À Janela dos Dias - dalila teles veras


Lygia faz Noventanos, Viva Lygia e seu ofício da paixão

"Abro a bolsa e a vida. Leva o que quiser, querido. Caixão não tem gaveta, lembra? Ana Grana deixou fazendas, casas, carros. Deixou até uma harpa dourada ao morrer segurando um pequeno terço de vidro. Sozinha. Toma meu copo, mas não meu corpo que esse não te merece, Não é modéstia não que esse tempo também passou. fiz as pazes com meu corpo porque fiquei com pena dele, faz o que pode para me agradar, para corresponder, consegue? Fico comovida, tantos anos de luta, quase sessenta e esse corpo ainda de pé, perdendo um pouco o equilíbrio mas de pé o pobrezinho. Estou quase chorando de emoção mas reconheço que é um corpo ligeiramente fatigado, hem?! Deixa ele quieto, deite-se com suas meninas de peitinhos duros e bundinha dura que prometo não interferir mais, quero apenas a sua companhia, entendeu, Diogo? A sua fala, o seu riso, a sua graça. A sua música e a sua angústia, quero também essa angústia e quem sabe te distraio com aquelas piruetas!"

 

Trecho de As Horas Nuas, talvez o menos festejado, mas, disparado, seu  melhor romance (1989). A escritora na plenitude de narradora poderosa, aqui se reinventa e reinventa uma nova linguagem, mais experimental, mais solta, mais desbocada.  A personagem deste romance, Rosa Ambrósio, atriz decadente e alcóolatra, desfiando seu ácido humor diante da "idade da madureza". Rosa múltipla, Rosa que também é Rosona, sua mais acabada personagem. Rosa e o gato Rahul, sua consciência, igualmente grande personagem.  O trecho que escolhi talvez dialogue tristemente com o que disse a escritora recentemente ao responder sobre as razões de não pretender comparecer a nenhuma das homenagens que lhe serão prestadas pelos 90 anos: "Aniversário é uma data boa quando se é jovem. Depois da velhice brutal, chega, não quero mais”. Nesta altura (da idade e da centralidade ocupada) ela já pode se dar ao luxo de simplesmente dizer Não. Que Lygia possa seguir "cumprindo até o infinito o ofício da paixão" como diria outra de suas personagens.


 

 



Escrito por Dalila Teles Veras às 22h31
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