À Janela dos Dias - dalila teles veras


Feliz Ano Novo

Que este "pequeno leitor" (meu neto Filipe de 1 ano e 8 meses) possa simbolizar um mundo renovado, no qual o livro, a leitura e o conhecimento sejam valorizados. Consequentemente, um mundo mais humanizado e melhor.

Desejo a todos um 2010 pleno (saúde, alegrias, realizações e muitas leituras), aproveitando este post para retribuir e agradecer todos os amigos/leitores que visitaram este espaço ao longo de todo o ano, prestigiando e honrando com sua leitura esta escriba. dalila teles veras



Escrito por Dalila Teles Veras às 22h12
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Ano findo, hora de balanço (?)

Nesta época,  inevitáveis (o calendário assim parece exigir – o Mestre Drummond, citado pela Isa no post anterior, bem o sabia) parecem ser os “balanços”, mas como, afinal, “contabilizar” 12 meses num “balanço”?

Há ainda o agravante de, bombardeada por toneladas de informações diárias, sentir-me, “desinformada” em plena era da informação e, pior, sem memória desses "acontecimentos" noticiados.

Acabo de fazer um teste no Google ("você se acha uma pessoa bem informada" era o título, promovido por uma revista de circulação nacional e jornalismo suspeito) com 40 questões sobre fatos marcantes no ano de 2009 relativos à economia, política internacional, educação, celebridades, esportes, ciência e tecnologia, dentre outros. Dessas 40, acertei apenas 22. Errei feio nos quesitos “celebridades”, “esportes” e “economia”.

“Quem lê tanta notícia?” já dizia, nos idos dos anos 60, o velho (tanto quanto eu) Caetano Veloso que (assim como eu) deu para falar muita bobagem ultimamente.

Há ainda o fato de que a grande maioria dos “acontecimentos” são trágicos (a mídia simplesmente adooora isso, repetindo à exaustão apenas tragédias, das pequenas às de grandes proporções). Tanto que são essas que ficam gravadas em nossa falha memória humana (ainda que só tenhamos lido apenas as manchetes).

Vejamos: quem não se lembra das grandes tragédias desta última década como o ataque islâmico às torres do World Trade Center e ao Pentágono americano e sua contrapartida, a paranóica guerra americana contra o terror, que perdura até os dias de hoje (vide a última tentativa de explosão de um avião e as imediatas “medidas” tomadas contra o terrorismo); o Tsunami no Oceano Índico, o terremoto na China, a queda do Air Bus da Air France, o famigerado vírus H1N1, a eterna guerra entre israelenses e palestinos?

Pergunto-me: se a mídia insistisse da mesma forma nas “boas notícias” não ficariam elas em nossas lembranças da forma como ficaram gravadas as tragédias?

No campo pessoal, há muito que “deletei” os maus acontecimentos. Procuro registrar n´algum escaninho da memória sempre um boa lembrança, inclusive envolvendo aqueles entes queridos que já se foram.

Assim, não quero levar deste 2009, a incômoda e triste recordação dos momentos de despedida a que tive que me submeter. Não foram poucas as vidas queridas que se foram, mas prefiro lembra-los pelo seu legado, pelos bons e profícuos momentos que, juntos, usufruímos.

Publiquei um livro, estou a escrever outro, li muitos livros, viajei, brinquei com meu neto, convivi e troquei afetos com minha família, amei, estou viva e com saúde. Um “ balanço”  nada desprezível.

Isso seria tudo e o bastante, não fosse o desassossego, tão ou mais necessário do que a placidez... (dtv)



Escrito por Dalila Teles Veras às 21h51
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À espera do Ano Novo – fuga, gostos e voyeurismo

Desde que voltei do mar, de onde fugi, tão logo multidões começaram a tomar de assalto as areias banhadas pelo Atlântico, andei a pensar sobre o que vi/vivi nos últimos 4 dias praianos e que me levam a uma conclusão desconsolada: a de ser uma pessoa desterritorializada, perdida neste imenso território brasilis (ou seria no imenso território terráqueo?).

Primeiro os ruídos. O barulho incessante que a chamada civilização produz é acachapante e indigno. A “necessidade” de música em todos os lugares parece ser uma medida saneadora ao pensar. As prefeituras, rendidas, cedem o espaço público para “shows” de qualidade duvidosa. Nos palcos provisórios, música gravada, a “presentear” os veranistas. O “footing” – pois é, encerrando já a primeira década do Século XXI, essa prática interiorana ainda é praticada em nossas badaladas praias, só bastante piorada, ou seja, é feita dentro de automóveis, essas máquinas ruidosas equipadas com poderosos aparelhos de som em proibitivos decibéis, em congestionamentos propositais e sem destino. A beira-mar e seus coqueiros e seu espetáculo visual, invadida de sons. O som do mar abafado pelo som do mau gosto incivilizado. O som e a fúria em embate diuturno.

A população canina cresceu em número impressionante e no tamanho individual de cada animal. Difícil ver alguém levando a passear um pequeno animal. Levam dois, três, alguns enormes... Isso numa cidade onde não há mais casas térreas, apenas edifícios de apartamentos onde esses animais ficam confinados. Alguns desses donos, donos de apartamentos milionários, “esquecem” de recolher os dejetos orgânicos de seus animais de estimação e o resultado é, como dá para sentir na pisada, uma verdadeira merda.

As hordas em busca do lazer obrigatório e com hora marcada, saciam todos os seus apetites primordiais, comem, bebem e fornicam à exaustão. Nada do que a humanidade conquistou ao longo de sua tão longa história parece interessá-las.  Só o mergulho literal nas águas do prazer hedonista, fugaz e exacerbado.

Esperam o Ano Novo, vestidos de branco, como se espera um Messias, panacéia para todos os males ocorridos durante o ano que finda. Purificados, após os 7 pulinhos nas ondas e o espumante bebido em copos plásticos misturados com areia, voltam pra casa e o que encontram no dia seguinte é uma tremenda ressaca.

Fico aqui a me perguntar se essa minha implicância não seria de pura inveja, por ter perdido a sensibilidade para essas manifestações órficas e orgíacas, características, diga-se, humanas, por demais humanas e... mitológicas.

Azar o meu, velhota ranzinza, que após o banho de mar (sempre antes ou até o meio-dia, quando a multidão, de ressaca, começa a chegar) e o almoço foi experimentar os novos Cafés da temporada e assistiu aos filmes em DVDs levados como antídoto. Na bagagem, também um livro maravilhoso, cuja leitura está chegando ao fim e do qual darei notícias).

Azar o meu... que permaneci em minha janela voyeurista, sem binóculos, observando, de forma turva e opaca, um tempo que já não é mais o meu. O meu tempo é aquele que faço, do meu jeito, adequado ao próprio gosto e às limitações não solicitadas, mas inevitáveis.

Falando em gosto, desci e subi a serra do mar ouvindo o impagável CD de Maria Bethânia, O Mar de Sophia. A palavra da poeta Sophia e a voz da artista que lhe dá outra voz. A felicidade também pode estar nessas coisas (e naquelas). Ou não? (dtv)



Escrito por Dalila Teles Veras às 20h15
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O Natal madeirense - memórias

Estamos às vésperas do Natal. Difícil desvincular essa data da minha memória gustativa, olfativa e afetiva. Assim, permitam-se compartilhar essa memória.

O Natal na Ilha da Madeira, onde nasci, é chamado de “A Festa” e não se restringe à véspera e ao dia 25. A Festa, propriamente dita, compreende o período que vai das chamadas “Missas do Parto”, prolongando-se até o Dia de Reis, a 6 de janeiro, mas em algumas localidades, vai até o dia 15, dia de Santo Amaro e também dia de “limpar os armários”, os seja, comer as iguarias que sobraram da Festa.

As Missas do Parto fazem parte de uma curiosa tradição madeirense que mistura a celebração litúrgica com a comemoração profana. Cada dia da novena representa um mês da gravidez de Maria. É o rito de espera da Festa, que se inicia no dia 16 e encerra no dia 24, culminando com a Missa do Galo na noite de Natal.

Essas missas são celebradas muito cedo, em especial nas paróquias da zona rural, para não atrapalhar o trabalho. Os grupos vão para a Igreja a cantar e tocar instrumentos despertando os vizinhos pelo caminho. Logo após a missa, há confraternização ali mesmo, no adro da Igreja, onde são compartilhadas iguarias típicas da época, como licores e bolos e (porque não?) uma ponchinha (espécie de caipirinha, composta de suco de limão, mel e aguardente).

O madeirense prepara-se o ano inteiro para a Festa com a mesma devoção que o brasileiro prepara-se para o Carnaval.

Antes mesmo das missas do parto, também fazem parte do ritual da espera, inúmeras outras práticas, como a “morte do porco”, costume das zonas rurais, que lá se vai escasseando, uma vez que nos dias de hoje, mesmo nesses locais, já se compra a carne no supermercado. É da carne desse animal a base de um dos mais tradicionais pratos dessa época, a “carne de vinho e alhos”, que requer ser “deitada de molho” dias antes, em uma salmoura que, conforme o próprio nome, é composta de vinho, alho amassado e louro.

 

 

 

 

Na memória olfativa entra igualmente  o cozimento do bolo preto e das broas, bem como o cheiro dos pêros e laranjas colocados ao redor da lapinha.

 

 

 

 

 Sim, “armar a lapinha” era outro rito que envolvia, e ainda envolve, toda a família madeirense. A “lapinha”  é como é chamado o presépio madeirense e é armada em duas “versões”. Ora é montada em cima de uma mesa, que é coberta com uma bela toalha de linho bordada, onde são armadas “escadinhas”.

A figura do menino Jesus, em pé, vestido com um manto em bordado madeira, ocupa o degrau mais alto e nos outros (dois ou três) vão dispostos as outras figuras do presépio. (como este aí de cima).

 

 

 

Ainda ao redor da lapinha são colocados pequenos jarros de barro onde previamente são semeados alguns grãos, como trigo, cevada, milho ou lentilha e que, pela época do Natal, cobriam-se de um verde-musgo adorável, simbolizando a fartura do ano vindouro. São as chamadas “searinhas”. Entremeando os vasos, frutas frescas da época, como pêros (espécie de maçã verde nativa) e laranjas, adornados com galhos verdes de “cabrinhas” e “alegra-campo”.

 

 

 

 

 

Já a chamada “rochinha” que, via de regra, reproduz a própria paisagem da ilha, íngreme e acidentada, bem como cenas da vida cotidiana local, apresenta-se em inúmeras versões. Socas (raízes) de cana de açúcar, pedaços de madeira, caixas de papelão e outros objetos podem lhe servir de estrutura, que depois é recoberta com papel pedra, ou papel craft pintado, simulando os “socalcos”, “poios” e “estradas” onde vão os pastores, ovelhas, casinhas, anjos, enfim. Na gruta simulada, a cena da sagrada família.

 

 

 

No meu tempo de criança, antes do advento do plástico e outras quinquilharias com que a China “presenteia” o mundo, os elementos da lapinha eram feitos de barro e boa parte dos ornamentos do pinheiro (natural) eram confeccionados pela própria família (flores e grinaldas de papel crepom, etc.).

Acompanhar a decoração das ruas do Funchal e fazer as compras para a mesa de Natal (os presentes eram raros e modestos) era a grande diversão da família. Saíamos às ruas para “ver as luzes”, um grande espetáculo cultivado até os dias de hoje, a cada ano com temas diferentes.

 

  

Certos costumes mais recentes, como a “noite do mercado”, de 23 para 24, foram incorporados e “oficializados”. Na verdade, era um hábito antigo ir nesse dia ao Mercado dos Lavradores, no centro do Funchal, adquirir os produtos frescos para o dia de Natal. A esse hábito foi acrescentada, mais uma vez, a festa. Compra-se e fica-se, a cantar e a beber até amanhecer (desta ainda não participei - mas é um bom motivo para voltar) .

Após a Missa do Galo, no dia 24, uma ceia frugal, composta por uma canja e alguma outra iguaria. O dia de Natal era passado em família, a mesa farta, posta durante o dia inteiro.

Os dias seguintes eram para visitas, conhecer as lapinhas e tomar uns copinhos, à espera da noite do Ano Novo, espetáculo pirotécnico conhecido mundialmente e um dos pontos altos da Festa.

 

 

No dia 06 de janeiro, dia de cantar os Reis, ou seja, grupos, munidos de instrumentos musicais, iam de casa em casa a cantar e improvisar quadras e eram recebidos com doces e licores. Hoje bem menos comemorado, praticamente restrito a apresentações de grupos folclóricos em praças públicas que resgatam os cantares alusivos ao dia. Aqui e ali, um grupo ainda arrisca a tradição.

Em dezembro de 2007, com alegria, pude constatar pessoalmente o quanto estas tradições ainda são mantidas na ilha (as fotos são dessa época). Trazia muitas delas na lembrança, as quais foram reforçadas com detalhes já esquecidos. Outras haviam sido inteiramente banidas da memória, mas foram resgatadas, anotadas, degustadas para seguirem a ser lembradas e, em alguma medida, passadas para as filhas e, agora, para o neto..

Tenham todos uma Boa Festa, no mais amplo sentido madeirense do termo (dtv).



Escrito por Dalila Teles Veras às 23h56
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Encontro fraterno – desdobramento

Reproduzo abaixo o texto que Suzana Kleeb, da AMUSA, tentou colocar como comentário ao post anterior, sem sucesso, visto que o sistema deste blog só aceita até 1000 caracteres por comentário.

A propósito, informo ainda a boa notícia: a AMUSA ganhará em breve um pequeno espaço dentro do Museu que, entre outras finalidades, também servirá de loja dos produtos com a grife da Associação Amigos do Museu.  Assim, todos os visitantes poderão sair do museu exibindo camisetas, sacolas, aventais e outros objetos com reproduções da tapeçaria de Burle Marx ou a fachada do Museu. Seremos todos “garotos propaganda” de uma boa causa: o Museu de nossa cidade (bem mais edificante, convenhamos, do que exibir um logotipo de uma determinada marca de carro, hamburger ou refrigerante).

 

“Muito grata por suas palavras de estímulo.

Como transparece em seu texto “Um encontro fraterno”, sabe bem que para ações em cidades diversas e múltiplas como a nossa são necessárias boas doses de vontade, paciência e persistência. Vejo a Alpharrabio sempre como um exemplo disso. A AMUSA vem seguindo seus rastros, entremeando-se na cidade, buscando seu espaço na medida de suas possibilidades, ainda diminutas.

 

Buscamos em atividades como a de 15/12, confraternizar pessoas, sonhos, vontades, desejos, em prol da memória que não se pode fazer esquecida. Ação nem sempre fácil, pois requer convencer que o tempo exaure a tudo e a todos. Sem distinção. Por essa razão, temos a necessidade premente da manutenção, lubrificadora, das lembranças.

 

Também é motivo de orgulho saber que podemos tocar em espaços solidificados em esferas de poder que por vezes estagnam ações que não se inserem dentro de seu âmbito ou de seu ideário. Vemos que é possível. Vimos o quanto isso se fez (e se faz) importante.

 

E quando isso acontece em alto astral, regado a boas conversas, amigos e uma música tão deliciosa, percebemos que há luz no final do túnel.

 

Lembrei-me agora de uma música de Chico Buarque que se aproxima a essas questões. Deve conhecê-la, certamente, mas abaixo vai a letra.

 

“Não se afobe, não
Que nada é pra já
O amor não tem pressa
Ele pode esperar em silêncio
Num fundo de armário
Na posta-restante
Milênios, milênios
No ar

 

E quem sabe, então
O Rio será
Alguma cidade submersa
Os escafandristas virão
Explorar sua casa
Seu quarto, suas coisas
Sua alma, desvãos

 

Sábios em vão
Tentarão decifrar
O eco de antigas palavras
Fragmentos de cartas, poemas
Mentiras, retratos
Vestígios de estranha civilização

 

Não se afobe, não
Que nada é pra já
Amores serão sempre amáveis
Futuros amantes, quiçá
Se amarão sem saber
Com o amor que eu um dia
Deixei pra você”.

(Futuros Amantes, Chico Buarque de Holanda)

 

Beijos,

Suzana”



Escrito por Dalila Teles Veras às 22h07
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Um encontro fraterno

É tempo de confraternizar (é sempre tempo) e acabo de chegar de um encontro fraterno, um verdadeiro milagre, resultante de vontades de alguns (poucos) abnegados que tocam a AMUSA – Associação Amigos do Museu de Santo André.  No comando da organização e da cozinha: Margarete, Alberto, Rosi, Suzana e funcionários do Museu. Uma das salas do Museu foi transformada em bistrô.

 

 

Um encontro fraterno e gastronômico: patês, saladas, bacalhoada e musse de maracujá.

 

 

 

Abrilhantando a noite, além das conversas entre os amigos do museu, a voz e a arte do cantor e compositor Fernando Cavallieri, prata da cidade. Dentre as muitas canções que apresentou, algumas do CD In Alpha, gravado ao vivo no Alpharrabio.

 

(fotos de Suzana Kleeb)

 

Estive, assim, me sentindo verdadeiramente “em casa”, entre amigos. No caminho de volta, pensei: a cultura anda (sempre) por força de vontades e esforços individuais,  a despeito de instituições,  poderes públicos e políticos. (dtv)



Escrito por Dalila Teles Veras às 23h59
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Tempestade e despedidas

A tempestade de fato veio, previsão correta. Tão forte que não houve capa nem guarda-chuva que pudesse oferecer proteção. A vida é assim, como o tempo, sujeito a chuvas e trovoadas. Ainda assim, para alguns aguaceiros não estamos, ou quase nunca estamos, preparados, ainda que a previsão os anuncie e saibamos desde sempre que acontecerão.  O preço de atingirmos a tal da terceira idade é o de forçosamente termos que nos despedir. Depois de uma certa idade, despedir torna-se rotina, dolorida, sempre. Este foi um ano de muitas, muitas despedidas... Vamos, assim, ficando mais sós e cada vez mais estrangeiros, esforçando-nos para a constante (re)adaptação a realidades cada vez mais reais.

Ufa! Falta pouco, poeta, para que este ano termine e que se restabeleça a possibilidade apenas de chegadas. (dtv)



Escrito por Dalila Teles Veras às 22h15
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Nuvens escuras sobre iluminação natalina

Hoje o dia cobriu-se de cúmulos-nimbos, anunciando tempestade. As luzes natalinas, amedrontadas,  bruxulearam diante do súbito anoitecer. A poeta até que tentou transformar este dia num poema, mas os fatos precisam de tempo para transcenderem o real e virarem literatura. Assim, recolho cacos do dia, guardo-os na gaveta, à espera. (dtv)



Escrito por Dalila Teles Veras às 21h34
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Entrevista de dtv a Oscar D´Ambrosio

A quem, eventualmente, tenha interesse, informo que já está disponível (para ser ouvida ou baixadauma entrevista que concedi ao crítico Oscar D´Ambrosio para o programa Perfil Literário, da Rádio Unesp FM. 

 

O fato mais relevante é que ali é possível encontrar entrevistas de gente bacana e muito mais relevante do que esta escriba. É só clicar nos preferidos e ouvir no endereço do Perfil Literário, da Rádio Unesp FM.

(dtv)



Escrito por Dalila Teles Veras às 21h21
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De cinema e abraços (rotos, partidos, esfarrapados, esgarçados)

Após a tentativa frustrada de ontem (quando no guichê para adquirir o ingresso fui informada de que a sessão havia sido cancelada “porque a chuva molhou o projetor” (!!! - o subúrbio é mesmo muito, muito engraçado), consegui ver o último Almodóvar. Acredito mesmo que o fato desse filme ser exibido em Santo André pode ser creditado a um descuido qualquer ou verdadeiro milagre (havia, na sessão da tarde, 7 pessoas na platéia) posto que me pareceu “perdido” no meio de blockbusters como Lua Nova (ao qual as famílias assistem em massa, levando seus pimpolhos em começo de férias, assim como também as mamães levam seus bebês ao colo, tendo como trilha sonora o choro dos infantes argh!!! na chamada sessão Cinematerna, com luz acesa e outras "inovações"..... novíssima moda a ser analisada e interpretada).

Fui avisada na bilheteria de que o filme era legendado. Ainda bem, disse eu, se fosse ao contrário eu não estaria aqui (os blockbusters são, quase todos, dublados – afinal, é preciso “facilitar”, ler é penoso e chato).

A cricri aqui já foi implicando com o título em português que Los Abrazo Rotos recebeu no Brasil, Abraços partidos, que, em absoluto, não é a mesma coisa (ou é? Que se pronuncie minha amiga Margarita, doutora nesse assunto). Abraços rotos seria mais adequado (mas roto consta do Aurélio e do Houaiss, mas não se usa mais); esfarrapado, talvez... Bem, isso é secundário. Vamos ao filme. Quer saber? Não vou dizer nada, não. Vá assistir e depois conversamos. Acabo de entrar no Google e fiquei com um imensa preguiça de ler as 66 críticas que em pouquíssimos dias foram escritas sobre. Deu pra perceber algumas bobagens (o filme é de, para e sobre Penélope Cruz, o filme é uma obra menor do realizador) e acertos (o filme da maturidade de Almodóvar).

Assisti a poucos filme do diretor espanhol. O primeiro, Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos, não me motivou a ver os seguintes. Até que fui fisgada (induzida por Luzia Maninha, fã inconteste do diretor) por Tudo sobre minha mãe, seguido de Fale com Ela e Volver e agora este Abraços partidos, não por acaso, estes três últimos “da fase” Penélope Cruz”. Mas daí creditar à bela e excepcional estrela Penélope todo o mérito dessas fitas, já é um equívoco.  Almodóvar é o mérito em si, a partir da excelência e complexidade dos seus roteiros (não confundir complexidade com hermetismo – Almodóvar é também entretenimento, em alto grau, diga-se), nos quais a palavra é privilegiada.

Este é um filme sobre a paixão. Mas não só. É um filme sobre filmes e cinema, autorreferencial (é assim na nova ortografia?) e também homenagem a outros cineastas. Um filme sobre criação (“um filme precisa ser terminado ainda que diante da cegueira”). Um filme sobre cegueira e luz. Um filme sobre abraços (dados e não dados) sentimentos de todas as espécies, humanos. Só posso dizer que saí em estado de choque estético, esqueci o casaco na cadeira do Café e não me lembro do trajeto até casa).

Vá, não me ouça nem aos críticos de plantão. Veja e tire suas próprias conclusões.  (dtv)



Escrito por Dalila Teles Veras às 23h00
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Jardinagem comunitária na batalha contra o joio

A terra adubada, comprada na floricultura (meus antepassados agricultores devem estar a revirar nos seus respectivos túmulos ao ouvir tal sacrilégio – comprar terra em floricultura com tanta terra nessa terra que nunca se acaba?! arg! Sinal dos tempos, justifico eu...) veio cheia de sementes de ervas daninhas que logo brotaram, cobrindo a grama recém-plantada.

Lá fui eu à caça do joio que anda a ganhar a batalha travada com a chamada “grama japonesa” (um espécie que não precisa de poda e não se presta ao pisoteio – é meramente ornamental) bem como com a de seus defensores (eu e voluntários que vão chegando e se engajando na tarefa). Diariamente, arrancamos as daninhas pela raiz para ve-las surgir logo adiante no dia seguinte.

Hoje (ao lado de Fátima, minha entusiasta amiga-voluntária da frente de batalha) senti na pele algo parecido com o que senti ao ver as mulheres vestidas de negro curvadas sobre a terra nos campos de minha terra natal, Portugal e que resultou neste poema (no livro Madeira: do Vinho à Saudade):

 

Viuvez sem espera

 

Negras, as mulheres

nos verdes campos

ceifam a cor

Curvas as foices

cortando ervas

Côncavas as enxadas

cavando dores

Negras e curvas, as mulheres

adubam com nênias a terra

em definitiva viuvez

 

Em Tempo: Sentir por ver é uma coisa, sentir por sentir é outra. Desta feita, a dor foi meramente física, posto que a coluna vertebral da poeta demonstra não possuir resistência suficiente para tal tarefa, por mais prazerosa que seja ela, como o é. (dtv)   



Escrito por Dalila Teles Veras às 21h59
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Emoções próprias e alheias

 

Televisão chegou tarde à minha vida. Aos quatorze anos, quando a família adquiriu um aparelho de TV, eu já estava irremediavelmente contaminada pelo vício da leitura. Enquanto o Brasil parava para assistir, lacrimoso, os sofrimentos do jovem Albertinho Limonta (era esse o nome do personagem?) no teledrama O Direito de Nascer, eu lia Os sofrimentos do jovem Werther, de Goethe. A diferença? Pergunte-se hoje, a quem assistiu a novela e a quem leu o Werther e as respostas revelerão, no mínimo, duas formas distintas de leitura de mundo.

Desde então, a escalada triunfante da televisão e o seu poder hipnótico alçou níveis nunca dantes imaginados. Ícone e peça do mobiliário, ocupa, em geral, um lugar  destacado nas residências e, ligada em tempo integral, passou também a fazer parte integrante da família. Exercendo papel de babá e educadora, substituiu o pensar pela assimilação de códigos pré-estabelecidos, criando a ilusão do saber, quando na verdade, a tv apenas reproduz o senso comum, banaliza informações, transforma tragédias e violência em mero espetáculo.

Mas não se trata de fazer aqui nenhum discurso acadêmico sobre os malefícios da televisão, mesmo porque a grande questão, hoje, não é apontá-los, mas discutir como utilizar esse poderoso meio de comunicação na melhoria do ser humano. Além do mais, para quem queira aprofundar-se no assunto, há uma vasta literatura disponível, como o livro "Rede Imaginária - televisão e democracia" (Companhia das Letras- 1991), resultante do Seminário do mesmo nome, promovido pela Secretaria Municipal de Cultura de S.Paulo em 1990, onde o assunto é abordado competentemente por vários autores.

O meu intento  é o de apenas relatar uma experiência pessoal e fazer uma proposta. No começo da década de 70,  decidi viver durante quatro anos sem essa engenhoca fabricante de emoções alheias. A única falta notada era quando, em conversas no cabeleireiro ou em rodas de amigos, personagens de novelas assumiam força de pessoas reais e eu me angustiava sem saber do que se falava. No mais, a vida corria verdadeira, repleta de emoção "ao vivo e a cores", sem necessidade de energia elétrica nem de controle remoto. Forças ocultas, como diria Jânio Quadros, fizeram com que eu voltasse a adquirir um aparelho de tv sem, no entanto, ter cedido a seu fascínio até hoje.

A esse propósito, sugiro ao leitor o seguinte: que tal desligar a luzinha azulada durante 24 horas? Vamos lá, experimente. Um domingo seria perfeito. As ruas sem congestionamento são um convite a conhecer a cidade. Falando nisso, você a conhece? Então diga: sabe descrever exatamente o trajeto entre sua casa e o trabalho? Faça esse trajeto a pé, esqueça a pressa cotidiana e observe tudo devagar, com olhos novos de ver. Tome um café como se estivesse em Paris, sentado. Aproveite para ler o jornal e veja quanta diferença do jornal televisivo. Aqui você lê apenas o que deseja, relê o que mais lhe interessa. Se quiser, pule a página policial, afinal hoje você comanda pois, ao contrário do ato de ver TV, os sentidos não se restringem ao olhar, nada é passivo.

Volte para casa e prepare-se para outro rito. Tome banho, vista a roupa preferida  e vá ao cinema ou ao teatro, acompanhado por aquela pessoa especial. Um ritual diferente daquele de vestir uma bermuda qualquer, pegar um saco de batatas fritas e postar-se numa poltrona, interrompido pelo telefone ou por visitas indesejáveis. Você vai escolher o programa, para o qual se preparou ritualisticamente. Finalizando, um lanche ou um jantar, na medida do seu apetite e, o mais importante, uma inesquecível conversa sobre o dia diferente e, é claro, suas próprias emoções.

Estas são algumas das muitas descobertas e de novos prazeres cotidianos, para além da poltrona, que poderão ir de uma simples leitura de um bom livro a aventuras das mais radicais, desde que a condição seja a livre escolha e o livre criar.

NOTA: Permaneci em casa neste domingo e, ao fim do dia, dei-me conta de que não liguei a TV nem uma só vez. Foi assim que me veio à lembrança esta minha crônica publicada no Caderno Cultura (Coluna Viaverbo) do Diário do Grande ABC em 1995. O post se justifica pelo fato de que, 14 anos depois, ainda não adquiri o hábito de ver TV. Em certos momentos essa "lacuna cultural" até que faz falta, mas... (dtv)



Escrito por Dalila Teles Veras às 23h51
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Destaque no Portal da CCLBESP

A edição deste mês do jornal do Conselho da Comunidade Luso-Brasileira do Estado de São Paulo traz um texto de DTV. Para ler na íntegra, clique aqui.



Escrito por Dalila Teles Veras às 19h12
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O menos que é mais

Ando a reler Orides Fontela. Sempre releio Orides e sua poesia seca, livre de qualquer adiposidade. Leio Orides como manual de emagrecimento da palavra.  Leio Orides pelo prazer de saber que é possível dizer muito com muito pouco. Exemplos:

 

Carta

 

Da

vida

não se espera resposta.

 

Mão única

 

­­-- é proibido

voltar atrás

e chorar.

 

Hamlet

 

...mais filosofias

que coisas!

 

in Axiomas, do livro Teia, 1996

 



Escrito por Dalila Teles Veras às 22h58
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Nênia para Milton

A ceifeira implacável, ao que parece, está na fase de colher os bons. Em setembro levou Pierino Massenzi, em novembro carregou Philadelpho Braz e agora, neste início de dezembro conduz Milton Andrade, outro amigo querido, para a viagem ao desconhecido.

OK, dirão os mais serenos, todos tiveram uma vida plena, cumpriram sua missão na terra com dignidade, deixaram sua marca como cidadãos incomuns e isso não é pouco. Claro, não é pouco, mas podia ser mais.

Estou triste, triste de não ter jeito e há dois dias ensaio esta nênia para homenagear o amigo parceiro em tantos projetos artísticos, generoso em tantos momentos de amizade.

Conheci Milton Andrade no início dos anos 80. O então Prefeito ameaçava exonera-lo da direção da Fundação das Artes em São Caetano, instituição que dirigia com inteligência e competência administrativa, desde 1968. A classe artística mobilizada encetou campanha para dissuadir o Prefeito do seu intento. Nada. O Prefeito não recuou. A Fundarte perdeu seu diretor e eu e tantos outros ganharam um amigo. A amizade veio a se consolidar com a abertura da Livraria Alpharrabio em 1992, quando Milton passou a frequentá-la, juntando-se a um grupo de artistas e intelectuais que ali fundaram seu quartel general.

Milton por ocasião de entrevista no quadro Janela Cultural do programa televisivo ABCDMaior em Revista, nov.2007 - Foto Daniel Brazil

Ali Milton participou de palestras, debates, depoimentos, leituras dramáticas, leituras poéticas, apresentou seu espetáculo Versos à Boca da Noite, lançou seu livro Inventor de Paisagens, além das incontáveis conversas acompanhadas de café e tapioca, compartilhadas com Magali, sua esposa e eterna companheira. Tive também a honra de com ele compartilhar textos em algumas coletâneas como Nosso Século XXI - especialistas de diferentes atividades analisam Grande ABC de ontem, de hoje e de amanhã (2001), organizada por Daniel Lima; Guido Poianas – Retratos da Cidade,(2002) organizada por José Armando Pereira da Silva; As Cidades cantam o Tamanduateí que Passa (2003), Secretaria de Educação e Cultura de Mauá, SP, no 2º Simpósio Nascentes o Rio e a Cidade. 

Sua voz de ator shakespeariano a recitar meus poemas num CD que me foi presenteado por um grupo de amigos, seguirá, como um afago, a me fazer companhia.

Guardarei de Milton a serenidade do conciliador, aquele que, como ninguém, sabia criticar sem jamais ofender. Um gentil homem, de uma elegância sem afetação. Um homem humilde, sem mistificação. Um amigo, para quem vai esta nênia e a esperança (ainda que difusa) de um reencontro, em outra dimensão. (dtv)

 



Escrito por Dalila Teles Veras às 23h58
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