À Janela dos Dias


Poetas em cartaz

Não é sempre que se pode dizer que a poesia (e os poetas) está em alta. Pois, neste momento, está. Na cidade de São Paulo é possível visitar duas mostras que abordam universos poéticos díspares, mas instigantes ambos.

A primeira delas Ocupação Paulo Leminski: Vinte Anos em Outras Esferas, encontra-se no Instituto Itaú Cultural, na Av. Paulista.

 

(fotos Luzia Maninha)

 

É gratificante ver um poeta contemporâneo que, historicamente, ainda não teve o tempo de “decantação” via de regra necessário a esse tipo de merecimento, receber tão surpreendente tratamento, poucas vezes visto nestes casos.

Além de poeta, contista, biógrafo, compositor, tradutor (trouxe para o nosso idioma obras do inglês, japonês, francês, latim e espanhol), PL desempenhou igualmente outras aparentemente irreconciliáveis atividades, como judô e zen-budismo. Esse monge iniciante foi também publicitário de profissão, professor de história e de redação.  Toda essa multiplicidade, aliada à ferocidade com que consumiu de forma sempre irreverente e intensa seus breves 44 anos, acabou fazendo dele um personagem mítico.

 

 

(poesia nos banheiros - com dignidade)

 

O poeta Ademir Assunção, curador da mostra, teve o mérito e a sensibilidade de valorizar a obra para além do mito, mostrando um escritor de admirável erudição, em constante busca do seu melhor.

Todo o material ali exposto, desde os inusitados suportes onde PL anotava seus poemas (maços de cigarro, guardanapos ou minúsculos pedaços de papel, bem como o caderno com o manuscrito de Catatau) até as entrevistas em vídeo, dão ao visitante a possibilidade de compreensão do processo de criação do artista e de sua admirável capacidade de invenção. Um verdadeiro retrato de corpo inteiro que revela a abrangência de sua obra.

Corra que a mostra permanecerá aberta ao público só até 8 de novembro.

 

 

(sem vigilância, a liberdade de fotografar)

 

A segunda delas (que ainda não visitei e dela, falarei depois) Cora Coralina: Coração do Brasil, aborda o universo da poeta goiana Cora Coralina e encontra-se aberta ao público no Museu da Língua Portuguesa, na Praça da Luz, até 13 de dezembro. Temos tempo, portanto.  (dtv)     



Escrito por Dalila Teles Veras às 23h07
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Cena cotidiana

Hoje à tarde, assisti a uma cena constrangedora: um ônibus parou subitamente ao dobrar a esquina e o motorista, tentava, sem sucesso, dar partida no motor. O motorista de um carro enorme, desses outrora chamados de “utilitários”, que vinha atrás do coletivo, histericamente gesticulava com o braço para fora da janela, enquanto acionava a buzina de forma igualmente histérica. Por sua vez, o motorista do ônibus, aparentando tranquilidade, continuava a tentar fazer funcionar o motor, sem obter sucesso. A certa altura, o motorista do carro enorme consegue ultrapassar o ônibus parado e, aos berros, detrata o profissional com palavrões e gestos obscenos, acelera, faz “cantar” os pneus e desaparece. A caçamba do tal "utilitário" (aparentemente) vazia, ao que parece, é “utilizada” exclusivamente para carregar a arrogância e a soberba do seu dono que, na próxima parada, ocupará duas vagas do estacionamento e reclamará com os amigos da violência que assola seu/nosso país. (dtv)



Escrito por Dalila Teles Veras às 23h18
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Ferrugem

O brevíssimo comentário deixado no post anterior pela Isa, leitora sempre atenta,  desencadeou nesta escriba um vago sentimento parecido com culpa. O “cutucão” reside nesta frase:  “estas crônicas (quase) diárias”. Este “quase” é que me deixou inquieta, pois remete à promessa que aqui foi feita em 1º de janeiro e que, já às vésperas de findar o ano, deixou de ser cumprida, ou seja, não deixar passar um só dia sem uma linha. Assim como o costume do cachimbo deixa a boca torta, o costume da escrita diária deixa o escriba treinado. Mas a experiência me diz que o contrário não é menos verdadeiro, a interrupção da prática diária da escrita deixa os dedos (ou seria a mente?) enferrujados. Após um justificado interregno, não há mais desculpas, admito, para que as crônicas sejam “quase” diárias e, ainda assim, o são. Vejamos se é possível reverter este quadro. (dtv)



Escrito por Dalila Teles Veras às 22h05
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Classificados

Os Cadernos de Classificados podem fornecer ao leitor pistas sobre a vida cotidiana tão ou mais eloqüentes do que as próprias notícias do jornal.

A começar pela admirável capacidade de concisão, os minúsculos “tijolinhos” tanto podem oferecer oportunidades comerciais e de trabalho (compro móveis usados, aulas particulares,) como apontar para novas profissões (dama de companhia para cães e gatos) quanto para outras nem tão inocentes, muito menos novas (a só prazeres, super panteras, mari loira meiga). Com um olhar um pouco mais atento, é possível topar com verdadeiras pérolas, como esta:

 

“Troco um anel de brilhantes por uma máquina de lavar pratos”

 

Assim, deixo aqui a proposta de leitura de classificados como opção de conhecimento, laser e inspiração (o anúncio citado bem que poderia ser utilizado como um poema ready-made). Neste meu caso, rendeu-me esta breve crônica. (dtv)



Escrito por Dalila Teles Veras às 00h04
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Conversa de artistas e a arte de (com)partilhar

Chove muito nesta Primavera na cidade de São Paulo. Ninguém parece se importar, a cidade jamais pára, sob quaisquer condições atmosféricas. No tranqüilo e elegante bairro de Perdizes, a Galeria Gravura Brasileira funciona numa simpática casa assobradada, abrigando ali milhares de gravuras de centenas de artistas contemporâneos.

 

 

Neste último sábado, 17.10, presenciei uma conversa entre as artistas Constança Lucas e Jacqueline Aronis, que ali mostram seus trabalhos  (gravuras, desenhos, poemas visuais e livros de artista), desde o dia 29 de setembro.  Indiferente à chuva, as pessoas foram chegando. Ouviram, interferiram, opinaram.

 

 

 

Não conhecia o trabalho de Jacqueline, mas gostei do que vi e ouvi. Uma artista de longo e reconhecido percurso, com exposições em inúmeros países da Europa e da América Latina. Criadora que transforma observações e sonhos em delicadezas artísticas.

 

 

(fotos de Luzia Maninha)

 

(Re)ver o trabalho Constança Lucas, artista que há décadas conheço e admiro é sempre um renovar de prazer estético. Artista completa, exímia desenhista e criadora incansável, nos surpreende a cada nova exposição, revelando (re)criações do olhar, do pensar e do fazer artístico. Esta exposição com Jacqueline, revela um feliz encontro de competências e sensibilidades, um belo diálogo artístico.

Naquela oportunidade foi discutida uma das facetas de Constança: a de fazer circular a sua arte fora de galerias e museus, sempre de forma criativa e inusitada. O correio é um de seus aliados nessa empreitada generosa de (com)partilhamento. Durante todo este ano, um grupo de pessoas (em torno de 300) tem recebido mensalmente um cartão com um poema visual de CL. Talvez nem todos os felizardos (como eu) saibam do ritual que envolve esse gesto. Constança vai pessoalmente ao correio (o Central), já com os cartões selados, cujos selos foram escolhidos minuciosamente e colados de forma nada aleatória como, aliás, não o são nenhum dos outros detalhes. Senta-se comodamente numa sala que só os freqüentadores assíduos daquele belo edifício conhecem, pede ao funcionário (ela, pelos anos e assiduidade, conhece todos eles) o carimbo com a data do dia e carimba, ela mesma, um a um todos cartões de forma, claro, também nada aleatória. Diferentemente dos cartões carimbados de forma burocrática, aqui a data é sempre visível é parte intrínseca do conjunto. O poema visual ocupa uma face do cartão, na outra um carimbo redondo com as palavras Constança Lucas – Poema Visual, logo abaixo o endereço da remetente. Pequenos desenhos e o nome do destinatário subscrito do próprio punho, compõem lindamente este objeto gráfico.

Mais do que um presente que deleita quem o recebe, este gesto resgata e mantém vivo o hábito da epistolografia, a magia de receber algo com a marca do corpo de quem o enviou. Mais do que arte, este gesto também é um ato político, de resistência, mantendo vivo aquilo que de mais humano nos une, a generosidade primordial, aquela que oferece sem nada pedir.

Àqueles que desejarem conhecer um pouco mais do universo dessas duas grandes artistas, informo que a exposição permanecerá aberta ao público de segunda a sexta, das 10 às 18h e sábados das 11 às 13h, até 07 de novembro. A Galeria fica na Rua Dr. Franco da Rocha, 61, fone 3624-0301.  (dtv)



Escrito por Dalila Teles Veras às 22h04
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A questão da leitura, ainda (e sempre)

A propósito de Memórias, histórias: História, do último dia 08.10, recebi de Alessandra Paula de Noronha, citada naquele post, um email que deveria entrar como “comentário”, mas que, pela limitação de espaço para essa categoria,(estabelecido pelo provedor do blog e não por mim, diga-se) acabou não sendo aceito ali.

Assim, reproduzo o texto da Alessandra (não por vaidade, mas também... como negar? é bíblico), por tratar-se de mais uma colaboração ao debate sobre a questão do incentivo à prática da leitura e também como homenagem a essa admirável professora que sabe como ninguém  seduzir para a leitura, porque, entre outras razões, é uma grande leitora.

Digo isso com conhecimento de causa, já que tive a honra de, por duas ocasiões, falar para seus alunos e perceber o diferencial que uma professora como ela, com bagagem acumulada, domínio didático e paixão pelo que faz, pode operar em termos de transformação e visão de mundo de jovens estudantes. Eis o email:

 

Querida Dalila,
Gostei muito da sua menção à minha participação nos debates sobre o Livrespaço. Dias desses alguns alunos encontraram as nossas fotos na Internet e vieram perguntar sobre o evento, aproveitei para falar dos poetas da região, em especial, da sua produção. Infelizmente, não pudemos nesse ano promover aqueles encontros gostosos com o pessoal do Ensino Médio (acertos interno, datas, enfim...). Não pude ir ao debate sobre incentivo à leitura, já tinha um compromisso médico, mas a iniciativa é ótima, é disso que precisamos. Conte sempre comigo, pois tem em mim uma fã confessa da sua obra e uma apaixonada por literatura.
Esse ano inovei com o pessoal do Ensino Médio, defendo a leitura dos clássicos, ainda que adaptados, nessa fase da escolarização para que possamos fazer as mediações necessárias: linguagem, contexto, valores. Lemos A Divina Comédia e Dom Quixote, o retorno foi excelente, tenho alguns trabalhos guardados caso queira vê-los, porém me rendi à Literatura Contemporânea (Comercial, talvez... coisa para discutir) e lemos o romance de uma autor australiano Marcus Zusak: A menina que roubava livros...Foi um sucesso, os alunos adoraram, envolveram-se com a vida da personagem na Alemanha Nazista e mas mais do que isso...Por que roubar livros, num tempo de fome e morte? Os trabalhos de releitura e interpretação estão maravilhosos... Modéstia à parte, nível de graduação. Um grande abraço. Alessandra Paula de Noronha



Escrito por Dalila Teles Veras às 18h53
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Catequese para uma (o)velha devassa

Compradora inveterada de livros, vejo esse meu vício crescer desabaladamente desde o advento do chamado e-commerce, ainda que, reconhecendo o comodismo da coisa, não dispense as idas ao sebos e às livrarias físicas (indispensáveis, ainda, para quem sofre desse mal que se alimenta de ácaros e cheiro de tinta impressora). Lançamentos, livros usados, raridades, de tudo vou abarrotando prateleiras e espírito, comprando, claro, muito mais do que posso ler.

 

Dias destes, ao telefone, uma vendedora de quem eu havia encomendado um livro, me informou que o meu livro, havia sido trocado por engano no ato do despacho. A pessoa que recebeu o livro que a mim seria destinado, comprometia-se a enviá-lo diretamente para meu endereço. Com a finalidade de ganharmos tempo, também me comprometi a remeter à verdadeira destinatária, o livro que me chegasse às mãos.

 

Tão logo recebi o livro trocado (sobre temas bíblicos) tratei de colocá-lo no correio. Dias depois, chega-me um pacote, com o livro que eu havia comprado, ou seja, Sonetos Luxuriosos, de Aretino, tradução, introdução e notas do nosso competente e muito saudoso José Paulo Paes, escritor de quem possuo todos os títulos (esse era um dos poucos que me faltavam). No mesmo pacote, um outro livro como presente da remetente, um exemplar de  “Novo Testamento, Nova tradução na linguagem de hoje”, com a seguinte dedicatória, manuscrita em letra caprichada: “Querida amiga desconhecida: nada acontece por acaso principalmente quando Deus tem um propósito maior para nossa vida e tendo a certeza disso, envio-lhe como presente o livro mais editado e lido no mundo. E aquele que o ler outra pessoa será. E o senhor Jesus, nosso salvador disse: “e conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” João 8:32. Deus a abençoe grandemente.”.

 

Claro que entendi o recado/lição, ou seja, o empenho daquela bem intencionada senhora (pastora?) em (re)conduzir uma desconhecida (o)velha devassa ao caminho da virtude.

Posso imaginar a estupefação da piedosa senhora, em cujas mãos o acaso deixou cair os versos desbocados de Aretino (“o mais extremado júbilo carnal do Renascimento” JPP), que escandalizaram a Itália da mesma época de da Vinci, Michelangelo, Maquiavel e outros “escandalosos” do mesmo calibre (ganhou a ira do Papa, mas os Médici eram seus protetores e, assim, o poeta viveu faustosa e gozosamente por largos anos).

 

Imagino, ainda, a senhora abrindo ao acaso uma das páginas  daquele  tão abjeto objeto, e deparar-se com uma estrofe como esta (das mais cândidas, diga-se): “Eu o quero no cu. Mulher, tu me hás / De perdoar se evito tal pecado. / Pois isso é iguaria de prelado / A quem já outro gosto não compraz. (...).

 

Ahahah! Após dias um tanto quanto taciturnos, fez-me muito bem a gargalhada incontida. Quem foi que disse que livro não é (também) diversão?

   

Em tempo: permanecem ainda sobre a minha mesa de trabalho os dois volumes (confesso que ainda não tive coragem de os separar). Ora um em cima do outro, ora um ao lado do outro, irreconciliáveis. Um livro sagrado (já profanado por releituras “de hoje”) e outro profano e devasso. Certamente terão que ir para prateleiras distantes entre si, sob pena de rebentar uma guerra santa em minha biblioteca e durma-se com um barulho desses. (dtv)



Escrito por Dalila Teles Veras às 22h16
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Memórias, histórias: História

Motivada pelo convite que recebi para falar sobre a experiência do grupo Livrespaço durante o debate sobre Práticas de Difusão e Incentivo à Leitura, ocorrido na última terça-feira no Consórcio Grande ABC, andei a remexer os arquivos e isso me serviu para reforçar algo que já era convicção, a nossa memória é a memória escrita. O cérebro humano não foi programado para registrar cada detalhe, cada sensação, cada decisão de cada momento de cada dia de nossas vidas e muito menos daquilo que ocorre em torno delas.

Ano passado, eu e mais cinco poetas remanescentes do Grupo Livrespaço de Poesia estivemos à frente de várias atividades para marcar os 25 anos de fundação daquele grupo. O livro Seduzir para a Poesia – trajetória do Grupo Livrespaço 1983-1994, organizado por mim, com textos de José Marinho do Nascimento, Rosana Chrispim, Jurema Barreto de Souza, Cláudio Feldman, Tônia Ferr e meus, registra essa história de intensa intervenção da vida da(s) cidade(s).

É claro que as 208 páginas do livro estão longe de esgotar o assunto. Há campo aberto ainda para muita pesquisa, em campos como o da antropologia, sociologia, crítica literária, enfim. Os protagonistas nem sempre são as pessoas mais indicadas para acumular também papéis analíticos, críticos.

À época das comemorações (setembro de 2008), nas duas mesas de depoimentos “Poesia: Sedutores Seduzidos”, levadas a cabo no Museu de Santo André, convidamos  aqueles que um dia (e sempre) tentaram seduzir para a poesia bem como aqueles que, seduzidos, seguiram por essa seara tão pouco trilhada, mas tão definitiva para outros. Professores e alunos que falaram de suas memórias de vivências com o grupo à época de sua atuação (1983-1994). Três desses depoimentos, em especial, nos causaram muita emoção. Marcos Sidney Pagotto-Euzebio, Alessandra Paula de Noronha e Miriam da Silva Nascimento, estudantes à época, participaram de oficinas ministradas pelos poetas do grupo e confessaram que o contato com os poetas e a forma como a poesia foi abordada exerceu grande influência em sua trajetória de “leitores” e de intelectuais. Os três, hoje profissionais bem sucedidos (2 professores universitários e uma bibliotecária) ali, naquele momento, eram eloquente prova de que havia valido a pena. No vasto acervo do grupo, localizamos os exercícios poéticos dos três, que ficaram expostos na exposição iconográfica e documental que permaneceu por um mês naquele Museu.

A cada mergulho nesse acervo inesgotável, as descobertas vão se apresentando como dádivas para a memória e a celebração. Nesta minha última investida às pastas já um tanto quanto empoeiradas, uma nova descoberta: a participação de uma então jovenzinha curiosa e ativista cultural que hoje, após uma licenciatura em artes cênicas, é especialista em Educação, Mestra em Teoria e História do Teatro pela ECA/USP, intelectual que prezo em ter hoje como amiga: Adélia Nicolete que, para minha honra, ainda é assídua leitura e colaboradora deste blog.

Era junho (1983) chovia e fazia muito frio. Auditório do SENAC, em Santo André. O tema do debate Por que a Poesia? À mesa, alguns dos poetas que viriam a compor o Grupo Livrespaço (Katsuko Shishido, Jurema Barreto de Souza), mais dois escritores convidados (Antonio Possidonio Sampaio e Cláudio Willer, representando a União Brasileira de Escritores). Na coordenação da mesa, outros dois poetas que também viriam a compor o grupo: Denil Tucci e José Marinho do Nascimento. Um número surpreendente de pessoas na platéia e um debate que parecia não mais acabar (outros tempos e outras vontades, certamente). Impactante e, confesso, assustador, para aqueles meus anos de aprendizado em terras de João Ramalho.

 

 

Na primeira fila da platéia encontram-se três pessoas que também viriam compor o Livrespaço: a argentina Margarita lo Russo (cabelos platinados) a Rosana Chrispim (de blusão vermelho, óculos, cabelo forçadamente black power) e Tonia Ferr (de azul, vasta cabeleira, ao lado da Rosana). Nenhuma delas  se conhecia até aquela noite. Ali nascia o Grupo Livrespaço.

 

 

Observe-se agora, no detalhe, lá no canto direito, à frente de um circunspecto e bigodudo jovem senhor (que mais tarde viria a ser cognominado pelo grupo de “pajé”), uma atenta jovem de óculos, “nariz empinado”, conforme a própria retratada, Adélia Nicolete, que, diga-se, muito relutou em autorizar a publicação não só desta foto (“esses cabelos todos vão tirar qualquer intenção de seriedade da fotos..” argumentou, com bom humor), como também deste manuscrito:

 

 

O poema “Momento” ("Sinto a leveza do vento / Me despindo no momento / Na hora do nosso amor: / Uma brisa, um sopro lento.// Penso coisas insensatas, / Sinto mais do que aparento. / Quando teus lábios me roçam / Quando suspiros desatas, / Desatas meu pensamento. // Não queiras levar-me embora, / Fica assim; sem movimento / Perde o sonho, perde a hora, / Perde a vida, o ar e agora: / Sente a leveza do vento.”) foi manuscrito pela jovem Adélia num formulário impresso (rodado) em mimeógrafo a álcool (“tecnologia” jurássica e desconhecida de todo aquele hoje na faixa de 30 anos), leva o número 00099 (a moça foi rápida, posto que mais 500 exercícios foram produzidos). Não obstante novos argumentos contra a publicação (“deixemos inédito o poema. Vamos poupar os leitores desse cometimento juvenil. Que ele continue guardado, protegido, segredo entre nós”), mantive firmeza na minha posição de que “cometimento juvenil” ou não, isso representa a “gênese” de uma escritora, e acabei vencendo a resistência.

Para que a Adélia não me considere assim tão má, vai aí, em forma de homenagem e desculpas, uma foto dela no seu explendor de jovem senhora, em azul, clicada por Lina, por ocasião do lançamento do seu livro “Chá das Cinco”, Coleção Aplauso, uma biografia de Sonia Guedes (também na foto), no início deste ano na livraria Alpharrabio. 

 

 



Escrito por Dalila Teles Veras às 21h02
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10 anos sem (com) Amália

Ando talvez um tanto quanto saudosista (por algum tipo de fado atávico luso? não sei...). O fato é que ao ler em jornais de Lisboa notícias sobre homenagens que lá estão sendo prestadas nesta data pelos 10 anos de desaparecimento de Amália Rodrigues, lá fui eu revolver meus arquivos para encontrar esta crônica que publiquei há 10 anos (coluna Viaverbo do Diário do Grande ABC) 7 dias após a sua morte. Como o texto encontra-se inédito em livro, tomo a liberdade de reproduzi-lo aqui, esperando contar com a compreensão dos antigos leitores e a generosidade dos novos. (dtv)

 

"Guitarra na Proa", bela e significativa escultura monumental em homenagem a "Amália, ao fado e a Lisboa" do artista Domingos de Oliveira, no Passeio Marítimo do Junqueira, à beira do Tejo. (foto de Isa Ferreira, abril 2007)

Silêncio, Amália morreu

Amália, a fadista, sabia-se amada e queria que chorassem por ela quando morresse. Foi isso que fiz ao saber de sua morte, aos 79 anos, na última semana. Chorei e, em silêncio, ouvi-a cantar por horas seguidas, sabendo-a viva, ali, naquela voz que faz parte de minha trajetória de vida, há meio século.

A origem do fado é controversa, envolve lendas e suposições. De acordo com Pinto de Carvalho (História do Fado, 1903) teria “nascido a bordo, aos ritmos infinitos do mar, nas convulsões dessa alma do mundo, na embriaguez murmurante dessa eternidade de água”. Uma outra tese é a de que o lundú, (dança obscena dos pretos congoleses, importada no Brasil e em Portugal) é o seu predecessor imediato. O certo é que o fado surgiu em Portugal com o regresso da corte em 1822 e teve sua idade de ouro na mítica “cantadeira” Severa, que reinou absoluta na idolatria e no imaginário português – foi tema de opereta, peça teatral, filme e, claro, letras de fado - até o surgimento de Amália.

De acordo com musicólogos, Amália revolucionou o fado tradicional, enriqueceu sua pobreza melódica inicial, acrescentando-lhe, inclusive, o improviso, um elemento jazzístico. Entre tantos méritos dessa cantora dona de uma voz absolutamente singular, está o de ter popularizado a grande poesia de língua portuguesa. Amália cantou, entre outros, Camões, Guerra Junqueiro, José Régio, Alexandre O´Neil, Pedro Homem de Melo, Antonio Feliciano de Castilho e a nossa Cecília Meireles e transformou o fado num verdadeiro traço de união, marca identitária entre todos os portugueses. Não há quem nele (e nela) não se reconheça.

Após a Revolução dos Cravos, Portugal, levianamente, passou a ignorar Amália, rotulando-a de representante do salazarismo. O gênio e a arte de Amália estavam, porém, acima de rótulos equivocados, colados com a goma apressada da (legítima) euforia da época. Dignamente, ela continuou cantando pelo mundo, sendo recebida em delírio pelas mais nobres platéias, como o Carnegie Hall, de New York e o Olympia, de Paris. Ainda que cantasse em outras línguas – forma gentil de retribuir os aplausos, ninguém precisava falar português para entendê-la. Amália era universal e deu ao fado essa dimensão. O ostracismo durou pouco e, passados os anos de euforia e acertos, Portugal voltou a (re)conhecer-se nela.

Como nas antigas tavernas de Lisboa, peço silêncio, pois vai-se cantar o fado. Silêncio, Amália morreu.

Fachada da residência de Amália Rodrigues, na Rua de S.Bento, um casarão do Séc. XVIII, restaurado por Amália, onde morou nos úlltimos 50 anos de sua vida e hoje, por decisão testamentária, transformada em Fundação A.R., aberta à visitação do público.

A gentil Sra. Estrela Carvas, "guardiã" e "guia oficial" da Fundação A.R., sempre disposta a responder quaisquer perguntas sobre a artista, e o faz com conhecimento de causa, visto que morou com Amália por 3 décadas, uma espécie de dama de companhia e secretária factotum (que recentemente publicou o livro "Os meus 30 anos com Amália" em parceria com a jornalista Maria Inês Almeida.). A casa se mantém com os objetos dispostos exatamente como à época em que A.R.  ali vivia. Amália foi realmente uma diva, de surpreendente bom gosto e sobriedade, atributos pouco comuns a estrelas de sua grandeza (estar ali...arrepia...). Fotos de Valdecirio Teles Veras, Lisboa, jan.2008



Escrito por Dalila Teles Veras às 20h59
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Incentivo à leitura

Esta iniciativa do Consórcio Grande ABC, nascida nas discussões do Núcleo Estratétigo de Cultura, é mais uma tentativa de pensarmos as questões (cruciais, no meu modo de entender) ligadas às iniciativas de incentivo à leitura.

Assim, convido a todos a participar das discussões, amanhã, terça-feira, 06.10, às 17h30, na sede do Consórcio Grande ABC, na Rua Ramiro Colleoni, 5, Centro – Santo André, SP. Espero vê-los por lá. Até e forte abraço

dalila teles veras



Escrito por Dalila Teles Veras às 14h25
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Retorno

O mês é outro, outra sou eu. A experiência da dor diferencia e humaniza. Certamente olharei doravante com mais compaixão pelo meu semelhante que sofre.

Bem que eu gostaria hoje, ainda claudicante, mas já com uma certa energia restaurada, exercitar aquilo que com tanta graça cantou Amália no fado de Alberto Janes “Vou dar de beber à dor”, ou seja, “Pois dar de beber à dor é o melhor / Já dizia a Mariquinha”. Certamente a musa Mariquinha desconhecia que “um copinho” não combina com corticosteróides e outras drogas letais. A linguagem médica chama a isso “interação medicamentosa”. Mas que o fato de emergir de um mergulho tão desagradável merecia um brinde, isso lá merecia!

Agradeço a todos os bons amigos que deixaram aqui e por email bons votos, palavras que irão para o relicário dos afetos, bem como àqueles que, sem desacreditar na ciência, recorreram (mesmo à distância – Santo André/Jaçanã/Buenos Aires - às tradicionais benzedeiras). Devo dizer, usando surrado bordão, que “yo no creo en las brujas; pero que las hay, las hay” e com elas (e todos os deuses disponíveis) espero poder contar para voltar à rotina e à criação, com energia redobrada. Me aguardem (dtv)

 



Escrito por Dalila Teles Veras às 22h38
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