À Janela dos Dias - dalila teles veras


Yu Xuanji, poeta, monja e cortesã

A descoberta deu-se ao acaso, durante uma exploração na caixa de promoções da Livraria da Editora Unesp, na Praça da Sé, numa de minhas recentes andanças pelo velho centro de São Paulo (um de meus passeios prediletos). Dentre algumas pepitas que vieram na bateia daquela pescaria, esta: Poesia completa de Yu Xuanji (Editora Unesp, 2011). Pouco conheço da poesia chinesa. Li, em português, pois não tenho esperança nem a pretensão de algum dia vir a ler em chinês, além de escrito sobre jade - poesia clássica chinesa, reimaginada por haroldo de campos (em 2a. edição, ampliada, pela Ateliê Editorial, 2009) as traduções de Mário Faustino de Cathay, 1915, da tradução de Ezra Pound (in Poesia, Hucitec-UNB, 1983) e as traduções de Ezra em Os Cantos, traduzido entre nós por José Lino Grunewald (Ed. Nova Fronteira, 1982). Nenhuma mulher entre eles, entretanto, ainda que se fale de "uma extensa linhagem de poetisas chinesas".

Assim, esta é considerada a primeira tradução em português da obra integral desta lendária (sei agora) poeta chinesa (844-869 d.C) pertencente ao um significante período, no qual muito floresceu a poesia e outras artes, a Dinastia Tang (618-905). A obra é composta por 48 poemas e cinco fragmentos (tudo o que foi preservado da poeta) e revela, ainda que as muitas referências históricas denunciem sua época, o muito que essa poesia concisa (característica da poesia chinesa, como nos ensina Haroldo) e urbana em muito se assemelha à poesia que hoje se pratica neste nosso mundo ocidental e urbano.

 

Além de uma poesia que, pela primeira vez na história da poesia chinesa, aborda a temática amorosa de forma elegante, mas explícita e desafiadora, a vida livre considerada fora dos padrões de sua época, com uma "consciência feminista precursora em relação à modernidade" muito contribuiu para o fato de seu nome ter se transformado em lenda. Considerada inteligente e talentosa e, de quebra, dotada de grande beleza, Yu Xuanji foi, já aos 12 anos, discípula de um importante poeta (Wen Tingyun) que, diz a lenda, pode ter sido também seu amante. Casou-se, como concubina, aos 16 anos, separou-se três anos depois, quando converte-se em monja taoista e cortesã (na Dinastia Tang, as sacerdotisas taoistas eram mulheres de vida autônoma, que gozavam de grande liberdade em suas relações sociais e transtivam pela casta das cortesãs, podendo viajar livremente e participavam da vida cultural e literária da época, esclarece o tradutor na indispensável introdução).  Morreu precocemente (entre 26 e 28 anos) brutalmente espancada por uma noviça sua criada que, diz novamente a lenda, agiu por ciúme.

 

A delícia da leitura desses poemas deve-se ao esforço, seriedade e notável habilidade dos tradutores, Ricardo Primo Portugal e Tan Xiao que, mesmo reconhecendo  procedimentos que  "reinventam o efeito sonoro e visual do poema original chinês por recursos do verso livre e pela construção da imagem" (vide Ezra Pound) bem como a dos chamados poetas concretos que "privilegiam a invenção de uma reprodução do efeito sonoro", optaram por aquilo que os "imagistas norte-americanos chamam de "tradução transcultural", na qual é mantido o verso fixo e rimado, não como um texto "pré-moderno" mas como como esforço "modernista" de transposição do efeito sonoro-imagístico do original". O resultado é adorável e aqui vai uma pequena mostra:

 

Dizendo adeus (I)

 

Acreditava intermináveis as noites

neste quarto, entre delícias. Mas viajas,

nuvens erram. Deito só e não reajo,

fina-se a lâmpada; em torno, a mariposa.

 

Dizendo adeus (II)

 

Eira nem beira, a água segue a si mesma

Nuvens vêm sem aviso, vão sem promessas

Longa é a primavera no Grande Rio

só sem o par, nada um pato-mandarim (*)

 

(*) nota dos tradutores:  Patos-mandarins - yuan yang - são pássaros conhecidos por acasalarem de maneira estável pela vida toda. Na poesia chinesa clássica, são metáfora recorrente do amor conjugal e da fidelidade.



Escrito por Dalila Teles Veras às 23h53
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Aniversário de Poe e as traduções d´O Corvo

Pelas redes sociais, fui informada que hoje, 19.01, aniversaria Edgar Allan Poe (1809-1849 - puxa vida, esse pessoal vivia tão pouco e fazia tanto!). Corri à minha prateleira de poetas de língua inglesa e lá estava o precioso livrinho "O Corvo" e suas traduções, organização Ivo Barroso, Lacerda Editores, 1998. O volumezinho é precioso por reunir nada menos do que 9 traduções do famoso poema que deu notoriedade a sua autor por suas declamações em público. Duas em francês (Charles Baudelaire, 1853 - o primeiro a traduzir o poema do inglês para outra língua, neste caso, o francês; e Stéphane Mallarmé, 1888) e nada menos do que sete traduções para a nossa língua portuguesa (Machado de Assis, 1883; Emílio de Meneses, 1924; Fernando Pessoa, 1924; Gondin da Fonseca, 1928; Milton Amado, 1943;  Benedito Lopes, 1956 e Alexei Bueno, 1980, o que bem demonstra a riqueza do trabalho poético e suas ilimitadas possibilidades de "interpretação", já que, sabemos, traduzir um poema e manter rigorosamente todos os elementos originais é tarefa praticamente impossível. Curiosamente, o crítico Ivo Barroso, organizador do livro, considera a tradução de Milton Amado, um jornalista, a que melhor "encontra a embocadura, como se diz em música, observando o andamento largo sem descurar dos ressaltos vocais aqui e ali, como numa composição sinfônica", superando, a de bambas como Machado e Pessoa, por preservar as qualidades poéticas intrínsecas do poema: "é oral, declamativa, fluente, emocionante". 

 

Comparecemos a primeira estrofe do original e as traduções de Machado, Pessoa e Amado, para ficarmos apenas nesses três:

 

Poe

 

Once upon a midnight dreary, while I pondered, weak and weary,
Over many a quaint and curious volume of forgotten lore,
While I nodded, nearly napping, suddenly there came a tapping,
As of some one gently rapping, rapping at my chamber door.
“Tis some visitor”, I muttered, “tapping at my chamber door –
                     - Only this and nothing more”.

 

Machado

 

            Em certo dia, à hora, à hora
            Da meia-noite que apavora,
Eu caindo de sono e exausto de fadiga,
            Ao pé de muita lauda antiga,
De uma velha doutrina, agora morta,
Ia pensando, quando ouvi à porta
Do meu quarto um soar devagarinho
            E disse estas palavras tais:
“É alguém que me bate à porta de mansinho;
            Deve ser isso e nada mais”

 

Pessoa

Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de alguém que batia levemente aos meus umbrais.
“Uma visita”, eu me disse, “está batendo em meus umbrais.
            É só isto, e nada mais”.

Amado

 

Foi uma vez: eu refletia, à meia-noite erma e sombria,
a ler doutrinas de outro tempo em curiosíssimos manuais,
e, exausto, quase adormecido, ouvi de súbito um ruído,
tal qual se houvesse alguém batido à minha porta, devagar.
“É alguém – fiquei a murmurar – que bate à porta, devagar;
            sim, é só isso e nada mais.”

 

Ainda que Barroso, com propriedade de tradutor respeitado entre nós (Baudelaire e outros), aponte algumas "derrapadas" na tradução de Pessoa e argumente que "certas colocações perfeitas para os ouvidos e a dicção portugueses, não soam espontâneas aos nossos" causando "certa estranheza ao leitor brasileiro", estou convicta que ninguém o superou na reprodução poética do poema para a nossa língua. Não poderia ser diferente, poeta genial, Pessoa conhecia os "truques" e "técnicas" da poesia e tinha, além do mais, o português e o inglês como línguas "maternas".  Entre outras coisas, o ritmo de sua tradução é absolutamente fiel ao do original.

 

Polêmicas tradutórias (ou traidoras) à parte, vale a pena reler por inteiro (no original ou nas traduções) esse longo e belo poema, um dos mais conhecidos da literatura universal, em voz alta, que foi para isso que Poe o compôs. (dtv) 



Escrito por Dalila Teles Veras às 23h02
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De honrarias e poemas suspensos

Pela trilha da leitura do poeta árabe Adonis, de quem falei aqui, cheguei a outros poetas árabes (pré-islâmicos, neste caso), traduzidos e reunidos por Alberto Mussa, numa encantadora antologia já a partir do próprio título, Poemas Suspensos (Record, 2006).

A poesia, como se sabe, perdeu um bocado de seu status em tempos condizentes com "produtos" mais midiáticos. Mas houve um tempo, em que poetas e poesia, mereciam honrarias como a de ter "suspensos" seus poemas. Ouçamos o que nos diz Mussa, o escritor brasileiro que foi aprender árabe só para ler e traduzir essa poesia: "Durante o mês da peregrinação dos beduínos ao santuário de Meca, onde se situava (e ainda se situa) a Caaba - grande pedra preta sobre a qual se construiu uma "casa" cúbica, acontecia a feira de Ukaz, onde havia concursos de poesia. Dez (ou sete) dentre os poemas premiados receberam uma honra especial, superior mesmo, ao serem bordados com fios de ouro sobre um manto de púrpura e exibidos sobre a Caaba."

Puxa vida! poema bordado com fios de ouro sobre um manto de púrpura e exibido sobre uma pedra sagrada!

Uma das características dessa poesia (vejam só), escrita na língua que hoje se denomina "árabe clássico", é a concisão. Ainda que ligada aos versos precedente ou subsequente, ensina o tradutor, cada verso deve corresponder a uma unidade sintática completa. Podemos, assim, admitir que essa turma já se enquadrava como "vanguarda" há mil e quinhentos anos..

 Vejamos alguns exemplos do que escreveram alguns desses beduínos-poetas:

 

Ninguém dá conselho a quem o tempo é incapaz de aconselhar; inútil é quem tem a razão exausta

 

Faça parte do povo do lugar onde habitar e nunca diga: sou estrangeiro;

pois às vezes estranhos vivem juntos; e parentes, isolados.

(Abid filho de al-Abras - Nota: "a lenda atribuiu a este poeta, o mérito de ter sido o primeiro árabe a dizer poesia".)

 

Ó morada de Maia entre as alturas e as faldas da montanha, desabitada, onde o passado dura para sempre!

 

dentre os touros selvagens de Wajra, pernas pintadas, tripas famintas como um sabre excepcionalmente bem polido.

(Nábigha de Dhubiyan)

 

se conhecesse o diálogo, apelaria; se soubesse falar, eu iria ouvir.

 

O que tem matado a sede da minha alma e me tem curado das doenças é o brado dos cavaleiros: "Eia, Ântara, vai na frente!"

(Ântara, filho de Chaddad)

 

Não me importaria com a visita dos que velam os mortos, não fossem três prazeres de jovem:

 

um trago de vinho tinto, que começa a espumar misturado com água, transbordando do cálice (isso é o que em mim mais censuram);

 

um combate a cavalo, quando os indefesos me convocam, num garanhão de patas recurvas, como o chacal dos bosques sombrios, pronto a emboscar os que vêm beber;

 

e um dia lânguido, quando o céu se encobre de nuvens negras - maravilhosas nuvens negras -, sob uma tenda bem fincada, com uma mulher bela e carnuda,

cheia de braceletes e pulseiras, como se pendessem do tronco imaculado de uma asclépia ou de uma mamoneira.

 

(Tárafa, filho de Al-ABC Nota: poeta satírico, de vida desregrada, afastado do convívio tribal, Tárafa caiu em desgraça e foi condenado à morte. "Morreu da maneira que escolheu: encheram-no de vinho até a boca e o sangraram, na altura dos intestinos").

 

Afinal, como se vê, nem só de glórias vivia (vive) o poeta. (dtv)



Escrito por Dalila Teles Veras às 23h15
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Escritores, homenagens e pombos

No jornal O Estado de São Paulo: "Charles Dickens Ganha Estátua - O escritor Charles Dickens (1812-1870) pediu que nenhuma estátua fosse feita em homenagem a ele, mas não teve seu desejo atendido. No dia 9 de junho, no 133º aniversário de sua morte, será inaugurado um monumento no valor de 118 mil libras, em sua cidade natal, Portsmouth, onde ele viveu até os três anos de idade. Ele estará sentado numa cadeira lendo um livro. Esta será a segunda estátua para o autor de Oliver Twist e Um Conto de Duas Cidades. A primeira foi erguida em 1891, na Filadélfia. Em dezembro, no final das comemorações pelo seu bicentenário, o museu dedicado a ele, em sua casa de Londres, foi reaberto depois de passar por reforma."

Estou com Dickens. Nada mais inglório do que passar a vida com a cabeça cagada pelos pombos! A memória de um escritor está nos livros que escreveu e... por que não? nas marcas que deixou no seu ambiente de trabalho. Preservar as casas-museus de escritores, manter o "clima" de sua época, é um "investimento" bem mais interessante e honroso. Em forma de silenciosa homenagem de leitora, nos meus roteiros de viagem, sempre trato de incluir alguma, como esta, no já distante ano de 1996:

 

 

 



Escrito por Dalila Teles Veras às 22h34
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Realidade Virtual

Jovem colunista escreve hoje no Caderno Link, d´O Estado de São Paulo: "Se 2012 tivesse uma cor, seria um tom amarelado e antigo. O ano poderia ser relembrado em imagens ensolaradas, fotos de praças e praias, pratos de comida, gatos e unhas recém-pintadas. Retratos cotidianos em que as pessoas aprenderam a enxergar beleza por causa do Instagram (grifo meu !!).

Eu, que jamais usei esse tal de Instagram (meu celular, pré-pago, só tem uma função, a de telefone, melhor dizendo, a única que utilizo das pouquíssimas opções que, suponho, o aparelhinho me oferece) fiquei deveras impactada em saber que para "enxergar" a "beleza" do mundo precisarei recorrer a um aplicativo que me ligue a uma rede de celulares.

E eu, pessoa antiga, que, para disfarçar a minha "antiguidade",  acabo de aderir a uma rede social, pensei que para "enxergar a beleza" bastava olhar à minha volta. O mundo real agora apenas simulacro. O real apenas nas imagens do real (cruzes!). Talvez isso explique o porquê de tantas pessoas clicando quadros no Museu ao invés de simplesmente olhar (apreciar) o quadro à sua frente. O mundo mediado pela lente (ui... dtv).



Escrito por Dalila Teles Veras às 21h42
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