À Janela dos Dias


Jardinagem comunitária na batalha contra o joio

A terra adubada, comprada na floricultura (meus antepassados agricultores devem estar a revirar nos seus respectivos túmulos ao ouvir tal sacrilégio – comprar terra em floricultura com tanta terra nessa terra que nunca se acaba?! arg! Sinal dos tempos, justifico eu...) veio cheia de sementes de ervas daninhas que logo brotaram, cobrindo a grama recém-plantada.

Lá fui eu à caça do joio que anda a ganhar a batalha travada com a chamada “grama japonesa” (um espécie que não precisa de poda e não se presta ao pisoteio – é meramente ornamental) bem como com a de seus defensores (eu e voluntários que vão chegando e se engajando na tarefa). Diariamente, arrancamos as daninhas pela raiz para ve-las surgir logo adiante no dia seguinte.

Hoje (ao lado de Fátima, minha entusiasta amiga-voluntária da frente de batalha) senti na pele algo parecido com o que senti ao ver as mulheres vestidas de negro curvadas sobre a terra nos campos de minha terra natal, Portugal e que resultou neste poema (no livro Madeira: do Vinho à Saudade):

 

Viuvez sem espera

 

Negras, as mulheres

nos verdes campos

ceifam a cor

Curvas as foices

cortando ervas

Côncavas as enxadas

cavando dores

Negras e curvas, as mulheres

adubam com nênias a terra

em definitiva viuvez

 

Em Tempo: Sentir por ver é uma coisa, sentir por sentir é outra. Desta feita, a dor foi meramente física, posto que a coluna vertebral da poeta demonstra não possuir resistência suficiente para tal tarefa, por mais prazerosa que seja ela, como o é. (dtv)   



Escrito por Dalila Teles Veras às 21h59
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A terra adubada, comprada na floricultura (meus antepassados agricultores devem estar a revirar nos seus respectivos túmulos ao ouvir tal sacrilégio – comprar terra em floricultura com tanta terra nessa terra que nunca se acaba?! arg! Sinal dos tempos, justifico eu...) veio cheia de sementes de ervas daninhas que logo brotaram, cobrindo a grama recém-plantada.

Lá fui eu à caça do joio que anda a ganhar a batalha travada com a chamada “grama japonesa” (um espécie que não precisa de poda e não se presta ao pisoteio – é meramente ornamental) bem como com a de seus defensores (eu e voluntários que vão chegando e se engajando na tarefa). Diariamente, arrancamos as daninhas pela raiz para ve-las surgir logo adiante no dia seguinte.

Hoje, senti na pele algo parecido com o que senti ao ver as mulheres vestidas de negro curvadas sobre a terra nos campos de minha terra natal, Portugal e que resultou neste poema (no livro Madeira: do Vinho à Saudade):

 

Viuvez sem espera

 

Negras, as mulheres

nos verdes campos

ceifam a cor

Curvas as foices

cortando ervas

Côncavas as enxadas

cavando dores

Negras e curvas, as mulheres

adubam com nênias a terra

em definitiva viuvez

 

Em Tempo: Sentir por ver é uma coisa, sentir por sentir é outra. Desta feita, a dor foi meramente física, posto que a coluna vertebral da poeta demonstra não possuir resistência suficiente para tal tarefa, por mais prazerosa que seja ela, como o é. (dtv)   



Escrito por Dalila Teles Veras às 21h58
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Emoções próprias e alheias

 

Televisão chegou tarde à minha vida. Aos quatorze anos, quando a família adquiriu um aparelho de TV, eu já estava irremediavelmente contaminada pelo vício da leitura. Enquanto o Brasil parava para assistir, lacrimoso, os sofrimentos do jovem Albertinho Limonta (era esse o nome do personagem?) no teledrama O Direito de Nascer, eu lia Os sofrimentos do jovem Werther, de Goethe. A diferença? Pergunte-se hoje, a quem assistiu a novela e a quem leu o Werther e as respostas revelerão, no mínimo, duas formas distintas de leitura de mundo.

Desde então, a escalada triunfante da televisão e o seu poder hipnótico alçou níveis nunca dantes imaginados. Ícone e peça do mobiliário, ocupa, em geral, um lugar  destacado nas residências e, ligada em tempo integral, passou também a fazer parte integrante da família. Exercendo papel de babá e educadora, substituiu o pensar pela assimilação de códigos pré-estabelecidos, criando a ilusão do saber, quando na verdade, a tv apenas reproduz o senso comum, banaliza informações, transforma tragédias e violência em mero espetáculo.

Mas não se trata de fazer aqui nenhum discurso acadêmico sobre os malefícios da televisão, mesmo porque a grande questão, hoje, não é apontá-los, mas discutir como utilizar esse poderoso meio de comunicação na melhoria do ser humano. Além do mais, para quem queira aprofundar-se no assunto, há uma vasta literatura disponível, como o livro "Rede Imaginária - televisão e democracia" (Companhia das Letras- 1991), resultante do Seminário do mesmo nome, promovido pela Secretaria Municipal de Cultura de S.Paulo em 1990, onde o assunto é abordado competentemente por vários autores.

O meu intento  é o de apenas relatar uma experiência pessoal e fazer uma proposta. No começo da década de 70,  decidi viver durante quatro anos sem essa engenhoca fabricante de emoções alheias. A única falta notada era quando, em conversas no cabeleireiro ou em rodas de amigos, personagens de novelas assumiam força de pessoas reais e eu me angustiava sem saber do que se falava. No mais, a vida corria verdadeira, repleta de emoção "ao vivo e a cores", sem necessidade de energia elétrica nem de controle remoto. Forças ocultas, como diria Jânio Quadros, fizeram com que eu voltasse a adquirir um aparelho de tv sem, no entanto, ter cedido a seu fascínio até hoje.

A esse propósito, sugiro ao leitor o seguinte: que tal desligar a luzinha azulada durante 24 horas? Vamos lá, experimente. Um domingo seria perfeito. As ruas sem congestionamento são um convite a conhecer a cidade. Falando nisso, você a conhece? Então diga: sabe descrever exatamente o trajeto entre sua casa e o trabalho? Faça esse trajeto a pé, esqueça a pressa cotidiana e observe tudo devagar, com olhos novos de ver. Tome um café como se estivesse em Paris, sentado. Aproveite para ler o jornal e veja quanta diferença do jornal televisivo. Aqui você lê apenas o que deseja, relê o que mais lhe interessa. Se quiser, pule a página policial, afinal hoje você comanda pois, ao contrário do ato de ver TV, os sentidos não se restringem ao olhar, nada é passivo.

Volte para casa e prepare-se para outro rito. Tome banho, vista a roupa preferida  e vá ao cinema ou ao teatro, acompanhado por aquela pessoa especial. Um ritual diferente daquele de vestir uma bermuda qualquer, pegar um saco de batatas fritas e postar-se numa poltrona, interrompido pelo telefone ou por visitas indesejáveis. Você vai escolher o programa, para o qual se preparou ritualisticamente. Finalizando, um lanche ou um jantar, na medida do seu apetite e, o mais importante, uma inesquecível conversa sobre o dia diferente e, é claro, suas próprias emoções.

Estas são algumas das muitas descobertas e de novos prazeres cotidianos, para além da poltrona, que poderão ir de uma simples leitura de um bom livro a aventuras das mais radicais, desde que a condição seja a livre escolha e o livre criar.

NOTA: Permaneci em casa neste domingo e, ao fim do dia, dei-me conta de que não liguei a TV nem uma só vez. Foi assim que me veio à lembrança esta minha crônica publicada no Caderno Cultura (Coluna Viaverbo) do Diário do Grande ABC em 1995. O post se justifica pelo fato de que, 14 anos depois, ainda não adquiri o hábito de ver TV. Em certos momentos essa "lacuna cultural" até que faz falta, mas... (dtv)



Escrito por Dalila Teles Veras às 23h51
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Destaque no Portal da CCLBESP

A edição deste mês do jornal do Conselho da Comunidade Luso-Brasileira do Estado de São Paulo traz um texto de DTV. Para ler na íntegra, clique aqui.



Escrito por Dalila Teles Veras às 19h12
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O menos que é mais

Ando a reler Orides Fontela. Sempre releio Orides e sua poesia seca, livre de qualquer adiposidade. Leio Orides como manual de emagrecimento da palavra.  Leio Orides pelo prazer de saber que é possível dizer muito com muito pouco. Exemplos:

 

Carta

 

Da

vida

não se espera resposta.

 

Mão única

 

­­-- é proibido

voltar atrás

e chorar.

 

Hamlet

 

...mais filosofias

que coisas!

 

in Axiomas, do livro Teia, 1996

 



Escrito por Dalila Teles Veras às 22h58
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Nênia para Milton

A ceifeira implacável, ao que parece, está na fase de colher os bons. Em setembro levou Pierino Massenzi, em novembro carregou Philadelpho Braz e agora, neste início de dezembro conduz Milton Andrade, outro amigo querido, para a viagem ao desconhecido.

OK, dirão os mais serenos, todos tiveram uma vida plena, cumpriram sua missão na terra com dignidade, deixaram sua marca como cidadãos incomuns e isso não é pouco. Claro, não é pouco, mas podia ser mais.

Estou triste, triste de não ter jeito e há dois dias ensaio esta nênia para homenagear o amigo parceiro em tantos projetos artísticos, generoso em tantos momentos de amizade.

Conheci Milton Andrade no início dos anos 80. O então Prefeito ameaçava exonera-lo da direção da Fundação das Artes em São Caetano, instituição que dirigia com inteligência e competência administrativa, desde 1968. A classe artística mobilizada encetou campanha para dissuadir o Prefeito do seu intento. Nada. O Prefeito não recuou. A Fundarte perdeu seu diretor e eu e tantos outros ganharam um amigo. A amizade veio a se consolidar com a abertura da Livraria Alpharrabio em 1992, quando Milton passou a frequentá-la, juntando-se a um grupo de artistas e intelectuais que ali fundaram seu quartel general.

Milton por ocasião de entrevista no quadro Janela Cultural do programa televisivo ABCDMaior em Revista, nov.2007 - Foto Daniel Brazil

Ali Milton participou de palestras, debates, depoimentos, leituras dramáticas, leituras poéticas, apresentou seu espetáculo Versos à Boca da Noite, lançou seu livro Inventor de Paisagens, além das incontáveis conversas acompanhadas de café e tapioca, compartilhadas com Magali, sua esposa e eterna companheira. Tive também a honra de com ele compartilhar textos em algumas coletâneas como Nosso Século XXI - especialistas de diferentes atividades analisam Grande ABC de ontem, de hoje e de amanhã (2001), organizada por Daniel Lima; Guido Poianas – Retratos da Cidade,(2002) organizada por José Armando Pereira da Silva; As Cidades cantam o Tamanduateí que Passa (2003), Secretaria de Educação e Cultura de Mauá, SP, no 2º Simpósio Nascentes o Rio e a Cidade. 

Sua voz de ator shakespeariano a recitar meus poemas num CD que me foi presenteado por um grupo de amigos, seguirá, como um afago, a me fazer companhia.

Guardarei de Milton a serenidade do conciliador, aquele que, como ninguém, sabia criticar sem jamais ofender. Um gentil homem, de uma elegância sem afetação. Um homem humilde, sem mistificação. Um amigo, para quem vai esta nênia e a esperança (ainda que difusa) de um reencontro, em outra dimensão. (dtv)

 



Escrito por Dalila Teles Veras às 23h58
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Falhas e culpas

Voltei à minha antiga forma: estou escrevendo diariamente no blog, mas... (voltei?). Só nesta semana, “furei” com um bocado de gente. Esqueci de redigir dois textos que haviam me solicitado. Esqueci de um comunicado importante a uma pessoa chave de determinada reunião. Não tive tempo de visitar as pessoas amigas que estão doentes. Não tive tempo... Puxa vida, sempre a sensação de falta e de falha... (tempos modernos? tempos falhados? tempos apocalipticos?)

Em forma de redenção e alguma espécie de compensação, estive agora à noite reunida com um grupo de abnegados que há anos discute idéias e ações para que a cultura possa ser vista e tida como centralidade numa sociedade de consumo que a tudo devora e transforma em espetáculo.

Foi um momento fraterno e de celebração do qual darei notícias em breve no blog do Alpharrabio.

Ainda assim, carregarei noite a dentro minhas culpas de ser humano tão falho (dtv)



Escrito por Dalila Teles Veras às 23h31
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Detestáveis americanices, por uma americana

Não é de hoje que títulos como “fique rico sem esforço”, “o mundo está dentro de você, saiba como dominá-lo” e outras “lições” para todos os males entulham as gôndolas de lançamentos das livrarias brasileiras e... vendem muito. As vítimas, sempre os mais fragilizados e, vulneráveis, capazes de acreditar nos milagres das transformações prometidos pelos títulos.

Pois não é que, justamente no país inventor e exportador dessas babaquices, alguém se revolta e resolve botar a boca no trombone e dizer o que pensa a respeito?

Leio (na revista Isto é) uma entrevista da jornalista Bárbara Ehrenreich, autora do livro Bright-Sided: How the Relentless Promotion of Positive Thinking has Undermined  América,( O Lado Ruim das Coisas: Como a Promoção Incansável do Pensamento Positivo Prejudicou a América) recentemente publicado e, ao que parece, vem causando alguma grita nas terras do tio Sam.

Ouçamos o que diz a enfurecida americana:

“A ideologia do pensamento positivo é terrivelmente individualista. É só você que tem que mudar, o mundo não. Os livros de autoajuda nunca perguntam como seus desejos  podem entrar em conflito com os do outro” (...) “dá muito trabalho ser positivo o tempo todo. Se você lê esse livros, aprende que tem que acordar, recitar afirmações para si mesmo, colocar um quadro na parede e prega nele figuras do carro e da casa que quer... É muita energia mental. E as pessoas que praticam isso, acabam se afundando ainda mais na própria culpa”.

De forma muito lúcida, Bárbara analisa como a própria sociedade capitalista cria os problemas para logo depois oferecer “a solução”. E tudo rola na esteira da idéia da facilidade e da lógica perversa da economia e do mercado.

Assim é que, sem culpa, fico, como sempre fiquei, com a poesia e a ficção (a boa literatura) que oferecem “ajuda” ao leitor na medida em que fornecem ferramentas “concretas” para olhar e pensar o mundo como ele realmente é (ou não?). Nada de “soluções” fáceis, viver é realmente difícil e perigoso, mas sempre valerá a pena o esforço. (dtv)



Escrito por Dalila Teles Veras às 19h56
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Afetos em florescência II

Manhã, ainda. Estava eu aqui posta em (relativo) sossego (o desassossego, sempre...), quando toca o telefone. Uma voz familiar, lá do lado de lá do mar sem fim, se diz preocupada com esta escriba. Quer avaliar, através do tom da voz, se, afinal, sempre finge a poeta.

Horas antes, outra voz, desta feita de uma distância de 100 km, igualmente dizendo-se preocupada. Dois dias antes, no meio da tarde, outra voz, lá da bela cidade latino americana, aquela banhada pelo Rio da Prata, dizia-se igualmente preocupada, o afeto a embalar as palavras.

Teria esta escriba resvalado por algum secreto confessionário? Em que momento teria a palavra da poeta traído a sua autora?

Pouco importam as razões da preocupação manifestada, importa sim (e acalenta) saber-se motivo. (dtv)



Escrito por Dalila Teles Veras às 17h42
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Afetos em florescência

Afetos também brotam em jardineiras.

Estes me foram presenteados há alguns meses pelos amigos Adélia e Luiz por ocasião de um jantarzinho aqui em casa. As florezinhas estavam, à época, num pequeno vaso e eram muitas e belas. Como toda a beleza, tiveram vida efêmera. Mortas as flores, as raízes foram para o canteiro da varanda do apartamento, sem muitas esperanças.

Dia destes, entretanto, espantei-me com esta exuberância a querer escalar as paredes do edifício e senti-me novamente presenteada.

Os afetos brotaram, assim, sem nada exigir em troca, só pela beleza de existir (dtv



Escrito por Dalila Teles Veras às 21h21
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Retrocessos, mídia e outras perversidades

Agora que a mídia acalmou e sem querer me tornar escrava das manchetes, remeto-me ao caso da injustificável violência sofrida pela estudante daquela tal universidade que é uma de nossas maiores em quantidade (a 4ª. maior do país) e em qualidade, encontra-se em 159º lugar (numa lista de 175 instituições), ou seja, a 16ª pior do país, de acordo com o MEC.

Agora que a moça declara-se “feliz”, após tornar-se capa de revista, conceder entrevistas na TV e tudo a que tem direito uma celebridade instantânea, permito-me dar os meus pitacos sem, naturalmente, sequer resvalar pela questão da inadmissível e abominável atitude de seus insanos colegas e muito menos pelo ainda mais abominável e confuso comportamento da tal Uni alguma coisa, ao transformar a vítima em ré, expulsando-a da escola para depois readmiti-la sob justificativa ainda mais condenável.

Pois bem, já que todo esse episódio de barbárie e retrocesso à intolerância e ao preconceito está largamente discutido, analisado sociologicamente, atenho-me apenas a uma questão que no meu modo de entender pode ajudar a entender o triste acontecimento.

Toda essa moçada é, em última instância, vítima da lógica perversa de um sistema que transforma seres humanos em objetos de consumo. Uma sociedade que privilegia o corpo como “bem”, moeda de troca, vitrine, mas que, por outro lado, conserva aquilo que de mais repulsivo e primitivo armazenou, que vai da hipocrisia à moralidade judaico-cristã, com tudo de pior que isso possa significar, seus equivocados valores absolutos.

Sou de uma geração de mulheres que muito lutou para conquistar igualdade de direitos, direitos esses que incluíam o direito ao próprio corpo. Essa luta que implicou a passagem por fases absolutamente radicais e muitas delas panfletárias, mas necessárias, foram, mais do que reivindicações de gênero, atitudes políticas, no seu mais amplo sentido. Entretanto, não era isso que reivindicávamos, ou seja, a conquista do direito ao corpo para nos tornarmos dele (e dos homens e da mídia) escravas, num inaceitável retrocesso.

Confusa, a juventude vale-se dos valores que a mídia lhes impõe e não sabe o que fazer deles, pois escolas como essa em que o quase linchamento da moça ocorreu, simulam que ensinam e os alunos simulam que aprendem, pegam no seu canudo e são jogados ao deus-dará. Sem a desejável cultura humanística, bagagem mínima desejável para se contrapor a esses valores midiáticos, esses jovens se portam como seres sem discernimento, sem passado e muito menos munidos de quaisquer perspectivas de futuro.

Só por essa perspectiva é que consigo entender como esses rapazes supostamente escolarizados podem ter se portado como bárbaros e, por outro lado, como essa moça, trabalhadora pobre, moradora da periferia, vítima da violência e da humilhação, se comporta como alguém que acaba de galgar o estrelato como uma espécie de prêmio e, agora, dizer-se “feliz”. Assim, ingenuamente submete-se ao perverso e vergonhoso padrão dos programas televisivos que a tudo devora e transforma-se, ela própria, em moeda de troca (um cabeleireiro anda a dar entrevistas contando como aumentou o cabelo da moça em não sei quantos centímetros, deixando-o mais liso e mais louro).

Concluo, de forma pessimista, que não será para logo o reencantamento de mundo que tanto almejamos (dtv)



Escrito por Dalila Teles Veras às 23h14
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Discretas esperanças

Tento emergir destes últimos dois meses que me levaram dois amigos, me derrubaram pela dor (física e espiritual) e logo a seguir pela desordem.

Agora, com a mesa posta, cada coisa em seu lugar (com licença, mestre Bandeira), alentada por algumas leituras como a do livro que dá título a esta croniqueta, da filósofa brasileira Olgária Matos, acreditando que se algum lenitivo (já não digo solução) existe para esta sociedade demente, será pelas vias do pensamento e das coisas do espírito (e da literatura, sim).

 

Ouçamos Olgária: “Sabemos que, no Brasil, é possível freqüentar escolas durante oito anos sem aprender o Português e, também nas Universidades, esse “dialeto” está, aos poucos, se tornando um idioma estrangeiro, cuja sintaxe e gramática é desconhecida, dominado apenas imperfeitamente. Contra isso, erige-se a língua literária – só ela pode constituir um freio à instantaneidade das trocas econômicas. São necessários três segundos para transferir fundos de uma conta bancária, mas são necessários trinta anos para traduzir Borges. (...) A literatura de uma língua é sua proteção”.

 

 

Propõe a professora, assim, a volta ao humanismo pelo esforço intelectual que, graças à mídia, foi proscrito (“aprender foi decretado fastidioso”).

Olho para meu neto nos seus 19 meses de vida e curiosidades e nele projeto as minhas secretas e discretas esperanças.

 

Em tempo: fico imensamente grata, ao mesmo tempo em que peço desculpas, a todos aqueles que por aqui passaram e se decepcionaram ao encontrar a janela fechada, mas que agora se abre para encerrar o ano de forma um pouco mais honrosa, mesmo sem ter cumprido a promessa do seu início. (dtv)



Escrito por Dalila Teles Veras às 22h19
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Poeta deslocada

A poeta anda envolvida com uma complexa logística, ou seja, a de pintar a casa com tudo dentro (pessoas, móveis, quadros, livros) e toda a rotina (comer, dormir, ler, escrever). O resultado é um estado de quase torpor ao fim do dia, o eixo vital fora do eixo (necessidade uma certa ordem para ordenar as idéias), daí este quase abandono da escrita.

Hoje, em meio a uma crise de quase histeria, fugiu para a livraria e “jogou conversa fora” a tarde toda. Ganhou imensas recompensas (vide o relato clicando aqui: http://blog.alpharrabio.com.br/ ).



Escrito por Dalila Teles Veras às 22h47
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O sentido breve das palavras

Amanhã, dia 7 de novembro de 2009, sábado, às 15 horas, no Lugar Pantemporâneo, acontecerá o lançamento O sentido breve das palavras, pequena antologia do poeta português Jorge Fragoso, organizada pelo poeta Álvaro Alves de Faria que dirige a Coleção Alumbramento, da editora RG, de São Paulo.

O lançamento de O sentido breve das palavras contará com um espetáculo teatral e poético pela atriz Patrícia Rizzo e leitura de poemas por Dalila Teles Veras, Constança Lucas e Flora Figueiredo.

 

O Lugar Pantemporâneo está situado na Av. 9 de Julho, 3.653 - Jardins, São Paulo - SP - a 50 metros da Rua Estados Unidos (vide http://www.pantemporaneo.com.br/) e conta com estacionamento terceirizado, no subsolo.

O livro "O sentido breve das palavras", com capa e ilustração de Valdir Rocha, será distribuído gratuitamente às pessoas que comparecerem ao evento, que também tem entrada franca. Fora de mercado, a obra se destina a leitores de poesia, bibliotecas públicas e entidades culturais.

Jorge Fragoso nasceu em Beira, Moçambique, em 1956, e é licenciado em Filosofia, editor, membro da Oficina de Poesia da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (dirigida pela poeta, ensaísta e professora da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Graça Capinha) e subdiretor da Revista Oficina de Poesia. Tem vários livros publicados, entre eles Inima, poesia (1994), Rua do Almada, contos (1995), O tempo e o tédio, prosa poética (1998), Dez horas de memória, novela (1999) e A fome da pele, poesia (2004). Participa de várias antologias de poesia em países europeus.

“O poeta português Jorge Fragoso, que vive em Coimbra, diz que não existe voz universal da poesia para falar ao outro. Observa que a poesia tem de ser o espelho de um desejo de mudar a instituição, ser conflito, morder o estado parado do sentido com os dentes da raiz ou outro olhar. Acredita que, mesmo com o espaço restrito, a poesia tem de interferir para fazer o novo de novo.”

Do prefácio do poeta Álvaro Alves de Faria para O Sentido breve das palavras.

 

Espero vê-los por lá. (dtv)



Escrito por Dalila Teles Veras às 23h10
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Uma exposição à espera de um livro

Da programação pessoal deste meu último fim-de-semana prolongado, constou uma visita ao Salão de Exposições do Paço Municipal de Santo André para apreciar a Mostra Andamentos da Cor, que marca os 20 anos de morte de Paulo Chaves.

 

 

 

(fotos Luzia Maninha) 

 

As 60 obras expostas, representativas de todas as fases do artista, vão dos anos 50 a 1989 e dão bem uma idéia da relevância desse pintor que, na opinião do curador José Armando Pereira da Silva, “é tão importante quanto Luiz Sacilotto, por representarem duas vertentes da pintura na segunda metade do século 20, o abstracionismo geométrico de Sacilotto e o informal de Chaves”.

 

 

 

 O curador vê ainda “musicalidade” na pintura de Chaves, razão, inclusive, do título que deu à exposição, bem como a denominação de cada uma das fases de sua trajetória artística, às quais deu títulos de andamentos musicais.

 

 

 

 

A idéia da exposição era de que a mesma acontecesse simultaneamente ao lançamento do livro do mesmo nome, de autoria do pesquisador e crítico de arte José Armando Pereira da Silva, também idealizador e curador da mostra. O livro foi finalizado há mais de um ano e, apesar de promessas, ainda se encontra na dependência de patrocínio.

Não deixa de ser uma pena ver essa  exposição desvinculada da publicação do livro. Adquirir esse livro representaria a possibilidade de levar a exposição para casa e aprofundar o conhecimento sobre esse extraordinário artista, nascido em 1921 e que, aos 18 anos, veio com a família para Santo André, cidade onde fez sua primeira exposição, em 1947, no I Salão de Belas Artes do Município.

 

 (pagina inédita do livro)

 

O livro registra e analisa a trajetória de Paulo Chaves, que em 1954 foi para a Europa estudar pintura e História da Arte. No retorno ao Brasil, viu sua obra reconhecida ao participar da Bienal Internacional de São Paulo, do Salão Paulista e do Salão Nacional de Arte Moderna. Posteriormente, expôs em Nova York, Barcelona e Japão. Muitos de seus quadros pertencem a importantes acervos como os do Museu de Arte de São Paulo, Museu de Arte Brasileira (FAAP), Museu de Arte Moderna e acervos municipais das cidades de Santo André, São Bernardo do Campo e São Caetano do Sul.

Não deixa de ser uma pena constatar que a significância cultural desse livro não tenha sido percebida tampouco sensibilizado aqueles que, ao menos por dever, deveriam.

Já que a região do ABC onde residiu Paulo Chaves e onde ainda residem seus familiares, não reconheceu  (ou não quis reconhecer) sua importância, negando-se a patrocinar/publicar o livro, talvez fosse o caso de recorrer à cidade onde morreu o artista, em 1989. A Maresias (SP) praiana foi o cenário onde Paulo Chaves pintou uma grande quantidade de quadros, seu último “andamento”, e, diferentemente das outras cidades onde pintou, mereceu ter o nome subscrito abaixo de sua assinatura. Aqui fica a idéia, esperando que vingue. (dtv)



Escrito por Dalila Teles Veras às 21h36
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