem, queria me reconhecer em minhas idéias" Edgar Morin in Meus Demônios

Provocada pelo comentário de Isa, minha assídua leitora (o que muito me honra), lá fui eu aos meus arquivos e, eureka! Aqui vai outra crônica que publiquei em janeiro de 1999, na tentativa de reforçar a minha tese de que o mundo anda igual e previsível (talvez eu um pouco mais). Substituam-se aí alguns nomes, como Bagdá por Faixa de Gaza, Filipinas por Santa Catarina, etc. e teremos os mesmos acontecimentos, lá e cá, como há exatos 10 anos. Não é excesso de ceticismo, mas pura constatação. Há realmente um fato novo com a eleição de Obama, mas a questão é saber se o fato novo será transformado em ações efetivamente novas (lutar contra as forças do poder econômico que tudo dominam não é algo tão simples assim, por melhores que sejam as intenções do lutador - O Brasil que o diga, com seu fato novo que já dura 6 anos e as muitas ações - ou, pior, a falta delas - tão antigas e politicamente viciadas). Ainda assim, ousaria dizer que the dream is not over (data venia Lennon e Bono). Nem o sonho nem a história acabam. Vale a pena ainda sonhar com um mundo melhor e menos previsível e repetitivo (no pior sentido).  . (dtv)



Escrito por Dalila Teles Veras às 21h35
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


Ai, que Preguiça

"Ai, que preguiça!" Mário de Andrade, na voz de Macunaíma 

 

Depois dos balanços concluídos, é ora de enfrentar o novo calendário e refletir sobre as perspectivas na área cultural para o ano que acaba de nascer, já célere.

Nos municípios, trocaram-se as cadeiras, mas além do fato de passarmos a escrever o número 09 nos cheques e outros documentos, em nada foi alterada a rotina de quem trabalha por aqui.

As máquinas estão completamente paradas desde outubro (ou antes?) à espera de seus novos operadores que certamente passarão um bocado de tempo a ler os manuais de operação (quase disse "de sobrevivência").

Anunciado o primeiro escalão, a agitação geral pela disputa do segundo, do terceiro e das assessorias suspeitas, sempre à disposição do chefe, não importa que tipo de credo ou ideologia ele pregue, tampouco a serviço de quem está ele, se de si próprio ou da comunidade que o elegeu para servi-lo.

Ai, que preguiça! diria Macunaíma e desistiria de procurar seu muiraquitã.

No entanto, como diria o poeta, é preciso cantar e animar a cidade e já que alguém tinha que fazê-lo e poucos o quiseram, a tarefa sobrou para aqueles marcados desde sempre pela fatalidade da angústia do fazer e do criar. E tudo (ainda e sempre) está para ser feito na área da cultura e adjacências. E tudo é muito desgastante e inglório quando não se aspira à glória do favor. E tudo é muito complexo em qualquer atividade que envolva seres humanos, além de ser também política, sem mencionar o detalhe de que, administrar egos artísticos e projetos pessoais impossíveis é tarefa para todos os seguidores de Lacan pensarem juntos.

Aguardo, assim como tantos, os primeiros acordes da banda para conferir a viabilidade de tocar(mos) livremente o meu(nosso) instrumento.

EM TEMPO: Hoje, a “preguiça” do título é um sentimento verdadeiro, mas a crônica é falsa. Na verdade, retirando alguns parágrafos “datados”, esta minha crônica foi publicada no Diário do Grande ABC em 8.1.97, na coluna Viaverbo que semanalmente assinei de 95 a 99. Doze anos depois, nesse domingo modorrento, achei por bem republicá-la, neste outro suporte, pelo fato de vivermos um momento exatamente igual. O mundo está muito previsível e repetitivo. Eu também.  Boa semana a todos. (dtv) 



Escrito por Dalila Teles Veras às 22h27
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


Mutante metrópole

 "Todos os nomes eles vão alterando. São Romão todo não se chamou de primeiro Vila Risonha? (...) como é que podem remover uns nomes assim? O senhor concorda? Nome de lugar onde alguém já nasceu, devia de estar sagrado." Guimarães Rosa, na voz poderosa de Riobaldo Tatarana

Os mapas físicos das grandes cidades são espantosamente mutantes. Não me arrisco mais, ao indicar algum tipo de lugar, valer-me de referências como estas: depois da casa amarela, vire à esquerda; dois semáforos adiante, em frente ao Posto de Gasolina da Petrobrás, vire à direita em frente ao Bar Piauí...  Esqueça! Amanhã, a casa mudará de cor e sequer há qualquer garantia de que ainda esteja no mesmo lugar; o posto estará sob nova bandeira e o bar transformado em Pet Shop. A própria rua, quem sabe, também terá mudado de nome.

Hoje reparei que o imóvel onde funcionou por muitos anos a já saudosa confeitaria Ofner, na Avenida Portugal, em breve abrigará mais uma franquia dessas redes de fast-food, com suas fachadas tão pasteurizadas quanto o gosto de seus sanduíches.

Aos vorazes consumidores que de lá saírem com a sensação de culpa pela ingestão de calorias e colesterol em excesso, desde já um convite é feito por um desses estabelecimentos de promessas milagrosas (sim, as promessas de milagres saíram dos livros de auto-ajuda para o comércio, a indústria, a farmacologia), instalado do outro lado da rua, através de um faixa com letras garrafais: Conheça o verdadeiro devorador de gorduras. Para amenizar o impacto publicitário, outra faixa numa parede ao lado, em letras menores: Cuidando de você com carinho.

Assim acarinhada, a culpa soará menos culposa ou, no mínimo, valendo como tentativa de remediar aquilo que irremediável já está.  (dtv)



Escrito por Dalila Teles Veras às 21h34
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


Ainda sobre a arte de conjugar o verbo ler

Meu amigo Antonio Fernandes Neto, jornalista brilhante, costumava dizer aos seus alunos que "se um cachorro morder uma pessoa não é notícia, mas se uma pessoa morder um cachorro, é manchete para a primeira página".

Lembrei-me disso agora há pouco, quando, alertada por Luzia Maninha (só ligo a TV quando há uma recomendação segura), assisti ao programa Provocação, comandado por Antonio Abujamra na TV Cultura, diga-se, sempre uma indicação respeitável. A chamada do programa: "um ascensorista que lê Dostoievski". O entrevistado, com o devido respeito, nem me pareceu ser o leitor que imaginei, pelo fato de merecer um programa só para si. Começou a ler como uma alternativa à monotonia da profissão ("por recomendação de um professor") e tomou gosto pela coisa. O fato ilustra bem o atual panorama da leitura em nosso país. Aquilo que deveria ser uma regra, tornou-se uma exceção. Um homem comum que lê obras que toda pessoa minimamente escolarizada deveria ler, é galgado à posição de uma espécie de extra-terrestre, algo de extraordinário que merece um destaque desses na mídia televisiva. A citação de meu amigo jornalista cabe como uma luva neste caso.

Tristes trópicos tristes, triste destino o de um país de não-leitores, um país que demonstra, entre outras tristezas (decepção...), sofrer de azia após a "ingestão" de qualquer espécie de leitura. (dtv)



Escrito por Dalila Teles Veras às 23h30
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


Da difícil arte de comercializar livros usados

Atendi ao chamado do Sr. H. que deseja vender sua biblioteca. Fui. Atendeu-me pessoalmente o Sr. H., um homem alto, magro, falante, aparentando certa idade.  Ao que tudo indica, mora só, num sobrado com ares decadentes. Paredes com a tinta a descascar, muitas folhas no chão. No que seria a garagem da casa, ao que parece desativada e com ares de abandono, há uma mesa grande (dessas de jogar tênis de mesa) cheia de livros agrupados em pequenas pilhas. Na parede dos fundos (úmida) uma estante repleta deles  das quais ele vai retirando um volume aqui outro acolá: "aqui são os de acupuntura, aqui os de homeopatia  - mandei buscar este na Espanha, este outro é da Itália -". Pergunto-lhe qual é sua profissão. - "Médico, especializado em homeopatia, desde os anos 50, quando a homeopatia era encarada como charlatanice." O sr. H. aprecia também história das religiões, como também demonstra particular interesse pela cabala hebraica e outras ciências ocultas (há ali vários títulos de Madame Blavastski). Tira mais um volume, lê um trecho do mesmo e comenta como de si para si: - isto é muito bom, muito bom mesmo! Porque deseja vender seus livros? pergunto. - "Porque não me interessam mais...". Há, no entanto, um tom triste e indeciso na sua voz. Volto às perguntas: quantos anos tem? - 88 anos. E vai falando apaixonadamente da homeopatia, das ciências orientais, do homem como um todo. Pergunto-lhe se não sente vontade de voltar a clinicar.  - "Não, eu agora é que preciso de cuidados". Começam as confissões: Casou 3 vezes (enviuvou 2 vezes, ambas as mulheres morreram muito jovens e lhe deixaram filhos ainda bebês) e vai mostrando os livros (e a vida). Pondero que os seus livros estão mal conservados e, pior, muito sublinhados e isso representa uma dificuldade para comercialização. Ele me responde: - "São meus, risco mesmo, tanto quanto me apetece riscar. Há amigos meus que até gostam, dizem que não precisam ler o livro inteiro, só o que está sublinhado por mim". Rimos. Depois de mais de uma hora de conversa, começo a separar os volumes que eventualmente possam me interessar. Ele: - "Não, não... esse ainda não dá para vender, preciso mostrar para meus amigos que talvez se interessem, esse outro também não." Mas, afinal, o senhor quer vender os livros ou não? Ele não responde. É nessa altura que o sr. H. me convida a subir para uma espécie de mezanino que construiu em cima da garagem. Lá, tudo muito empoeirado, há outras estantes, estas com os livros mais arrumados. Ele: - "Estes quero que ainda fiquem comigo..."

Bem, disse eu, quando o senhor decidir quais os volumes que realmente deseja vender  é só me avisar que voltarei... Não avisará (nem eu quero - saí aliviada). Vi o arrependimento em seu semblante. A vida ali, naqueles volumes contida. Como desapegar-se dela? A vida a esvair-se e o apego àquilo que já foi. Ali, a vontade expressa, à maneira de Dorian Gray, de que os livros envelheçam no seu lugar... que se vão e ele... ainda não....

Difícil profissão esta. Por vezes, a proximidade com cadáveres adiados... Por outras, o espólio dos que já se foram e deixaram ali as marcas daquilo que foram. (dtv)



Escrito por Dalila Teles Veras às 22h42
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


Difícil conciliação

Impossível ser poeta e mercador” William Shakespeare (in A Tempestade)

Em dias de precisar reunir notas fiscais, arquivar documentos e, sobretudo, contabilizar prejuízos é que me dou conta de minha falta total de pendores empresariais e muito menos comerciais. O sintoma invariável é sempre um mau-humor dos diabos. Hoje foi um desses dias, com o sumiço de duas notas fiscais, como agravante. Mas afinal, o que é o Alpharrabio, juridicamente falando, senão uma casa comercial? perguntaria meu eventual interlocutor. Pois é, juridicamente falando... E aí reside a tragédia. Quem mandou registrar  algo que não nasceu com vocação mercantil como uma casa comercial? Não seria mais fácil dirigir uma ONG (Organização não governamental) ou coisa que o valha? (mas também isso implica em (argh!) burocracia...) Como conciliar as lides da cultura com montanhas de notas a pagar com siglas antipáticas e escaldantes: IPTU, FGTS, INSS, DARF, IMPOSTO SINDICAL, ELETROPAULO, TELEFÔNICA, NET, AJATO, SIMPLES (sim, simples, é como denominam um imposto que veio substituir sei lá qual outro? pura enganação!)?

Valho-me, uma vez mais, dos meus velhos companheiros para não sucumbir. No meu Caderno de Apropriações encontro algo que me convém a este momento: “Separar da vida tudo o que for realmente negócio! Os negócios exigem seriedade e a rigor, a vida, arbítrio; os negócios, a mais pura coerência, a vida necessita muitas vezes de uma inconseqüência, algo até mesmo desejável e divertido”. Não estou sozinha, jamais estarei enquanto Eles, os mestres e companheiros, estiverem por perto. A propósito: quem disse isso foi Goethe com quem devo concordar, afinal, o sujeito sabia das coisas... (dtv) 



Escrito por Dalila Teles Veras às 22h45
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


A arte de conjugar o verbo ler

"A leitura é a mais civilizada das paixões. Mesmo quando registra atos de barbarismo, sua história é uma celebração da alegria e da liberdade" Alberto Manguel

Alberto Manguel é um dos autores contemporâneos de minha predileção. Um escritor fruto de suas leituras. Simplesmente escreve sobre livros e, certamente, os seus leitores viciados leitores são. Leitor voraz e muito, muito criativo, conjuga o ver ler em todos os tempos e de várias maneiras, repassando o resultado dessas transformações criativas para seus leitores, outros leitores. Exemplo notável é o Dicionário de Lugares Imaginários (em parceria com Gianni Guadalupi - Cia. das Letras, 2003). Simplesmente um guia para o viajante literário, com os lugares imaginários da literatura transformados em verbetes. Vejamos este: "MARAVILHAS, país das. Reino sob a Inglaterra, habitado por um baralho e algumas outras criaturas. O acesso se faz através de um buraco de coelho, possivelmente localizado às margens do Tâmisa, ente Folly Bridge e Godstow, em Oxford" e por aí vai, incluindo, como um bom guia de viagem, mapas e ilustrações. Escolhi este verbete pelo fato de que Alice no País das Maravilhas foi o livro que Manguel diz ter sido sua primeira leitura, aos 8 ou 9 anos e que, mais tarde, em forma de homenagem, talvez, a ele  se remeteria: No Bosque do Espelho (Cia. Das Letras, 2000), valendo-se desse rito de iniciação para discorrer sobre tantas outras obras.

 A primeira obra que li desse extraordinário  leitor/escritor argentino que, inclusive, ostenta em seu currículo a privilegiada função de leitor de um outro grande argentino leitor/escritor que já não podia ler, Jorge Luis Borges, foi Uma História da Leitura (Cia. Das Letras, 1997), livro que me deixou para sempre cativa de sua inclassificável obra (diário, crônica, ensaio?). Não mais deixei de adquirir tudo que dele foi publicado no Brasil, como a Biblioteca à noite (Cia. Das Letras, 2006), sobre a deliciosa aventura de tentar organizar sua biblioteca espalhada por países onde viveu (Canadá, França, Argentina); Os Livros e os Dias - um ano de leituras prazerosas (Cia. Das Letras, 2005), uma espécie de diário de leituras, ou melhor, de releituras, uma vez que escolheu ler um romance a cada mês, comenta-lo e relatar as circunstâncias em foi lido (o clima, as refeições, enfim...).

Tudo isto só porque tentava eu arrumar alguns livros que despencaram da minha prateleira de livros sobre livros e caiu-me nas mãos justamente aqueles que seriam o assunto deste dia. (dtv)

 



Escrito por Dalila Teles Veras às 23h57
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


Heranças

 

"A poesia e a cozinha são irmãs" - Eça de Queiroz

Costumo dizer que o sincretismo cultural em minha casa se dá a partir da prática gastronômica luso-piauiense. Não é segredo, para aqueles que me conhecem na intimidade, o meu gosto pela gastronomia. Devo logo esclarecer que não se trata dessa nova gastronomia que é pautada na pura experimentação de produtos pelo exotismo, praticada por esses belos e atléticos jovens recém-saídos dos mais afamados cursos Suíça/Paris que frequentemente habitam as colunas sociais (provavelmente pelo duplo visual - dos pratos, mais preocupados com conceitos do que propriamente com o sabor, e o da própria estampa). Sim, a apresentação de um prato é uma questão fundamental, mas isso não significa que são necessários pendores ou técnicas de artes visuais e escultóricas para trazer um belo prato à mesa. Às vezes um simples raminho de salsa e uma certa disposição dos alimentos já são mais do que suficientes.

Gosto de praticar alquimias culinárias a partir de coisas simples e mais antigas, que me foram transmitidas pelos laços do afeto. Cozinhar para os entes queridos é um ato de afeto. Transmitir-lhes ancestralidades também.

É assim que às vésperas do Natal, fui para a cozinha preparar o já tradicional bacalhau às lascas e a salada de grão-de-bico que aprendi com minha mãe, esperando que minhas filhas venham também comemorar essa data com esses e outros pratos, celebrando igualmente a memória afetiva e ancestral.

Hoje, secretária doméstica em férias, fui para a cozinha preparar um almoço para 8 pessoas. Ao picar a carne de sol para o arroz "maria isabel", assar a lingüiça de pernil e preparar a farofa (ingredientes autênticos das terras do poeta Da Costa e Silva que nos são amorosamente enviados por seres dotados de supreendentes delicadezas perpetuando a memória da matriarca -  gestos em extinção em nosso tão embrutecido tempo), senti a presença da outra mãe, a de adoção pela afinidade eletiva, a doce Sinhorinha, que não mais está entre nós, mas que nos deixou o poderoso legado do sabor. Heranças... da memória, do afeto e do sabor (dtv)

 



Escrito por Dalila Teles Veras às 22h53
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


Contradições intelectuais

Passei o dia a bisbilhotar um interessantíssimo diálogo (Um Concerto em tom de conversa - Editora UFMG, 2007) entre dois monstros sagrados das artes lusas: Manoel de Oliveira, o cineasta e Agustina Bessa-Luís, a escritora.

Admirador confesso da obra de Agustina, o mais idoso cineasta do mundo em atividade (100 anos) assim fala de Agustina: "Tenho por genial a escrita aparentemente desarrumada da Agustina, uma escrita subterrânea, direi mesmo, vulcânica". Assim fala de Manoel a detentora do Prêmio Camões 2004: "é um visionário. O seu lado obscuro desconcerta. O seu lado grave converte-se em humor para não ser apercebido". Apesar da admiração mútua discordam em muitas questões: Manoel é apaixonado pela música, Agustina diz que a música a incomoda. Manoel ama a poesia e os poetas, Agustina confessa não gostar de ler poesia (mas, contraditória,logo a seguir se diz admiradora de José Régio, tanto quanto Manoel o é, bem como lembra-se de um verso do poeta brasileiro Catulo da Paixão Cearense). Manoel defende a sinceridade como o que de mais original há no artista, Agustina concorda, mas acredita que essa sinceridade também não deve ser demasiado evidente: "a mim, consideram-me uma escritora cruel! (...) Afinal, pode-se ser verdadeiro sem se ser perverso? Pergunta ela. Contradições intelectuais, como se vê.

O que não se pode deixar de notar é a forte presença da literatura na obra de Manoel, sua paixão declarada:  "literatura é a mãe de todas as artes. Ela pode descrever por completo qualquer das Belas-Artes, nenhuma destas, porém, o pode fazer em relação à literatura, senão simbolizando-a, ou figurar dela certas parcelas, jamais o todo."

Há dias vi em DVD (raramente seus filmes são vistos por aqui em circuito comercial - exceção a Um Filme Falado, um sucesso de público) O Princípio da Incerteza (assim como Vale Abraão, Espelho Mágico e outros, este também foi baseado num romance de Agustina) e, uma vez mais, fiquei convencida de que, ainda que o negue, Manoel faz do cinema também palavra. Seus filmes são livros que podem ser vistos. (dtv)



Escrito por Dalila Teles Veras às 22h30
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


Caderno praiano do voyeur

No encerramento de minha temporada voyeurística praiana, anoto duas pérolas. Uma recolhida dos céus e outra da areia:

- POR ONDE PASSA RESOLVE - Governo do Estado de São Paulo  / SABESP

A frase acima circulou toda a manhã como publicidade aérea naqueles aviõezinhos que costumam sobrevoar as praias com publicidade de protetor solar e outros produtos de verão. No mínimo, uma indecência de um governo que NÃO RESOLVEU e certamente NÃO RESOLVERÁ os problemas cruciais deste estado/país e ainda usa nosso dinheiro para mentir descaradamente, substimando e ultrajando a inteligência dos contribuintes. Se há dinheiro de sobra nos cofres do governo e da Sabesp (o tal senhor anunciou que "congelará" não sei quantos bilhões do orçamento de 2009 "para enfrentar a crise") melhor usá-lo numa campanha de economia de água ou coisa do gênero.  

- RONALDO, AGORA QUE TU FOI PARA O CORINTHIANS, TU VIROU MACHO?

Frase ouvida de um vendedor ambulante de picolés que brinda seus clientes com performances hilariantes. Desta feita, sacou de um celular e em alto e bom tom, simulou uma conversa com o atacante Ronaldo Fenômeno, aludindo ao episódio que envolveu o jogador com travestis.

Teatro (ópera bufa um, popular outro) ao ar livre e de graça. São coisas de verão... (dtv)



Escrito por Dalila Teles Veras às 19h39
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


Personagens praianas

Assim como as águas oceânicas, a paisagem praiana nunca é a mesma. Forasteiros parecem todos. Bares e restaurantes, na sua maioria, duram uma temporada. Os veranistas não possuem rosto, apenas estômago. Come-se, come-se. Bebe-se, bebe-se. Geladeiras portáteis concorrem com vendedores ambulantes. Restaurantes com as cozinhas caseiras. Supermercados com porta-malas abarrotados com mercadorias adquiridas no planalto.

Em meio a tantos rostos anônimos, meu olhar identifica alguns. Pessoas de quem não sei o nome, mas me são familiares. São os velhinhos (e velhinhas) do Guarujá.  Estão sempre por aqui, em todas as estações, andando à beira-mar, pele amarronzada pela contínua exposição ao sol, a marca da roupa de banho no corpo, como tatuagem. Assusto-me ao revê-los a cada temporada  (alguns deles, que costumavam caminhar aos pares, agora caminham sozinhos, outros acrescentaram ao visual uma bengala, outros ainda estão mais lentos e alquebrados), esquecendo-me que devem pensar o mesmo de mim (Narciso acha velho tudo que não é espelho). Somos íntimos e identificamo-nos em rugas, anos e certeza de finitude. Por isso caminhamos impávidos ao lado de músculos exacerbados, seios siliconados e bundas arrogantes em sua certeza de eternidade. (dtv)



Escrito por Dalila Teles Veras às 22h53
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


Havia uma barraca no meio do caminho

Desde que cheguei ao mar, navego ao sabor do dolce far niente, observo e perscruto os arredores. Desde minha ventana marina, como a chamou Margarita, a querida amiga argentina, foco minhas lentes nos seres desnudos que, sem as vestes impostas pela sociedade, pelas respectivas profissões ou pela moda, igualam-se em suas singularidades. Destituídos de falsos paramentos, aqui, são corpos apenas e, como tais, assim se expressam. Corpos emoldurando a paisagem: baixos, altos, magros, obesos, musculosos, esquálidos, jovens, velhos, lépidos ou vagarosos, corpos lambidos pelo sol, lambuzados de sal e despreocupações.

 

Em meio à paisagem de corpos coloridos e guarda-sóis desbotados, uma pequena barraca desvia os passantes. Indiferente ao footing praiano, uma jovem mulher ali instalada, dobra calmamente roupas, arruma coisas. Pelos objetos ao redor, uma rede à porta, a moradora pernoitou por aqui. Esta hippie do Século XXI, ao contrário de seus antecessores que buscavam praias desertas e sociedades alternativas, afronta o passar burguês e impõe uma alternativa aos arranha-céus. Ardendo em curiosidade, parei à porta da morada durante alguns minutos, como não percebi qualquer esboço de boas vindas, segui meu caminho, imaginando qual teria sido o diálogo. (dtv)



Escrito por Dalila Teles Veras às 23h53
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


Mudança de rumo e de ares

 

Exilada na minha segunda casa, na ilha que não parece ilha de tão próxima ao continente, sou cada vez mais insular, por nascença e adoção - fado.

Em meio aos arranha-céus, minha janela marítima abre-se numa nesga para o mar, quadro vivo, no qual um navio pesqueiro veio há pouco se instalar e ali permanece em sua função prática e ilustração involuntária.

Aqui apenas contemplo e divago. As reflexões de ontem são, hoje, tão vagas como vagas são essas verdes ondas que minha janela marítima deixa divisar. Contrariando a praxe de só utilizar a caneta no exílio voluntário, desta vez veio comigo o companheiro Funes (el memorioso), prodigioso armazenador de textos, unicamente para que me auxilie a cumprir a promessa do blogar diário. Rendo-me, assim, à tecnologia importada lá do vale do silício e contamino o refúgio com fios e telinha luminosa. A reflexão sobre para que/quem escrevemos fica para outra hora mais grave do que esta, contaminada pela maresia e o descanso mental. (dtv)



Escrito por Dalila Teles Veras às 23h14
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


Diários

Escrever diários não representa algo novo para mim. Desde sempre os pratiquei, em especial os de viagem, sempre manuscritos. De forma mais disciplinada, a primeira vez foi em 1999, num desafio proposto a um grupo frequentador da Livraria Alpharrabio pelo escritor Antonio Possidonio Sampaio. A regra era diarizar o último ano do milênio (para alguns o último teria sido o 2000, mas... isso não vem ao caso) utilizando como pano de fundo a região do Grande ABC (São Paulo), sem descuidar do tratamento literário. Do grupo que topou a parada (20 pessoas), cerca de uma dezena concluiu a tarefa.  Cinco desses dez diários foram publicados em livro em 2000, na coleção Imaginário, da Alpharrabio Edições (Na Trilha do Trem, de Valdecirio Teles Veras, O ABC no fim do milênio, de Antonio Possidonio Sampaio; Além da Prosaica realidade, de Alexandre Takara; Idos e Vividos (a cota diária do meu samburá), de Marília Magalhães Pedrosa) e Minudências, de Dalila Teles Veras). Devo confessar que ainda tenho esperanças em ver, pelo menos, mais três títulos publicados nessa coleção. Tarso de Melo assim se manifestou a respeito (leia na íntegra em: http://www.alpharrabio.com.br/abc7.htm :

" (...) As características da vida urbana desvendadas por esses autores lograram, ao final, dar a dimensão precisa do que ocorreu no desfecho do século/milênio num lugar antes marcado por servir de sede da esquerda operária nacional e de berço do sindicalismo e que - pelos contrastes de um momento histórico de crise generalizada - reproduz fielmente, à face já pós-industrial, todos os lugares do planeta atingidos pela nova mercantilização. E, também, deixaram perceber que suas vidas são a vida de todo mundo. (...)" No ano seguinte, 2000, uma idéia semelhante foi levada a cabo na Europa, um grupo de cem escritores embarcou num trem em Lisboa e seguiu até Berlim, cruzando cidades como Madrid, Paris, Bruxelas e Moscou, durante 44 dias (de 4 de junho a 16 de julho de 2000), com o intuito de averiguar uma nova identidade européia (genuinamente internacional), rastrear novas linguagens, entender o que unifica e divide seus países. Sem o saber, saímos na frente. 

Também, por 5 anos, pratiquei semanalmente a crônica, em jornal impresso (Diário do Grande ABC). A crônica é uma espécie de diário ambíguo, gênero que mistura gêneros sem o menor pudor, ora meramente jornalística, opinativa, ora prosa poética, por vezes, até, quase-conto. A liberdade é total e propicia ao autor um formidável aprendizado de disciplina, pois é preciso que o texto se encaixe em um determinado número de caracteres e seja entregue em tempo determinado.  

Ficou-me dessas experiências o hábito e a disciplina. Em 2000 escrevi simultâneamente dois diários, um escrito intencionalmente para ser publicado, mas que, por razões que não sei detectar, permanece inédito, ainda sem título definitivo e um outro, para meu uso próprio, sem quaisquer preocupações literárias, apenas para reter a memória dos dias que passam, já que na velocidade do terceiro milênio, a memória possível é a da escrita. Desde então, não mais deixei de registrar o meu cotidiano, o da "vida lá fora", os embates com a urbe, os sustos, as perplexidades, as constatações (o diário íntimo é coisa que nunca me interessou, pois a memória da intimidade está gravada a sangue e a ninguém mais interessa - a não ser recriada, já outra coisa, literatura).

Acontece que a tarefa que ora me proponho me parece um tanto quanto insana. Há muita diferença em escrever um diário para publicação futura, em papel, com tempo para "ajustes" e "correções" (o que, por si só, é já também muito diferente do texto manuscrito, que não apresenta nenhuma possibilidade de alteração posterior), e o diário virtual, para publicação imediata. Andei a pensar nisso em todos estes primeiros 6 dias de 2009, dez anos depois da experiência com o Minudências, e a pergunta que me fazia à época voltou com mais intensidade: para que/quem escrevemos? A quem são dirigidos os blogs, os diários do século XXI? Amanhã escreverei sobre essas reflexões. (dtv)



Escrito por Dalila Teles Veras às 22h13
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


um dia não vivido

 

Há dias que não são exatamente vividos. Passam, simplesmente, por nós. Este foi um deles. Não retive um cheiro, uma cor, um momento vívido que pudesse ser transformado e aqui registrado para (algum) proveito do eventual leitor. Aqui estou, portanto, de mãos vazias, apenas para cumprir a promessa de "nem um só dia sem uma linha".

E.T.:  Truque costumeiro de cronista sem assunto, sabe-se, é elaborar uma crônica justamente sobre a falta de assunto. Prometo que evitarei usar esse tal truque de ora em diante. Lembrando o mestre Bandeira, perdoem pois não pude ser outra coisa (hoje, apenas hoje - amanhã serei outra). dtv



Escrito por Dalila Teles Veras às 22h16
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


O prazer (e os perigos) de reler

 

Acabo de reler Vidas Secas, numa edição comemorativa dos seus 70 anos, com impactantes fotografias de Evandro Teixeira, volume de capa dura (Grupo Editorial Record, 2008), um presente que ofertei a mim mesma pelo Natal.

Quando mais jovem, imaginei que uma pessoa de minha idade já se poderia dar ao luxo de apenas reler. Não tem sido assim. Raramente releio. Primeiro porque há sempre o que ler na pilha à espera: novos e antigos que deixei para trás. Por descuido, por falta de tempo, por não saber, por ter chegado a eles por caminhos tortos. Segundo, por medo. Reler é sempre uma empreitada arriscada. Livros que nos marcaram na infância ou juventude podem se transformar em verdadeiras decepções na maturidade e vice-versa (peço a quem já teve a paciência para ler o manual do novo acordo ortográfico, que me faça o favor de dizer se esse hífen permanece), como já por diversas vezes me ocorreu.  

Neste caso, a motivação deu-se por diversos fatores: pela empolgação da celebração dos 70 anos da obra, pelo impacto das imagens de Teixeira (imagens sobre imagens, as do olhar sobre as da escrita) e porque já havia lido o texto pelo menos umas 3 vezes e a cada vez deu-se uma sensação de maravilhamento. Este é um dos casos em que a maturidade detecta minúcias textuais que a juventude (ao menos a minha), via de regra, deixa escapar.

O velho Graça, diferentemente de toda a sua geração de "regionalistas", consegue ir muito além dos seus contemporâneos e cria uma obra (estilo?) que ainda hoje, quase um século depois, merece ser apreciada não só por leitores exigentes, mas principalmente por quem quer que se considere escritor, como prazer de fruição e lição de casa. 50 anos antes de Calvino pronunciar em Harvard suas conferências como propostas norteadoras para a literatura do futuro, postumamente enfeixadas no volume Seis Propostas para o Próximo Milênio (Leveza, Rapidez, Exatidão, Visibilidade e Multiplicidade), publicado no Brasil em 1990 pela Cia. Das Letras, já Graciliano as praticava em seus romances. Senão vejamos: Leveza ("Retirar peso, sobretudo à estrutura da narrativa e à linguagem");  Rapidez ("a rapidez e a concisão do estilo agradam porque apresentam à alma uma turba de idéias simultâneas"); Exatidão ("a linguagem das coisas"); Visibilidade ("que parte da palavra para chegar à imagem"); Multiplicidade ("a literatura só pode viver se se propõe a objetivos desmesurados, até mesmo para além de suas possibilidades de realização.Só se poetas e escritores se lançarem a empresas que ninguém mais ousaria imaginar é que a literatura continuará a ter uma função"). Eis aí, portanto, um moderno que já nasceu clássico, sem qualquer sombra de dúvida. 

Em tempo, um reparo: o projeto gráfico do citado volume não consegue uma unidade entre texto, capa e imagem, ou seja, o papel da capa dialoga muito bem com o contéudo (um craft áspero e rude que logo remete à aridez do solo pisado por Fabiano e sua desafortunada família sertaneja). Já o couché do miolo, ainda que adequado às reproduções fotográficas de Jardim, não funciona bem nas páginas impressas com o texto, não "combina com o texto" e nem com a proposta da capa e cria dificuldades na leitura. "Escorregões"  que não invalidam o objeto gráfico.  (dtv)

 



Escrito por Dalila Teles Veras às 23h37
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


Visita

 

Fiz uma visita a Saramago. Não, não... não se trata de uma "visita a seus livros", coisa que faço costumeiramente, mas uma visita real. Encontrei-me com ele hoje à tarde. Mostrou-me fotos, manuscritos, cartas, originais, seu local de trabalho, sua amada e fiel guardiã Pilar, enfim, toda sua trajetória de escritor, só reconhecido na maturidade e que passou a viver de literatura após seu 18º livro. Reafirmou suas convicções políticas e sociais, seus ideais humanitários. Um intelectual  brilhante (formado nos bancos de suas próprias leituras), desde sempre inconformado e coerente com seus ideais: "Ser escritor não é apenas escrever livros, é muito mais uma atitude perante a vida, uma exigência de uma intervenção". Assim, jamais aceitou "amarras" e pagou, muitas vezes, preços altos por isso. O Conselho da Revolução que tanto defendeu passou a classificá-lo como um "contra-revolucionário" e, posteriormente, o seu país chegou, em plena Democracia, a censurá-lo (impedindo-o de concorrer a um importante prêmio nacional) com a infame justificativa de que teria "ferido preceitos do Catolicismo" ou coisa que o valha. A mea culpa viria com a consagração do Nobel, único (por enquanto) em língua portuguesa (ninguém é profeta em sua própria terra, sabe-se).  Passei, após esta visita, a admirar ainda e mais profundamente esse excepcional escritor que ousa colocar suas idéias em seus romances, sem jamais resvalar no panfleto. Antes, vai fundo na pesquisa formal e no uso da linguagem, distanciando-se cada vez mais da linearidade narrativa. Assim, ouvi-o dizer: "um escritor não tem o direito de rebaixar o seu trabalho em nome de uma suposta acessibilidade" (...) "fácil seria apostar na preguiça do leitor". Os seus leitores bem o sabem.  

Após duas horas e quarenta e cinco minutos de "conversas" deixei-o a compartilhar o seu saber e a sua criatividade com outros visitantes. Ele permanecerá lá, no Instituto Tomie Ohtake, em Sampa, até 15 de fevereiro, recebendo seus admiradores. Não perca. "A consistência dos sonhos" é uma exposição arrebatadora, com uma concepção multimídia que se vale de vários recursos visuais, audiovisuais, entre outros, para mostrar a vida e a obra desse grande escritor português, mestre da nossa língua.  De minha parte, continuarei a conversa noite adentro,  através do livro de Fernando Gómez Aguilera (o Curador da Mostra, itinerante, inaugurada em novembro de 2007, em Lanzarote, na Fundação César Manrique, instituição responsável pela sua produção, e que também já foi exibida no Palácio da Ajuda, em Lisboa, em abril de 2008) publicado pela Editorial Caminho.  (dtv)  



Escrito por Dalila Teles Veras às 23h42
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


Sina e dicionários

Ao inaugurar este blog, assumi comigo mesma um compromisso, aquele da máxima latina: Nulla dies sine linea (*). Eis-me aqui, cumprindo a sina. 

(*) Nulla dies sine linea - Nem um só dia sem uma linha - Expressão atribuída por Plínio (História Natural 33-36) a Apeles, que não passava um só dia sem traçar uma linha, isto é, sem pintar. Aplica-se, especialmente, aos escritores. (Dicionário Prático Ilustrado - Lello & Irmão - Editores, Porto, 1966). 

 A propósito, os velhos dicionários (em papel) sempre utéis (ao menos para mim) me socorrem em momentos de dúvidas cruciais e são, é preciso que se diga, imbatíveis no quesito "confiabilidade". Tenho-os sempre à mão, numa prateleira ao lado da escrivaninha. O velho Aurélio (num volume encadernado em couro por esta escriba na sua primeira aventura no setor de encadernação) ainda é o meu preferido, o campeão de consultas. O Houaiss vem logo a seguir (não menos confiável, mas menos consultado pelo desconforto do peso do volume). Há também o "confiabilíssimo" Caldas Aulete, em 5 volumes e, entre muitos outros, o imprescindível Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, de Antenor Nascentes.  O "lellinho", em três volumes (de onde foi retirada a frase latina), acompanha-me desde os anos 60. Já sobreviveu a algumas reformas ortográficas e sobreviverá certamente a outras. São verdadeiros companheiros (ainda) insubstituíveis para quem muito erra. (dtv)



Escrito por Dalila Teles Veras às 22h03
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


O novo e o velho

Iniciemos o novo ano com alguma poesia (quase) nova:

O neto e o avô

Lentos, seguem
os pequeninos pés
dos grandes pés ao lado

Inseguros e próximos
em seu início o primeiro
o outro no seu final
 
Sabem-se (?), ambos, reféns
da implacável marcha e
(des)cuidados alheios

 

                (poema inédito de dtv)



Escrito por Dalila Teles Veras às 18h48
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


Janela-observatório

Neste romper de 2009, posto-me à janela e nela pretendo permanecer.

Janela-observatório:

- da vida lá fora (a comunidade, o ativismo cultural e o que mais houver - olhares - agudos ou de soslaio sobre políticas e poéticas)

- da vida cá dentro (o silêncio, a reflexão, a leitura - anotações).


Inicio a trajetória, levando como guia O Poeta maior:

(...)
"Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre."


Tentarei, Poeta, tentarei...

Para tanto, conto, desde já, com eventuais cúmplices nesta árdua função de observar. Interações, sugestões, colaborações serão muitíssimo bem vindas.


dalila teles veras



Escrito por Dalila Teles Veras às 00h23
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]
 
Histórico


Votação
Dê uma nota para
meu blog



Outros sites
 Dalila Teles Veras
 Alpharrabio Blog
 Alpharrabio Livraria
 Constança Lucas
 Andanças com Salvador Bahia - Blog de Antonio Possidonio Sampaio
 Filosofia Menor - Marcos Euzebio
 Fósforo - Daniel Brazil
 Livraria Canto do Livro
 Um Fernando Pessoa
 Poema Visual - Hugo Pontes
 Luiz Alberto Machado
 José Saramago - Blog
 André Miranda (gravuras) blog
 Poeta Eunice Arruda
 Revista A Cigarra - Jurema B.Souza
 Alguma Poesia - Carlos Machado
 Sanyasa - blog de Patricia Augusta Corrêa
 Cartas de Amor - blog de Penélope Martins
 Retábulo de Jerônimo Bosch - blog de Everardo Norões
 Pedro Martinelli (fotógrafo) - blog
 Espaço Llansol - notícias sobre a obra de Gabriela Llansol
 Leitura - Instituto Pró-Livro
 Papel Fere Pedra - Ciclo de Estudos da Dramaturgia Contemporânea, FAINC
 Cantinho da Madeira - blog sobre história e cultura da Ilha da Madeira
 O lugar escrito - blog do Fórum de Debates
 Revista Lusofonia - blog dos países de língua portuguesa
 Blog de Homero Fonseca
 Casa Fernando Pessoa
 Blog da Casa Fernando Pessoa
 Arte Postal Livros
 Letras&Leituras
 Projeto Portátil - Blog de Elaine Bombicini