À Janela dos Dias - dalila teles veras


patas pra que te quero

Dentre as centenas de emails que deleto diariamente da minha caixa postal eletrônica, marketeiros desavisados que perdem tempo e dinheiro tentando me vender absolutamente tudo que  absolutamente não necessito nem desejo (desde pacotes de cirurgias estéticas e aumento peniano a apartamentos em Miami e viagens para Dubai) um deles me fez levantar o dedo da tecla "del" e deixá-lo em suspenso. O "subject" da mensagem: " 65% off. Não precisa falar mais nada, né?"  (a implicância já começa no "off", essa forma ridícula de amenizar com estrangeirismos do tipo "sale" e "off" o eventual constrangimento do consumidor em adquirir mercadorias encalhadas. Até aí, tudo bem, são milhares de "off" e "sale" virtuais e nas vitrinas dos shoppings, mas o conteúdo da mensagem é que me impactou de verdade: "sandália meia pata (sic), só neste fim de semana" (!!!). Meia pata? Bem que há tempos venho notando indícios dessa nova ordem,  como o anúncio de "ração humana" para uma "vida mais saudável". Seria essa ânsia de apropriação do mundo animal  necessária ao homem para sentir-se humano? fazer dos animais seres humanos e, agora, fazer seres humanos de animais?  Será realmente muito engraçado ouvir do vendedor da loja de calçados perguntas do tipo: qual o tamanho de sua pata? Deseja cobri-la pela metade ou por inteiro? (dizem que há mulheres que adoram ser chamadas por "cachorras", então nada mais natural que usar sapato meia pata ou pata inteira.

Eu, heim!!!

Como diria Caetano, desconfio de que alguma coisa está fora da ordem natural (mundial?) das coisas... (dtv)



Escrito por Dalila Teles Veras às 22h28
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O céu de Wislawa, novo endereço

Finalzinho do ano passado comentei aqui no blog o livro "Poemas" da poeta polonesa  Wislawa Szymborska, publicado pela Companhia das Letras, obra que pela primeira vez dava a conhecer ao Brasil a poesia dessa importante escritora eslava. Nesse mesmo post reproduzi "O caso do século" um dos belos poemas do livro.

Li há pouco que a poeta morreu no dia 1º deste mês, aos 88 anos.

Em tempos politicamente corretos e preocupados com a saúde alheia, não deixa de ser divertido o fato do livro citado trazer na capa uma foto recente de Wislawa, cigarro entre os dedos, soltando uma grande baforada. Coerente, muito coerente para quem sempre andou na contra-mão do status quo. Um câncer no pulmão a matou, diz a notícia. Ora, nessa idade, qualquer outra coisa a mataria, por qualquer outra doença ou  pela própria idade. Wislawa morreu, viva Wislawa.

Hoje, homenageio a poeta, reproduzindo aqui o poema "Céu", traduzido por Aleksandar Jovanovic e publicado na coletânea "Céu Vazio - 63 poetas eslavos", Hucitec, SP.

Outra curiosidade: no longo estudo introdutório, Jovanovic destaca que essa "outra Europa" (a das línguas eslavas) produziu, por exemplo, em épocas distantes ou próximas, Mozart, Smetana, Dvorak, Kodály, Bartók, Kafka, Freud, Kundera, Dostoiévski, Tolstói, e dez prêmios Nobel de Literatura nos últimos 40 anos (Borís Pasternak, Ivo Ándritch, Mikhaíl Chólokhov, Alieksandr Soljenítzin, Czeslaw Milosz, Jaroslav Seifert, Joseph Brodski, Elias Canetti, Giorgos Seferis e Odysseus Elytis). A coletânea foi publicada justamente em 1996, ano em que o Nobel foi atribuído a Wislawa, o que nos faz deduzir que o livro foi impresso antes da notícia. Caso contrário, o número dos prêmios Nobel seria alterado para onze.

 

Céu

Era preciso começar daí: céu.
Janela sem encosto, sem moldura, sem vidraça.
Abertura e nada mais,

porém muito bem aberta.


Não preciso aguardar a noite amena
nem levantar a cabeça
para perscrutar o céu.
Tenho céu atrás de mim, sob as mãos e e debaixo das pálpebras.
Estou enredada de céu
e isto me exalta.


Nem as montanhas mais altas
Estão mais próximas do céu
que os vales mais profundos.
Não há mais céu num lugar
do que em outro.
A nuvem está atada ao céu
indiferente como o túmulo.
A toupeira é tão feliz
quanto a coruja que abre as asas.
O objeto que cai no precipício
cai do céu no céu.
Partes poeirentas, líquidas, montanhosas,
passageiras e queimadas do céu, migalhas de céu,
brisas de céu e montes.
O céu é onipresente
até nas trevas sob a pele.
Devoro o céu, rejeito o céu.
Estou com armadilhas na armadilha,
com o habitante instalado,
com o abraço abraçado,
com a pergunta presente na resposta.
A divisão entre céu e terra
não foi pensada de forma adequada
a respeito desta unidade.
Permite até que se sobreviva
no endereço mais exato,
que pode ser achado mais depressa
se me procurarem.
Os meus sinais característicos são
o arrebatamento e o desespero.

 

 



Escrito por Dalila Teles Veras às 22h41
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Os Modernistas pelos próprios (IV)

Finda a semana, encerro também a minha série-homenagem aos moços de 22.

Como não poderia deixar de ser, lembremos de um "modernista" de primeira grandeza, uma de nossas mais elevadas vozes poéticas de todos os tempos, Carlos Drummond de Andrade, também amigo de Mário, que viria a conhecer somente em 1924 e com quem trocaria longa correspondência (parte dela publicada pela Editora Record com o título A Lição do Amigo) que lhe foi de grande valia nos seus anos de formação. Mário foi a grande e generosa ponte por onde os poetas de sua época puderam transitar e chegar a todos os lugares, com sua imprescindível ajuda crítica. Mas a grande e influente "lição" para as gerações posteriores foi mesmo de Drummond, um poeta perigosamente simples. Tão simples que, enganados, muitos receberam de forma equivocada suas "lições" e passaram a confundir aquele simples, fingidamente simples, com exercícios emotivos, versos vulgares no lugar de poesia. Por sua vez, a crítica acadêmica, na ânsia de provar o contrário, vez por outra, erra na medida.  Ouçamos o que o poeta anotou a esse respeito em seu diário, publicado em livro sob o título O Observador no escritório:

"julho, 25 - 1970 - Aturdido, leio no jornal o artigo em que se analisa um de meus poemas à luz das novas teorias lítero-estruturalistas. Travo conhecimento com expressões deste gênero: "dinamismo dos eixos paradigmáticos", "núcleo sêmico", "invariante semântica horizontal", "forma de referência parcializante e indireta", "matriz barthesiana"... O poeminha, que me parecia simples. tornou-se sombriamente complicado, e me achei um monstro de trevas e confusão. "

 

Não é preciso tomar lições com Drummond, basta ler seus poemas, lições preciosas, como em Procura da Poesia (publicado no livro A Rosa do Povo, 1945), do qual reproduzo aqui apenas um trechinho, só para lembrar, sabendo que muitos, em especial os poetas, o sabem de cor e que hoje é "encontrável" facilmente em todos os sites de busca:

 

" Penetra surdamente no reino das palavras.

Lá estão os poemas que esperam ser escritos.

Estão paralisados, mas não há desespero,

há calma e frescura na superfície intata.

Ei-los sós e mudos em estado de dicionário.

Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.

Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.

Espera que cada um se realize e consume

com seu poder de palavra

e seu poder de silêncio"

 

Mário apontou caminhos, foi o grande intelectual integrador do seu tempo, mas foi Drummond, aluno que superou o mestre, o fundador da moderna poesia brasileira (dtv).



Escrito por Dalila Teles Veras às 21h48
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Os Modernistas pelos próprios (III)

            Modernista 10 anos mais velho que a maioria dos moços paulistas, convencido por eles  que "também era Modernista", Manuel Bandeira, pernambucano residente no Rio de Janeiro, consentiu que o seu poema Os Sapos fosse lido por Ronald de Carvalho num dos recitais da Semana. O poema recebeu a esperada saraivada de apupos, urros, vaias. Estava cumprida plenamente a intenção dos meninos provocadores.  O poema fazia parte do já irremediavelmente "modernista" Carnaval, segundo livro de Bandeira, de 1919, acolhido entusiasticamente pelo grupo paulista que "tomou-se de amores" pelo livro e viu naquele emblemático poema razões mais do que plausíveis para o choque desejado.

            Mas Bandeira não quis vir a São Paulo para a Semana pelos motivos confessados em seu "Itinerário de Pasárgada": "não quisemos, Ribeiro Couto e eu, ir a São Paulo, por ocasião da Semana de Arte Moderna. Nunca atacamos publicamente os mestres parnasianos e simbolistas, nunca repudiamos o soneto nem, de um modo geral, os versos metrificados e rimados. Pouco me deve o movimento; o que eu devo a ele é enorme. Não só por meio dele vim a tomar conhecimento da arte de vanguarda na Europa (da literatura e também das artes plásticas e da música), como me vi sempre estimulado pela aura de simpatia que me vinha do grupo paulista". Lembremos que o poeta havia publicado em 2017 seu primeiro livro A Cinza das horas, classificado por ele próprio como "de modelo simbolista mas de um simbolismo não muito afastado do velho lirismo português" e, há quem diga, com algum resquício parnasiano.

            Mais um deliciosa lição de poesia do poeta em seu imprescindível Itinerário de Pasárgada: "jamais fiz um poema ou verso ininteligível para me fingir de profundo sob a especiosa capa de hermetismo. Só não fui claro quando não pude - fosse por deficiência ou impropriedade de linguagem, fosse por discrição. Modernista e já não tão moço, sem ressentimentos. Voz soberana e independente. Referência.

O destino (fado?) se existe, é realmente curioso. Manuel, que nasceu primeiro e passou a vida à espera da "indesejada das gentes", desde quando a tuberculose o visitou aos 17 anos, viveu 82 anos. O amigo Mário, nascido 7 anos antes, morreu aos 52. Privaram de uma amizade sem igual (a correspondência entre os dois é arrebatadora em todos os sentidos e verdadeira lição de amigo, lição de coisas, de poesia, lição de camaradagem literária cada vez mais escassa nos dias que correm), presente neste poema:

 

A MÁRIO DE ANDRADE AUSENTE

"Anunciaram que você morreu.

Meus olhos, meus ouvidos testemunham:

A alma profunda, não.

Por isso não sinto agora a sua falta.

 

Sei bem que ela virá

(Pela força persuasiva do tempo).

Virá súbito um dia,

Inadvertida para os demais

Por exemplo assim:

À mesa conversarão de uma coisa e outra

Uma palavra lançada à toa

Baterá na franja dos lutos de sangue,

Alguém perguntará em que estou pensando,

Sorrirei sem dizer que em você

Profundamente.

 

Mas agora não sinto a sua falta.

(É sempre assim quando o ausente

Partiu sem se despedir:

Você não se despediu.)

 

Você não morreu: ausentou-se.

Direi: Faz tempo que ele não escreve.

Irei a São Paulo: você não virá no meu hotel.

Imaginarei: Está na chacrinha de São Roque.

 

Saberei que não, você ausentou-se. Para outra vida?

A vida é uma só. A sua vida continua

Na vida que você viveu.

Por isso não sinto agora sua falta."

 

Manuel Bandeira (Belo Belo, in Poesias Completas, 1948)



Escrito por Dalila Teles Veras às 21h48
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Os Modernistas pelos próprios (II)

As quatro gares

 

INFÂNCIA

O camisolão

O jarro

O passarinho

O oceano

A visita na casa que a gente sentava no sofá

 

ADOLESCÊNCIA

Aquele amor

Nem me fale

 

MATURIDADE

O Sr. e a Sra. Amadeu

   Participam a V. Exa.

     O feliz nascimento

                De sua filha

                      Gilberta

 

VELHICE

O netinho jogou os óculos

Na latrina

 

 Oswald de Andrade, Primeiro Caderno do Aluno de Poesia (1927)

 

MANIFESTO DA POESIA PAU-BRASIL (excertos)

 

            "A Poesia existe nos fatos. Os casebres de açafrão e de ocre nos verdes da Favela, sob o azul cabralino, são fatos estéticos.

(...)

            Como a época é miraculosa, as leis nasceram do próprio rotamento dinâmico dos fatores destrutivos.

            A síntese

            O equilíbrio

            O acabamento de carrosserie

            A invenção

            A surpresa

            Uma nova perspectiva

            Uma nova escala

            Qualquer esforço natural nesse sentido será bom. Poesia Pau-Brasil

 (...)

            Nenhuma fórmula para a contemporânea expressão do mundo. Ver com olhos livres.

(...)

            A reação contra todas as indigestões de sabedoria. O melhor de nossa tradição lírica. O melhor de nossa demonstração moderna.

 

Oswald de Andrade (Correio da Manhã, 18 de março, de 1924)

 

Nota da blogueira: A lição aprendida, apreendida, assimilada: "O melhor de nossa tradição lírica. O melhor de nossa demonstração moderna". Os poetas de hoje agradecem e tentam dosar as medidas. "Ninguém se livra das heranças avós", já disse o outro Andrade, o Mário. (dtv)



Escrito por Dalila Teles Veras às 22h07
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Os modernistas pelos próprios (I)

I

Meu coração estrala.

Esse lugar comum inesperado: Amor.

   

   Na trajetória rápida do bonde...

          De  Santana à cidade.

                  Da Terra à Lua

                          Júlio Verne

       Atravessei o núcleo dum cometa?

  Me sinto vestido de luzes estranhas

  E da inquietação fulgurante da felicidade. (...)

 

(versos de abertura do livro Losango Cáqui, de Mário de Andrade, publicado em 1926 e escrito em 1922, obra que aparentemente fala de sentimentos amorosos e líricos de um soldado -  pela cidade, seus objetos e transeuntes - mas que, na verdade, está carregado de metáforas e referências a procedimentos poéticos. Metalinguísticos, portanto.)

Eram moços... como eu disse no post anterior e, já ali, ousados mas munidos de uma certa "cautela" e antes que alguém o fizesse, analisavam e revisavam sua própria trajetória em começo, sabendo-se em pleno processo.

Vejamos o que diz Mário, no texto "Advertência", a título de prefácio do livro:

"Me resolvo a publicar este livro assim como foi composto em 1922. É um diário de três meses a que ajuntei uns poucos trechos de outras épocas que o completam e esclarecem. Sensações, idéias, alucinações, brincadeiras, liricamente anotadas. Raro tive a intenção de poema quando escrevi os versos sem título deste livro.

Aliás o que mais me perturba nesta feição artística a que me levaram minhas opiniões estéticas é que todo lirismo realizado conforme tal orientação se torna poesia-de-circunstância. E se restringe por isso a uma existência pessoal por demais. Lhe falta aquela característica de universalidade que deve ser um dos principais aspectos da obra de arte. Vivo parafusando, repensando e hesito em chamar estas poesias de poesias. Prefiro antes apresentá-las como anotações líricas de momento de vida e movimentos subsconscientes aonde vai com gosto o meu sentimento possivelmente pau-brasil e romântico."

Continuamos aprendendo com eles... lições de humildade e consciência crítica. (dtv)



Escrito por Dalila Teles Veras às 22h35
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A Semana que não acaba e o Modernismo que nunca chega

A Semana de Arte Moderna, que nem sequer "semana" foi, pois durou apenas três noites, 13, 15 e 17 de fevereiro de 1922, faz 90 anos hoje e, naquele ano como hoje, essas três datas caíram na segunda, quarta e sexta-feira. Como sempre acontece a cada 10 anos, a famosa Semana torna a fazer muito ruído nos meios de divulgação e dá-lhe revisionismo... para não fugir à regra, cá estou eu... leitora cri-crítica.

O revisionismo, intensificado a partir das comemorações dos 50 anos, em 1972, quando a efeméride, em plena ditadura, interessou à própria dita (o nacionalismo) e aos intelectuais (o triunfalismo) passou a ocupar teses universitárias e arroubos críticos, cada vez mais tendentes a desmerecer ou desqualificar méritos históricos da Semana, como alguns críticos de arte que, em pomposos textos nos jornalões dos últimos dias, confundem "marcos modernos" brasileiros com "marcos" pautados pela lógica (suspeita e, sublinhe-se, perversa) do mercado internacional de arte, visto, naturalmente, por gigantes mercadores, como diria meu  dileto amigo APS.

Será que a arte produzida no Brasil, para que seja reconhecida "brasileira", precisa ser enquadrada apenas em duas vertentes, a do mercado (que reconhece apenas os "marcos de uma arte brasileira" a partir de Hélio Oiticica e Lygia Clark - que não são "bárbaros" por falarem sua língua) ou a "folclórica", "regional" ou "exótica", neo-carmens mirandas ornadas de bananas, bem ao gosto babaca e falido de yankees?   Ora, esse é um papo que de há muito já deveria estar superado pelos brasileiros, mas não está (a lógica internacional permanece, ou seja, a do mercado. Ponto). Mas e o Brasil, precisa replicar essa lógica por aqui? e render-se ao apenas ao mercado (editorial, de arte)? Não estaria na hora de começar a apreciar nossos biscoitos finos, sem querer equiparar sabores, ainda que o amálgada deles seja desejável e saudável?

O certo é que os moços marioswald & cia., cada um à sua maneira e, depois, cada um para seu lado, deixaram legados, marcas ainda hoje visíveis nos chamados "contemporâneos" que, admitamos, incorporam os procedimentos e propostas estéticas de 22, ignorando até mesmo que os seus próprios proponentes tenham desviado para outros caminhos ou realizado, ainda em vida, seu próprio revisionismo (leia-se a conferência de Mário, O movimento Modernismo, pronunciada em 1942, três anos antes de sua morte).  

Eram moços e, como tal, cometeram erros e excessos. O certo é que a Semana e tudo aquilo que dela decorreria, já vinha sendo "anunciada" de há muito, mais precisamente a partir de 1917, quando da polêmica exposição de Anita Malfatti, bem como dos incontáveis artigos publicados na imprensa por Mário, Menotti e Oswald  anunciando o "futurismo", em contraponto a tudo que (até injustamente) era considerado "passadista".   Fica fácil hoje imaginar que  aquela semanica, por mais ruído que possa ter provocado, não afetou nem de leve os alicerces da opinião pública da época. Por outro lado, é certo que  sem ela (e sem os artigos, as revistas, os salões que a precederam) não surgissem logo depois obras que marcam definitivamente nosso tão ansiado Modernismo, como Alguma Poesia, de Drummond, Libertinagem de Bandeira, Paulicéia Desvairada de Mário, as obras de Tarsila, Portinari e Di Cavalcanti, bem como as composições de Villa-Lobos (estes últimos, participantes da Semana, cuja ideia inicial, dizem, partiu do próprio Di), sem falar no chamado regionalismo que viria a seguir, Graciliano à frente.

É injusto e reducionista acusar toda essa turma de 22 (poetas, músicos, pintores) de pretender criar e propor uma "arte moderna brasileira" a partir de procedimentos "modernistas" estrangeiros, que, inclusive, naquele momento já haviam sido ultrapassados por outras ideias, como o equivocado futurismo de Marinetti.  Pela ótica negativista de alguns críticos, essa tal "arte moderna brasileira" jamais se realizou.  Alguns "modernistas", sabe-se, foram para a Europa (Anita, Villa-Lobos, Oswald, Tarsila) e tiveram contato com as chamadas vanguardas locais e, claro, utilizarem certas ideias para pensar e buscar outras. Ora, de longe, as raízes ficam mais perto. Olhar o próprio país do estrangeiro é saudável, sim, até mesmo para do estrangeiro se distanciar.

Foi a partir de uma viagem à Europa, aos 17 anos, que Oswald de Andrade descobriu que outras ideias (ainda que, a princípio, um certo confusas) eram necessárias para pensar (e executar) a arte no Brasil. E assim fez, disparando suas metralhadora giratória em todas as direções. Foi a grande "trombeta" anunciadora e demolidora do movimento. Em contrapartida, Mário de Andrade, o maior de todos eles, jamais saiu do país, mas foi quem mais se preocupou e iniciou de fato a pesquisa estética mais funda que o Brasil conheceu até então, rastreando culturalmente o país, movido por sua insaciável curiosidade e desejo legítimo de estudar e conhecer o próprio país. Ainda que alguns críticos, aliados às premissas canônicas concretistas reivindiquem o direito de eleger Oswald como o baluarte do Modernismo brasileiro, reivindico aqui o direito de afirmar que, ainda que reconhecendo os indiscutíveis méritos de Oswald, foi Mário o mais sério, profundo e completo intelectual de sua época, reconhecido e tido como referência para muitos, inclusive para Sérgio Buarque de Holanda.

O fato é que aquela semana que nem sequer foi semana (por ser rastilho) não acaba, assim como parece jamais chegar o tal Modernismo por ela anunciado.

Enquanto alguns, de forma totalmente redutora, ainda insistem, como naquela época, em contrapor modernismo com passadismo,  Marioswald & cia. permanecem e suas respectivas obras continuam a inquietar (se isso não é "ser moderno" juro que estou longe de saber o que seja "ser moderno"). (dtv)



Escrito por Dalila Teles Veras às 23h08
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Memória e Tv

Pergunto ao frentista do posto onde abasteço o carro, se o Janio (sem acento) de seu nome foi uma homenagem ao ex-Presidente da República (com acento). Simpático e bem humorado como (quase) todo nordestino (sergipano), ele me diz que não, senhora. Quando nasci, em 1974, lá em casa não havia televisão e ninguém sabia desse tal de Jânio. Meu nome já estava escolhido, mas aí eu nasci num dia primeiro de janeiro e então meu pai resolveu homenagear o mês de meu nascimento, então ficou Francisco Janio.

Pois é, pensei eu, presidentes da república passam e, ao que parece, só ficam na memória de quem vê televisão (para alguns até que isso vem a calhar, né não?).

Como não assisto Tv... O que guardará minha memória futura? Bem que meu pai me alertou que ler muito faz mal à vista e ao juízo (e eu não o ouvi).  



Escrito por Dalila Teles Veras às 21h00
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Netos

Já que a Janela está aberta para a vida cá dentro, vamos lá a mais um confiteor (Ai! meu Santo Agostinho, valei-me e emprestai-me uma fração do encantatório poder da  Sua palavra!)

André, o neto número três, nem por isso o terceiro na escala dos afetos, em pé de igualdade com os de número um e dois, completou hoje seu primeiro ano de vida e comemorou a data na posição de homo erectus, visto que hoje essas criaturinhas de Deus já nascem homo sapiens a nos dar lições de vida o tempo todo.

 Pra não  ficar atrás, Murilo, o neto número dois, quase irmão gêmeo, de pais diferentes, que também já ensaiava passos independentes, decidiu não ficar pra trás e lá foi, todo garboso, ganhar também o direito ao mesmo status. O sorriso de ambos bem demonstra a satisfação da conquista da nova etapa. Caminham lado a lado, como se irmãos fossem e são. Claudicantes ainda nos passos, mas absolutamente seguros do imenso cobertor afetivo que os cerca. Que os anjos que os receberam ao nascer continuem ao seu redor, protegendo-os e indicando caminhos, os melhores. O mundo bem que carece de novos homens com almas antigas. (dtv)



Escrito por Dalila Teles Veras às 23h14
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Estatística Poética, constatações, propósitos

Poetas morriam cedo (de tuberculose, de excessos de toda espécie ou de vontade própria)

 Álvares de Azevedo (21), Junqueira Freire (23), Castro Alves (24), Mário de Sá-Carneiro (26), Florbela Espanca (30), Ana Cristina Cesar (31), Mário Faustino (32),  Fagundes Varela (34), Byron (36) Rimbaud 37 (mas escreveu só até os 21 anos e aos 18, suas obras-primas), Edgar Allan Poe (40), Gonçalves Dias (41), Paulo Leminski (45), Baudelaire (46), Pessoa (47), Mário de Andrade (52), Camões (56)

Na vida breve, obras duradouras. Reconhecidos em vida uns, outros só muito depois.

Com um pouco mais de sorte, alguns duraram um pouco mais, deixando obras não menos duradouras dos que cedo foram chamados pelos deuses.

Cecília (63) Oswald (64); Vinicius (67), Guerra Junqueiro (73), Murilo Mendes (74), Haroldo de Campos (74), Guilherme de Almeida (79)

Outros, poucos, igualmente de primeira grandeza, passaram (ou chegaram muito próximo) dos 80, bafejados que foram pela sorte ou pela predisposição genética

Cabral (79), Bandeira (82), Drummond (85), Eugênio de Andrade (82), Octavio Paz (84), Sophia de Mello Breyner Andresen (85), Ezra Pound (87), William Carlos Williams (90)

Sublinhe-se que, na quase totalidade dos casos de longevidade, o melhor da obra de cada um deles não se deu nos últimos anos, mas na metade do caminho, como ocorreu com Dante, aos 36. Assim, chega-se à conclusão que a decadência física (salvo honrosas e notáveis exceções - leia-se Manuel de Oliveira, 103, Oscar Niemeyer, 104, em pleno exercício das respectivas profissões) é irmã da decadência intelectual.

Elaborei esta mal-costurada "estatística", esdrúxulo exercício, que não só me fez chegar a  esse desanimador resultado, como também me colocar diante de outra ainda mais preocupante constatação: a maioria desses escritores não ultrapassou a idade em que hoje me encontro.  Inevitável a percepção agudíssima de finitude . Confesso que até há bem pouco essas questões não chegavam a me sobressaltar...

Publiquei meu primeiro livro em 1982 e nestes exatos trinta anos de escrevinhações, cerca de outros quinze volumes vieram a lume (como se dizia nos velhos tempos). De permeio, centenas de crônicas em jornais impressos e virtuais, ensaios em revistas e periódicos literários e, mais recentemente, blogs.  É tempo demais e suficiente para dizer o que  tinha que dizer. Se não o disse da melhor maneira possível é porque não estava ao alcance de o dizer. Foi o que podia ser.

Quanto ao que vou escrevendo aqui, bem... isto aqui não tem compromisso literário nenhum, trata-se apenas de um exercício a pretexto de conversa com aqueles que passam por esta janela e, quando aberta, param para uma prosinha.

Ainda assim, uma confissão (mais uma): Como Oswald, que morreu na minha idade, também rezo e não quero nem vou ficar jamais como o velho inglês (ainda que me repetindo e andando à roda de velhos e obsessivos temas):

Senhor
Que eu não fique nunca
Como esse velho inglês
Aí do lado
Que dorme numa cadeira
À espera de visitas que não vêm

(Oswald de Andrade, Primeiro caderno do aluno de poesia)

 



Escrito por Dalila Teles Veras às 22h09
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Fulgurações

Trafegando hoje pela Estrada Índio Tibiriçá, Rádio Cultura sintonizada, fui agraciada por um momento fulgurante, desses que podem ocorrer a qualquer momento, mas que para percebê-los, é preciso estar fatalizado.  

Indiferente aos motoristas apressados e seus gestos de impaciência, diminui a pressão do pé no acelerador, aumentei o volume e deixei-me envolver pela música de Villa-Lobos.  O magnífico canto coral à cappella da "Missa São Sebastião", invadiu todos os sentidos e se misturava plasticamente ao rosa branco verde das margens. Momento único, avivado pelo brilho esplêndido da clara manhã de verão. A felicidade estava ali, ofertada pela natureza (o sol, os manacás e quaresmeiras em plena florada) e pelo homem (a música do Villa, que se apresentava em sua culminância na parte final, o Agnus Dei, Sebastião! Protetor do Brasil). Comunguei daquele momento com fervor.

 É nessa felicidade que acredito, cintilações que nos aproximam de algo próximo do sagrado, como o abraço verdadeiro daqueles a quem queremos bem. O universo que se manifesta por uma centelha, mas é captado em toda sua plenitude, a dizer que, sim, tudo vale a pena, (inclusivamente a raiva, a tristeza e o sofrimento) e a alma jamais ficará pequena se permanecer alerta aos sinais.  (dtv)  



Escrito por Dalila Teles Veras às 16h01
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Excesso de informação causa amnesia

Em impagável entrevista à revista Época (aqui) Umberto Eco reafirma aquilo que vem dizendo desde os anos 80 do século passado: "O excesso de informação provoca amnesia" ou seja, é quase impossível a um cidadão filtrar o brutal volume de informações com que é agredido diariamente. Mas há um consolo: "a internet é perigosa para o ignorante e útil para o sábio porque ela não filtra o conhecimento e congestiona a memória do usuário". Ou seja, quanto mais se sabe, mais facilidade em "filtrar". O saber (o compreender) precisa vir antes da informação. E tem mais, o moço comprou um iPad (pode?) porque descobriu nessa ferramenta "um auxiliar de leitura". Vale a pena ler a bem humorada entrevista do grande escritor e pensador italiano, de quem sou fã de carteirinha e sobre quem já falei aqui por mais de uma vez. (dtv)



Escrito por Dalila Teles Veras às 21h40
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